Cidade sitiada
Redação DM
Publicado em 15 de janeiro de 2016 às 01:03 | Atualizado há 1 ano
Após ação criminosa de um grupo de 20 homens, na cidade de São Miguel do Araguaia a 475 km de Goiânia, que invadiu e explodiu na noite da última quarta-feira (13) duas agências bancarias – uma do Banco do Brasil e outra do Bradesco – o terror se instalou entre os moradores. Pessoas foram sequestradas e usadas como escudo humano o que deixou feridos e uma vítima fatal – a assessora Vivianny Costa Ferreira, de 27 anos, que trabalhava na sede do Ministério Público do município.
Os homens fortemente armados, todos encapuzados, vestindo roupas pretas e colete à prova de balas, chegaram à Praça Ovídio Martins – onde muitas pessoas estavam em bares e lanchonetes – em vários carros e motos e iniciaram o ataque, que começou por volta das 10h40 da noite, em busca de reféns enquanto outros integrantes do grupo explodiam as agências bancárias.

O menor M.C., 16 anos, contou a reportagem do jornal Diário da Manhã que estava trabalhando em um dos comércios do pai, uma sorveteria, quando foi surpreendido por um homem que chegou atirando e o levou para a praça juntamente com seus clientes.
“Ele abordou a gente na sorveteria às 10h40. Foi só um homem dos vinte homens que estavam espalhados. O que me abordou ficou comigo como refém. Todos estavam encapuzados, usando roupas pretas e coletes. Não tenho conhecimento sobre isso, mas as armas pareciam ser armamento pesado”, descreve.
O pai de M.C., que no momento da ação trabalhava em outro estabelecimento da família, uma pizzaria, também foi sequestrado e levado para a praça Ovídio Martins. Nas palavras de M.C. todos foram usados como “escudo humano”: “O meu pai também foi refém. Eles [sequestradores] ficaram atrás de mim atirando o tempo todo. Essa foi uma experiência muito ruim. No meu grupo de reféns havia oito pessoas tinha duas mulheres – uma jovem e uma idosa, mas existiam outros grupos de reféns.”
Antes de serem levados para a praça, funcionários tanto da sorveteria como da pizzaria conseguiram acionar a empresa que oferece segurança patrimonial para os comércios da família de M.C., a Fênix Investigação e Segurança. O dono do estabelecimento, Leonardo Freitas, 35 anos, contou à reportagem que por volta das 22h25 foi acionada a botoeira de pânico.
“O pessoal (assaltantes) já havia disparados vários disparos e os meus clientes M.e J. já estavam na condição de refém, eles e os funcionários. Imediatamente entrei em contato com o COPOM – procedimento de praxe nessa situação – mas não consegui falar, então entrei em contato com 13ª companhia e falei com o subcomandante, capitão Borba, que levantou a situação e 5 minutos depois informou que estava ocorrendo um assalto a banco”, narra.
Leonardo informou que por volta da 11h40 seus clientes ligaram para ele avisando que haviam sido soltos na BR 080 na saída para o distrito de Luiz Alves. “Fomos lá, pegamos eles e deixamos em casa e encerramos a ocorrência dessa forma. Encerramos a ocorrência por volta de 1 hora da madrugada de quinta-feira. O caso está sendo apurado pelos grupos especializados da polícia que estão na cidade – Grupo de Elite da Polícia Civil do Estado de Goiás (GT3), Batalhão de Operações Policiais Especiais (BOPE), Grupo de Radiopatrulha Aérea (GRAER).
Os tempos mudaram
Ação ousada de criminosos deixa uma cidade em pânico e rastro de destruição

Estragos pela cidade foram compartilhados pelas redes sociais desde o momento em que o grupo evadiu
Tatiane da Silva, 24 anos nasceu em São Miguel do Araguaia e considera ousada a ação do criminosos. Ela lembra que demorou para perceber que se tratava de tiros o bombardeio que durou cerca de uma hora na cidade. “No começo não identifiquei que se tratava de tiros, achei que eram fogos de artifícios até identificar que era tiro mesmo, porque eles davam uma pausa e começava de novo. Ouvi muitos gritos na praça”, conta.
A jovem se diz estarrecida com a dimensão da ação que deixou a cidade em pânico. “Eles destruíram duas agências grandes, de dois andares. As agências ficam próximas uma da outra – a do Bradesco fica em frente Praça Ovídio Martins e a outra agência fica na esquina da rua quatro, no centro da cidade”.
Na hora do tiroteio, sem ação, Tatiane pegou a filha pequena e se abrigou na casa de um amigo porque no momento ela estava no escritório onde trabalha com o marido e sua casa fica longe: “buscamos refugio na casa de um amigo”.
Ela menciona que apesar de ter nascido em São Miguel do Araguaia morou quatro anos em Goiânia e resolveu voltar por causa da violência da cidade grande. “Nasci aqui em São Miguel e morei um tempo em Goiânia. Fiquei aterrorizada porque isso são coisas que ocorrem em cidade grande, nunca tinha presenciado isso tão de perto. Foram mais de uma hora de tiro, eles estavam muito preparados com armamento, porque o estrago que eles fizeram no banco foi surpreendente”, conta.
As agências bancárias ficaram destruídas após ação criminosa. Ainda não se sabe o valor subtraído pela quadrilha. A assessoria de imprensa do Bradesco informou a imprensa que o banco ainda está avaliando os danos ocorridos e a assessoria de imprensa do Banco do Brasil, não havia se posicionado sobre o caso.
Reféns do terror

Tatiane da Silva conhecia a assessora Vivianny Costa Ferreira, de 27 anos, vítima de um encontro fatal. Ela descreveu que Vivianny estava atravessando a Avenida José Pereira do Nascimento, quando foi abordada pelos criminosos. “Eles deram um tiro e pediram para ela dar a ré no carro, não passar e em seguida deram outros tiros que acabaram atingindo ela no peito. O namorado dela saiu do carro e pediu calma e conduziu ela até o hospital”.
O jornalista Mayone Melo nasceu e morou durante muito tempo na cidade, mas devido ao trabalho atualmente mora em Goiânia. Em entrevista ao jornal ele lamentou a morte da amiga de infância. “Meus pais moram lá, tenho amigos, familiares, a Vivianny é minha amiga de infância. Ela era uma garota filha de um casal muito religioso, Jurandir e Cizinha. Foi criada dentro da igreja Católica do município, onde participava do grupo de jovens”, recorda.
Mayone informou que o corpo de Vivianny foi velado no salão da Pax Araguaia, em São Miguel do Araguaia e o enterro estava previsto para ocorrer às 18h de ontem. “É lamentável, pois além de aterrorizar os moradores a ação ousada dos bandidos ainda tirou a vida de uma pessoa inocente, que estava no local errado na hora errada”, conclui.
A equipe do DM, entrou em contato com a prefeita Adailza Crepaldi, de São Miguel do Araguaia, para maiores esclarecimentos, mas ela estava no velório da advogada Vivianny Costa Ferreira e não pode atender as nossas ligações.
O procurador-geral de Justiça em exercício, Altamir Rodrigues Vieira Júnior, decretou luto oficial de três dias no Ministério Público de Goiás (MP-GO) pela morte da assessora da 1ª Promotoria de Justiça de São Miguel do Araguaia, Vivianny Costa Ferreira. De acordo com o MP-GO, todas as providências em relação ao caso e para assegurar o apoio tanto da família da jovem quanto aos servidores das promotorias locais estão sendo tomadas. Além do deslocamento de equipe do Centro de Segurança Institucional e Inteligência (CSI) para auxiliar no trabalho investigativo.