‘Crise econômica e humanitária é mais grave que a institucional’, líder da bancada opositora na Venezuela
Redação DM
Publicado em 9 de janeiro de 2016 às 05:06 | Atualizado há 11 anosBUENOS AIRES – Ele é um dos representantes da ala moderada da oposição venezuelana, que nunca esteve de acordo com aventuras inconstitucionais para antecipar a saída do presidente Nicolás Maduro do poder. Seu partido, o Primeiro Justiça (PJ), é o maior da Mesa de Unidade Democrática (MUD) e ele foi escolhido como líder da bancada opositora que desde 5 de janeiro passado controla a Assembleia Nacional (AN).
É aliado do governador do estado de Miranda e ex-candidato presidencial, Henrique Capriles. E, ao contrário do novo presidente do Parlamento, Henry Ramos Allup, do tradicional partido Ação Democrática (AD), Borges não inclui em sua lista de ações mais urgentes a elaboração de um plano para tirar Maduro do Palácio Miraflores. “Para mim, o prioritário é que as pessoas sintam que vamos mudar sua vida hoje, não daqui seis meses”, explicou o deputado, em entrevista ao GLOBO. Borges também questionou a maneira como foram retirados as fotos de Hugo Chávez da Assembleia. Diante do risco de uma crise institucional, caso o chavismo insista em desconhecer as leis aprovadas pela nova Casa, afirmou que “se essa crise acontecer, será responsabilidade do governo”.
Analistas locais dizem que a Venezuela já está vivendo uma crise institucional…
Na minha opinião, a crise econômica e humanitária é muito mais grave do que a crise institucional que poderia ocorrer em nosso país. A situação das pessoas que não conseguem alimentos, medicamentos, que passam horas nas filas dos supermercados, tudo isso é muito mais grave. Pena que os meios de comunicação deem mais atenção à crise institucional, que, se ocorrer, será culpa do governo e não da oposição. Se o governo não recuar em sua atitude de tentar anular tudo o que for feito por esta nova AN, haverá crise institucional. Mas isso, repito, depende exclusivamente do governo, que pretende usar uma Justiça dominada pelo Executivo para alterar decisões de um Legislativo independente.
Quais serão os primeiros projetos de lei a serem tratados pela AN?
Já estamos trabalhando em vários projetos econômicos, sociais e políticos, e criando as comissões de trabalho. No caso da lei de anistia para presos políticos, exilados e processados, estimamos que ela poderia estar aprovada num prazo de um mês.
O governo poderia tentar declarar a lei de anistia inconstitucional?
Uma vez aprovada a lei, ela entra em vigência. O governo poderia pedir à Justiça que declare sua inconstitucionalidade. Lamentavelmente, o governo não parece disposto a aceitar nada de nada. Esse é o problema que temos: o Executivo transformou-se num governo fechado às mudanças em matéria de direitos humanos, em matéria econômica, fechado ao diálogo. Já era assim antes das eleições e continua sendo assim. É incrível, mas é verdade. Não temos a menor comunicação: não tivemos sequer uma reunião para que nos dissessem onde estavam as chaves da AN. É como se fossem dois países diferentes.
No dia da posse da nova Assembleia, Ramos Allup insistiu no prazo de seis meses para apresentar ao país uma estratégia para tirar Maduro do poder. O senhor não mencionou isso em seu discurso. Existe consenso na oposição sobre a eventual saída de Maduro?
Não se trata de posições mais moderadas ou radicais, mas, para mim, o prioritário e urgente é que as pessoas sintam que nós vamos mudar a vida da população hoje, não daqui a seis meses. Por isso, dizemos que é necessário concentrar esforços nas leis sobre habitação, ajuda aos idosos, produção nacional. É uma questão de estilos, mas não de diferenças de fundo. Nós pensamos que as necessidades sociais e econômicas são urgentes, sem negar o que dizem outros dirigentes.
Então o Primeiro Justiça também defende a ideia de apresentar um plano para tirar Maduro do poder daqui a seis meses?
Temos um acordo prévio às eleições, e foi traçado um horizonte. Esperávamos que, depois das eleições, o governo tivesse um sentido de diálogo, de sensatez. Mas, até agora, lamentavelmente, isso não aconteceu. O país inteiro vive um dilema muito grande, porque ou o governo muda ou será necessário mudar o governo. Essa é uma realidade.
E quais são as alternativas?
Esta é uma discussão legalista que não tem importância. Neste momento, o importante é avançar com projetos de lei que devem se tornar realidade, que sejam projetos que provoquem mudanças reais na vida das pessoas.
A retirada dos quadros de Hugo Chávez da Assembleia teve grande repercussão internacional…
Nós, na campanha, prometemos unidade, e não somente na oposição, mas unidade no país. Prometemos fazer todos os esforços necessários para reconciliar a Venezuela, voltar a unir o país. Temos de ser coerentes com esse compromisso, porque enquanto vivermos num país fragmentado, todos perdemos. Acho que, embora sejamos contrários ao culto ao personalismo, a maneira como foi feito foi desafortunada.
Como tem sido a convivência com o chavismo na Assembleia?
Tem sido bastante tensa, mas é uma questão que temos que cultivar todos os dias: o respeito, a tolerância, a convivência. O governo deve aceitar esta mudança política. Nós, na MUD, apostamos a que não exista uma crise institucional, não nos convém e não convém ao país. Mas, lamentavelmente, o governo sempre se alimentou da violência política, da crise e do conflito. Dependerá de nós não entrar nesse jogo, que dominou a política venezuelana nos últimos 16 anos.