Cotidiano

Duas famílias desmoronadas

Redação DM

Publicado em 11 de agosto de 2016 às 03:39 | Atualizado há 1 ano

 Familiares acompanharam buscas na torcida para que entes estivessem vivos, mas restaram desespero e dor para os parentes

A obra, localizada na Rua 87, no Setor Sul, em Goiânia, havia começado há pouco tempo: estava em fase de fundação. Os operários Carlito Francisco dos Santos e Wender César de Oliveira trabalhavam na escavação do terreno. O buraco já alcançava seis metros de profundidade quando um barranco na lateral desmoronou por cima dos dois. Soterrados em uma vala de aproximadamente seis metros sob terra e entulhos, eles protagonizaram uma história de dor. As duas famílias das vítimas e o Corpo de Bombeiros foram avisados por volta das 14h da tarde de ontem sobre o acidente.

No local, enquanto os bombeiros deram início ao trabalho de resgate, a mulher de Carlito Santos, a dona de casa Zelia de Oliveira Santos, 40, chegou ao local do acidente. No começo, Zelia nutria esperança de que o marido poderia ser resgatado com vida: “Tomara que ele esteja vivo”. Mas as horas foram passando e o desespero se abateu na família, que aos poucos chegava no local do acidente.

Consolando uns aos outros, de maneira muito comovente, eles – a cada minuto que passava – sentiam que as chances de Carlito ser resgatado com vida diminuíam. O pastor da igreja que Zelia frequenta também foi ao local para dar apoio. Antenor Claudio de Oliveira contou que conhece a família há cerca de dez anos e descreve Carlito: ele sempre se dedicou ao máximo para cuidar da família. “São pessoas humildes, Carlito trabalhou a vida toda nesse tipo de serviço de fundação e a mulher sempre ficou com o serviço de casa e o cuidado dos filhos”.

Primo de Carlito, Carlos Francisco da Silva falou sobre as poucas chances de o primo ser resgatado com vida. “Estava em outra obra quando fui avisado do que aconteceu, eles foram soterrados em mais de 6 metros de profundidade, não tem como sobreviver, só se for um milagre de Deus”, descreveu horas antes de receber a confirmação da morte. Carlos Francisco acrescentou que se o pior ocorresse só restaria procurar os responsáveis pela obra e os direitos das vítimas.

ESPERA

Após mais de duas horas de espera angustiante, a família tem a confirmação do que não queria acreditar: o corpo de Carlito foi o primeiro a ser retirado já sem vida. “Esse é um trabalho de paciência, porque o buraco onde eles foram soterrados é de diâmetro reduzido e até para preservar a integridade deles tivemos que usar uma retroescavadeira com bastante cautela. É questão de paciência mesmo. Demoramos praticamente duas horas para tirar o primeiro; e o segundo iniciamos agora”, informou o tenente-coronel Alculano Calisto, do Corpo de Bombeiros Militar do Estado de Goiás.

Ele explicou que a possibilidade de os operários sobreviverem era pouca, uma vez que a profundidade de cinco a seis metros e a coluna de terra desse tipo e o diâmetro do buraco onde foram soterrados reduzido seria muita sorte sobreviver. Esclareceu que os trabalhadores trabalhavam em buracos de fundação com diâmetros reduzidos, o primeiro, Carlito, foi localizado em pé. “Eles trabalhavam em um espaço com a mobilidade bastante reduzida e estariam na fase final de perfuração dos buracos”.

O coronel observou que o primeiro corpo retirado só estava com a roupa do corpo e que no local não foi encontrado nenhum tipo de escoramento que pudesse evitar o desmoronamento, mas o coronel esclarece que mesmo se os operários estivessem fazendo uso do equipamento dificilmente sobreviveriam. ““O primeiro que retiramos, realmente, só estava com a roupa do corpo, não sei o segundo. A coluna de terra que estava sobre eles era considerável. Não foi detectado nenhum tipo de contenção, agora será realizada uma perícia, tanto em relação  às vítimas quanto em relação à segurança do local.”

Sobre a segunda vítima do soterramento, a reportagem do Diário da Manhã que esteve no local não encontrou nenhum membro da família. A reportagem também não conseguiu falar com os responsáveis pela obra, foi levantado apenas que a placa da obra indica que o responsável estaria vinculado à Clínica do Esporte, que fica em frente ao local do acidente, mas estes negaram, apesar de o tempo todo terem pessoas ligada à clínica no lugar da tragédia.

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