Cotidiano

‘É um erro o silêncio diante da violência de Estado’, afirma opositor venezuelano

Redação DM

Publicado em 20 de dezembro de 2015 às 05:05 | Atualizado há 11 anos

CARACAS — Nenhum outro caso na Venezuela chamou tanto a atenção internacional como o de Leopoldo López. Organizações de direitos humanos, presidentes e ex-presidentes pediram a liberdade do preso político mais emblemático do país, condenado há quase 14 anos por “usar a arte da palavra”, segundo a sentença. Os dez principais jornais da região, reunidos no Grupo de Diários América (GDA) o escolheram Personagem do Ano no continente. López, que hoje completa 669 dias na prisão militar de Ramo Verde, superou o isolamento e promoveu o debate sobre deficiências democráticas na Venezuela.

Como recebeu o reconhecimento do GDA?

Com surpresa. Com agradecimento, porque não se trata só de mim, mas de uma causa, da liberdade e da democracia na Venezuela. E com responsabilidade, porque nos resta um caminho a percorrer. O apoio internacional permitiu que se levante o véu da escuridão sobre o que ocorre na Venezuela. E que se perceba que os problemas social, econômico e político têm uma mesma origem: um sistema autoritário, antidemocrático, corrupto e repressor, que persegue com o único objetivo de se manter no poder para beneficiar uma pequena elite que enriqueceu e deixou o restante do país à deriva em uma crise sem precedentes. Esta percepção da comunidade internacional será fundamental no processo de transição, que começou com as eleições legislativas.

Nesse panorama, que papel atribui aos meios de comunicação?

O regime utilizou um garrote para asfixiar a liberdade de expressão: um é o controle e os vários veículos de comunicação do Estado, a autocensura provocada e a compra da mídia privada através de “donos desconhecidos”, com capitais de procedência duvidosa. A atenção da mídia internacional à Venezuela foi muito importante também para a população, que, muitas vezes, encontra mais informações sobre os problemas nacionais nesses veículos do que nos locais.

Como líderes políticos e a sociedade civil devem enfrentar a violência promovida pelo governo?

Enfrentar a violência do regime em todas as suas manifestações — física, institucional e de comunicação — começa por expô-la, denunciá-la em toda a dimensão. É um erro enfrentar a violência do Estado com o silêncio. Apesar de a denúncia em instâncias nacionais parecer em vão, é preciso fazê-la para que fique registrado quem são os promotores da violência. Não devemos cair em provocações respondendo agressão com agressão, tampouco com passividade e submissão. Estou preso por denunciar a violência de Estado. Por promover o protesto pacífico e constitucional. Estou preso, mas jamais arrependido de ter denunciado os responsáveis pela crise.

Qual deve ser a estratégia da oposição para vencer a resistência do chavismo em perder o poder?

A resistência à mudança não está no povo ou nos eleitores do PSUV. Está na pequena, mas poderosa elite que sequestrou a democracia venezuelana mediante o controle abusivo, e contrário à Constituição, de todos os poderes. Devemos comunicar aos venezuelanos que as mudanças que propomos beneficiarão a maioria e serão implantadas respeitando a Constituição. Apresentar de forma clara e simples como será a mudança. E sinalizar aos que apoiam o regime que perder não é o fim do mundo, mas normal numa democracia.

Que consequências podem ter para o governo de Nicolás Maduro os supostos vínculos de altos funcionários com o tráfico de drogas?

Primeiro, é preciso uma explicação de Maduro. O silêncio só abona uma presumível cumplicidade. Se for confirmado, o correto seria Maduro renunciar ou, ao menos, afastar-se do cargo e que se inicie uma investigação. Se não o fizer, caberá à Assembleia Nacional iniciar um processo para investigar e desmantelar as redes de corrupção e narcotráfico que penetraram o Estado.

Como imagina a transição política?

O primeiro passo é consolidar o compromisso de liderança opositora em relação a Maduro, que deve sair antes de 2019. Para isso, existem mecanismos constitucionais que podem ser aplicados. A mensagem de mudança manifestada em 6 de dezembro deve se converter em mandato popular. Se a maioria dos venezuelanos pede mudança, caberá definir uma rota pacífica, constitucional e oportuna. Dependendo das circunstâncias, tem que assumir uma das alternativas: antecipação das eleições; referendo revogatório; ou a convocação de uma Assembleia Constituinte. Definida a rota constitucional, será necessário trabalhar em paralelo em dois terrenos: o institucional, mediante a Assembleia Nacional, e o político-social, para obter um grande acordo nacional sobre cinco grandes temas: 1) convivência democrática, com a composição dos poderes públicos e fortalecimento da federação; 2) crise de bem-estar social, com mudanças no modelo econômico que permitam erradicar a escassez, a inflação e o desemprego; 3) segurança cidadã, com o fortalecimento dos corpos de segurança e a redução da impunidade; 4) democratização do petróleo, para aproveitar ao máximo, democraticamente, as grandes reservas; 5) soberania e convivência cívico-militar. Em julho a MUD se comprometeu a consolidar este processo durante os primeiros seis meses de 2016.

O que fará, preso, para levar adiante a mudança que propõe?

Não deixarei de comunicar a minha opinião e de buscar maior nível de entendimento entre políticos e o povo.

Qual o impacto na região da vitória de Mauricio Macri na Argentina?

A vitória de Macri abre uma nova etapa para as relações e a integração dos países da América Latina. Concordo com ele que, 15 anos após ter assinado a Carta Democrática, chegou o momento de a integração ter como prioridade a promoção e a defesa do sistema democrático e o respeito aos direitos humanos. Nesse sentido, com a vitória de Macri, podemos falar de um novo ciclo. Estou certo de que veremos mudanças similares em Brasil, Venezuela e outros países.

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