Clubes de golfe luxuosos voltam a investir nos EUA
Redação DM
Publicado em 15 de dezembro de 2015 às 06:05 | Atualizado há 11 anosBOCA RATON, Estados Unidos – Ervas daninhas, capim e frondes de palmeiras caídas cobrem o gramado abandonado do que antes foi o clube de golfe Mizner Trail, e esse estado de abandono reflete o destino de centenas de campos de golfe pelo país, muitos deles conhecidos como “caminho de coelho” ou “fazenda de cabras”.
A pouca distância dali, no entanto, operários suados vestindo uniformes amarelos lotavam a estrutura em construção de um centro de atividades de quase 14 mil metros quadrados, parte de um programa de reforma de US$ 50 milhões do Boca West Country Club, de 44 anos, lar de seis mil moradores, onde a parte central do campo foi recém-plantada e as casas são vendidas por até US$ 5 milhões.
Com a temporada de inverno de golfe começando na Flórida – estado com o maior número de campos de golfe do país, com mais de mil –, os extremos do fracasso e do sucesso apontam para uma reviravolta nacional no esporte. Ele florescia quando jogadores como Tiger Woods reinavam, mas o esporte se agitou com a mudança de gostos e da economia, com uma população envelhecida de jogadores e os caprichos da geração do milênio envolvendo passatempos.
Hoje, existem quase quatro milhões de golfistas a menos nos EUA do que há uma década, segundo a Fundação Nacional do Golfe. Quase 650 campos de 18 buracos fecharam desde 2006, segundo a entidade. Somente em 2013, 158 campos de golfe fecharam e apenas 14 foram abertos, oitavo ano consecutivo em que os fechamentos superaram as aberturas. Algo entre 130 e 160 campos fecham a cada 12 meses, tendência que a fundação prevê que continue “nos próximos anos”.
Dezenas de campos de golfe públicos e privados no sul da Flórida, e centenas pelo país, enfrentam um momento de transição. Alguns campos procuraram proteção contra falência, enquanto outros viram suas hipotecas serem executadas. Muitos estão em construção, com residências e condomínios subindo em uma área antes pontilhada com bandeiras de pinos, armadilhas de areia e obstáculos aquáticos. Outros não deram em nada enquanto esperam a resolução de disputas jurídicas e de zoneamento.
Muitos clubes sobreviveram reduzindo o valor do título e de outros custos, diminuindo o número de buracos para jogar e oferecendo comodidades e atividades familiares que vão muito além de bater em uma bola com um taco de ferro.
“Alguns campos estão se adaptando, outros, não”, afirmou Paul H. Chipok, advogado de Orlando, Flórida, especializado em questões ambientais e ligadas ao uso da terra. “Custa US$ 100 mil mensais para operar um campo de golfe de 18 buracos – cortar a grama, fertilizante, manutenção regular. Sem contar melhorias de capital. É preciso ter muitos jogadores para cobrir tudo isso.”
Em campos particulares, os membros podem estar dispostos a pagar mais se necessário “porque esperam determinado nível de serviço”, disse Chipok. “Já os campos abertos para o público em geral podem não ter o dinheiro para cuidar da manutenção, e com menor manutenção, os campos têm aparência pior e eles têm de cobrar menos para que sejam usados. É um círculo vicioso. É essa fase de correção que estamos vivendo.”
Lesley Deutch, vice-presidente da unidade de Boca Raton da consultoria imobiliária John Burns Real Estate Consulting, declarou que o “modelo antigo” de campos de golfe particulares com títulos caros e afiliação “muito exclusiva” está em declínio.
“Não creio que o setor tenha acabado. Acho que só está mudando”, disse ela.
No sul da Flórida, onde terra adequada à construção está desaparecendo velozmente, os empreendedores imobiliários veem os campos de golfe como espaço desperdiçado. Grandes pedaços de terra que antes foram campos imaculados no meio de comunidades residenciais estão se tornando território altamente explorável – grandes oportunidades para lucrar muito mais do que com tacos e buracos. Como resultado, os efeitos colaterais da queda do esporte são sentidos com maior força pelos moradores de comunidades onde os campos não são mais usados para o jogo, principalmente porque o valor de suas casas cai acentuadamente quando o campo é fechado.
“Existem grandes questões, disputadas em processos”, afirmou Steven M. Ekovich, corretor de Tampa, Flórida, que representa vendedores de campos de golfe. “Os proprietários de casas pagavam de 20 a 30 por cento a mais por um terreno em um campo e, de repente, os empreendedores imobiliários chegam querendo construir na frente deles. Isso resulta em grandes brigas.”
Poucos quilômetros ao sul, em Tamarac, Flórida, o dono do Woodmont Country Club, Mark Schmidt, enfrentou grande oposição de alguns dos donos de casas do clube a seu plano para o campo, que envolvida reduzir os buracos de 36 para 18, a construção de um centro comercial de 1,8 hectare e 152 casas – além das 1.900 já existentes. O projeto terminou sendo aprovado no ano passado, mas a prefeitura ainda não aprovou a proposta do proprietário de construir um hotel com 120 quartos no local.
“Sempre existe resistência”, disse Schmidt, que comprou a propriedade Woodmont há dez anos. “O custo de operar um campo de golfe hoje é muito alto, então a terra recebe um uso melhor. Enquanto algumas pessoas perderam suas vistas, outras ganharam vistas melhores. Não adianta deixar a terra sem ser aproveitada.”
Michelle F. Tanzer, advogada de Boca Raton que representa proprietários e construtores de resorts e participa da diretoria da Associação Nacional de Clubes, ajudou clubes de campo a se adaptarem ao que ela chama de demanda crescente por instalações de academias, piscinas ao estilo de resorts, parques aquáticos e melhores opções de refeições em lugares em que anteriormente somente o golfe era a norma. Segundo ela, o setor de golfe está “se saindo muito melhor do que em 2009”.
O investimento pesado do Boca West Country Club em suas instalações, avaliou Michelle, “é um exemplo perfeito de adaptação” à economia cambiante do golfe. “Eles estão gastando uma fortuna para tornar o lugar mais voltado às famílias. É um gol de placa.”
Oliver K. Hedge, que avalia as propriedades de campos de golfe para a Cushman & Wakefield, corretora imobiliária, disse que o setor “deu passos largos” para se livrar dos campos de baixo desempenho nos últimos anos.
“Vários clubes que fecharam realmente tinham de ser fechados. A Flórida é um bom microcosmo da nação porque temos uma densidade elevada de campos de golfe”, disse Hedge.
De acordo com ele, muitos dos fechamentos envolveram campos públicos ou não exclusivos, isto é, clubes com títulos, mas que deixam não membros jogarem pagando uma tarifa.
Em 2009, durante o que Hedge chamou de “modelo econômico anterior”, o Marsh Landing Country Club, campo particular a 483 quilômetros daqui, em Ponte Vedra Beach, Flórida, cobrava US$ 100 mil pelo título, dos quais 90 por cento eram devolvidos quando do cancelamento. A manutenção era de US$ 6.612 anuais. Hoje, o título custa US$ 25 mil e não é mais reembolsável, enquanto a manutenção anual subiu para US$ 8.400.
Um empreendedor tido como agressivo no golfe é o onipresente Donald J. Trump, que em 2012 acrescentou à sua carteira 14 campos, comprando mais dois na Flórida, o Ritz Carlton Golf Club and Spa, em Jupiter, e o Doral Golf Resort and Spa, nos arredores de Miami.
O preço do resort em Jupiter – agora conhecido como Trump National Golf Club – não foi revelado, embora a empresa de Trump tenha investido perto de US$ 2 milhões em reformas, segundo Hedge.
O empreendedor investiu muito mais – quase US$ 250 milhões – para consertar os quatro campos do resort de Doral, depois que o comprou falido por US$ 145 milhões. Em 23 de outubro, durante evento da campanha presidencial no resort, agora batizado Trump National Doral, o candidato se gabou da habilidade como negociador ao conseguir um abatimento de US$ 25 milhões sobre o preço pedido pela propriedade.
“O segredo do sucesso desses empreendimentos era o momento do mercado como um todo”, afirmou Hedge, referindo-se aos dois resorts de Trump. “Imagino que tenham visto a volta do mercado de golfe de luxo, como aconteceu.”
Ekovich, o corretor de campos de golfe em Tampa, foi um pouco menos positivo em sua estimativa da força do mercado.
“Os locais subiram um pouco, bem como as rodadas”, disse Ekovich, que observou que durante os anos da recessão o preço de alguns campos de golfe “desabou” para quase a metade do valor antigo. “As coisas estão andando na direção certa, mas não são crescimentos meteóricos.”