Colômbia volta a liderar produção de coca
Redação DM
Publicado em 13 de novembro de 2015 às 06:05 | Atualizado há 11 anosTIERRADENTRO, Colômbia – O cultivo ilegal de coca na Colômbia está voltando a crescer. Apenas dois anos depois de ter deixado o posto de maior produtora do mundo, ficando atrás do Peru, o país, agora, ultrapassa o vizinho e a Bolívia (terceiro lugar) combinados. Em 2014, os colombianos plantaram 44% mais coca do que em 2013, e agentes antinarcóticos afirmam que a safra deste ano vai ser ainda maior.
O boom da coca vem num momento delicado para o governo colombiano, que estaria nos últimos passos da negociação de paz com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc). Um dos maiores pilares do Plano Colômbia de combate ao cultivo, o lançamento aéreo de herbicidas foi suspenso em outubro por causa do potencial cancerígeno das substâncias. O programa recebeu cerca de US$ 9 bilhões em financiamento dos EUA, desde 2000.
O presidente colombiano, Juan Manuel Santos, aliado-chave dos americanos, afirma estar pronto para iniciar uma campanha de substituição maciça de plantios se chegar ao acordo com as Farc. Os guerrilheiros se comprometem a colaborar nas negociações com agricultores para que ponham fim às plantações de coca e as substituam por cultivos legalizados. Santos conta com o apoio dos EUA para a gigantesca operação.
— Temos uma oportunidade de ouro — garantiu Santos. — Mas se não dermos aos agricultores uma alternativa, vão continuar cultivando coca.
Queda de área cultivada para um terço
As Farc, cujos guerrilheiros inicialmente cobravam taxas aos agricultores pela produção e continuaram dominando o tráfico nas áreas sob seu controle, garantem que vão deixar a rede de drogas se o acordo de paz for fechado. Mas outros grupos armados na Colômbia verão uma oportunidade para entrar nas áreas em que as Farc ficarem de fora.
O financiamento dos EUA no lançamento de herbicidas teve uma grande importância na redução das plantações de coca no país — de 162 mil hectares, em 2000, para 48,5 mil, em 2012. A tática, no entanto, foi amargamente recebida pela comunidade rural e acabou tendo resultados decrescentes com a transferência dos cultivos de drogas para parques nacionais, reservas indígenas, regiões fronteiriças e outros lugares fora dos limites para a operação.
Dois terços dos 170 mil acres de plantação de coca do país agora estão nessas áreas, de acordo com autoridades do governo. Como as plantas maduras contêm mais folhas para o processo de produção do cloridrato de cocaína (a versão mais comum da droga), um aumento de 44% da área de terra plantada resulta no crescimento de 52% na produção de cocaína somente este ano, segundo estimativas da ONU.
Mesmo que o governo de Santos e as Farc fechem o acordo, isso não significa que assistentes sociais com sementes de cacau ou projetos de piscicultura serão capazes de se espalhar pelo país. Para o diretor do Escritório de Drogas e Crimes da ONU na Colômbia, Bo Mathiasen, ainda que pague mais do que cultivos tradicionais, a coca não chega a ser um negócio realmente lucrativo para pequenos agricultores.
— Essa é a boa notícia para nós, porque abre caminho para seguirmos com alternativas — diz ele, prevendo que haverá pressão da comunidade internacional sobre o governo se os números da coca continuarem crescendo.
Segundo o encarregado pelo programa de substituição de cultura, o economista e ex-ministro da Saúde Eduardo Díaz, cerca de um milhão de cidadãos (dos 50 milhões de colombianos) estão ligados direta ou indiretamente ao mercado de coca.
— Temos que estabelecer a presença do Estado nessas zonas de de conflito — preconiza.
Pagamentos em dinheiro para cada família em troca da erradicação voluntária também não vão funcionar, segundo ele, porque a possibilidade de se ganhar dinheiro simplesmente encoraja todos a plantarem coca. Pelo contrário, o governo quer que comunidades inteiras optem pela substituição, na esperança de que isso vá trazer investimentos oficiais em infraestrutura, saúde e educação. Quem resistir deve enfrentar a erradicação forçada e penalidades criminais.
Como alternativa, um programa de substituição apoiado pela Agência Internacional de Desenvolvimento dos EUA está encorajando ex-cultivadores de coca a tentarem cacau e banana. A primeira parecia ser mais promissora para agricultores de Tierradentro, mas as árvores plantadas levam muitos anos para começarem a dar fruto. Bananas eram a única opção neste meio tempo, e muitos confessam que estavam perdendo a paciência, ganhando menos de US$ 175 por mês — muito abaixo do salário mínimo e menos de um terço do que arrecadavam com coca. A venda de tijolos de pasta base era muito mais fácil do que a logística dos carregamentos de banana para chegar a mercados a várias horas de distância por estrada de terra.
— Hoje, vivemos em paz — relata Alexis Fernandez, de 63 anos. — Mas não há coca nem dinheiro.