Cotidiano

De refugiados a suspeitos no país do acolhimento

Redação DM

Publicado em 9 de janeiro de 2016 às 05:05 | Atualizado há 11 anos

BERLIM – As agressões e ataques sexuais em três cidades alemãs — Colônia, Hamburgo e Stuttgart — no último réveillon, quando centenas de imigrantes cometeram abusos e roubos contra mulheres, já começaram a ter efeitos práticos e abalar a política de refugiados da chanceler federal Angela Merkel. A polícia de Colônia investiga 32 suspeitos, entre eles 22 fugitivos que pediram asilo político. Segundo a TV ZDF, um deles teria reagido a policiais na escadaria entre a estação ferroviária e praça da Catedral de Colônia, dizendo:

— Eu sou sírio. O senhor não pode me prender porque eu fui convidado (para a Alemanha) pela senhora Merkel.

Segundo a polícia, os principais suspeitos são nove argelinos, oito marroquinos, cinco iranianos, cinco sírios, um iraquiano, um sérvio, um americano e dois alemães. Os outros envolvidos não foram ainda identificados.

Preocupação com eleições

Ontem, o secretário do Interior da Renânia do Norte-Vestfália (estado onde fica Colônia), Ralf Jäger, anunciou o afastamento do chefe da polícia, Wolfgang Albers, de 60 anos, “aposentado antecipadamente”. Albers vinha sendo criticado porque a polícia de Colônia não conseguiu proteger as mulheres dos ataques e pela tentativa de ocultar fatos da opinião pública, como a informação de que vários dos suspeitos de agressão eram fugitivos que haviam chegado à Alemanha nos últimos meses.

Merkel, que vem sendo criticada pelos próprios aliados desde o ano passado, pela sua política de abrir as fronteiras e deixar entrar no país pessoas sem nenhum documento, reagiu rapidamente. Ela anunciou que asilados acusados de “delitos nojentos”, como os ataques sexuais da última semana, serão deportados aos seus países de origem. Em telefonema à prefeita de Colônia, Henriette Reker, a chefe do governo alemão manifestou “indignação diante destes atos de violência insuportável e agressões sexuais”.

— A preocupação de Merkel é sobretudo com as importantes eleições estaduais do próximo dia 13 de março em Baden Württemberg, Renânia Palatinado e Saxônia-Anhalt — comentou o cientista político Eckart Jesse, da Universidade de Chemnitz.

E é na Saxônia-Anhalt, no Leste alemão, onde há a maior ameaça de a União Democrata-Cristã (CDU), partido de Merkel, perder votos para o Alternative für Deutschland (AfD, Alternativa para a Alemanha), de extrema-direita. Em consequência da crise dos refugiados, as previsões de votos para a AfD subiram para 16%, no Leste, e 9% na antiga Alemanha Ocidental. Um dos principais políticos da legenda, Björn Höcke, chamado de “novo Hitler” por suas declarações racistas, afirmou que os fugitivos já começam a ser uma ameaça, como vinha dizendo desde o ano passado.

— Os pesadelos aumentam. A mulher alemã está ameaçada por homens árabes — afirmou Höcke.

A presidente nacional do AfD, Frauke Petry, de Dresden, comparou os acontecimentos do Ano Novo com a violência dos soldados do Exército Vermelho soviético contra mulheres alemãs em 1945. Mas também refugiados e integrantes de ONGs contra a extrema-direita estão contrariados com os acontecimentos brutais do réveillon.

— Pisotearam nosso trabalho de anos de combate à xenofobia e de proteção a imigrantes — lamentou Hermann Rheindorf, da ONG Arsch Huh.

Segundo investigações da polícia, houve também roubos, mas o objetivo dos ataques da semana passada era sexual. Um dos homens detidos, refugiado árabe que vive num abrigo nos arredores de Colônia, tinha um papel com palavras em alemão, traduzidas do árabe, que indicam uma intenção sexual.

Spray de pimenta em alta

Em Colônia, 200 mulheres apresentaram queixas. Houve abuso, roubo e, em menor número, até estupro. Muitos dos celulares roubados foram localizados ontem num abrigo de refugiados. Em Hamburgo, houve 108 queixas.

Os ataques de Colônia tiveram um impacto maior entre os alemães do que os atentados de Paris: 30% dos alemães afirmaram que, no futuro, vão evitar lugares de aglomeração.

Christoph Kuttner, comerciante de armas, disse que houve uma explosão na venda de “spray de pimenta”, que não precisa de licença especial, nos últimos cinco dias.

— O estoque que tinha para vender até abril foi todo vendido nesta semana — contou Kuttner.

Segundo Moritz Schuller, editor de opinião do jornal “Tagesspiegel”, o governo alemão ameaça recusar asilo aos delinquentes apenas para acalmar a população:

— Para onde Merkel vai deportar o estuprador que fugiu da Síria há poucos meses?

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