Em busca de voz própria
Redação DM
Publicado em 13 de janeiro de 2017 às 01:01 | Atualizado há 10 anos
Em entrevista à reportagem do Diário da Manhã, a professora da Licenciatura Intercultural do Núcleo Takinahaky de Formação Superior de Professores Indígenas da Universidade Federal de Goiás (UFG) Suety Líbia Alves Borges aborda a importância do curso de Educação Intercultural como meio de empoderamento da causa indígena e evidencia a iminente necessidade de os povos indígenas ter voz própria no espaço social.
“O curso significa o empoderamento da causa indígena, a oportunidade que eles têm de dizer quem são e por isso, até não me sinto confortável em dizer quem são eles, porque com isso acabo perpetuando a visão colonizadora, do não indígena falar pelo indígena. Por isso vejo a necessidade deles serem mais ouvidos. Precisamos desse espaço de diálogo para que nossa sociedade não indígena entenda melhor, de fato, quem são nossos indígenas, suas culturas e tradições”, pondera.
O curso de Educação Intercultural é oferecido pela UFG desde 2007 e já formou 162 professores indígenas nas habilitações Ciências da Natureza, Ciências da Cultura e Ciências da Linguagem. Suety explica que são dois anos de formação básica e três de formação específica, a partir de um currículo fundamentado em uma política de valorização cultural e na articulação entre teoria e prática. “A licenciatura é um espaço em que se prioriza resgatar e valorizar a cultura indígena, no curso temos profissionais de linguísticas que trabalham o registro da língua. Como são comunidade de tradição oral existe uma preocupação entre eles de que se perca esse conhecimento. Então, quando eles vêm para universidade buscam o conhecimento não indígena, no sentido da escrita, por exemplo, para que se possa registrar não só a cultura, mais inclusive a língua”, descreve.
O professor indígena Genivaldo da etnia Xerente, localizada na região do Tocantins, assegura que a criação do curso para atender as demandas dos povos indígenas bem como incluir os saberes indígenas na Universidade foi um grande passo, no que se refere ao poder de transformação. “Nós buscamos no curso uma forma de resgatar nossa história e a realização de um intercâmbio que nos permite conhecer e transmitir saberes, é uma satisfação muito grande para nós”, afirma.
Para o também professor, Clarencio Tsuwate da etnia Xavante, região do Mato Grosso, a formação específica a partir de um currículo fundamentado em uma política de valorização cultural e na articulação entre teoria e prática tem ampliado seus horizontes tornando sua atuação como educador mais eficaz. “O conhecimento através da leitura nos permite conhecer o mundo, nos possibilita a formação de uma conscientização libertária e responsável. Porque uma vez que adquirimos consciência nos tornamos responsáveis pelo meio o qual fazemos parte”, acredita.
Teoria e prática
Suety Líbia, professora da Licenciatura Intercultural do Núcleo Takinahaky da UFG, explica que dentro da licenciatura os estudantes indígenas trabalham estágios e projetos extraescolares, os quais são diferentes do TCC comum. Ela descreve que o extraescolar é um trabalho que eles apresentam na faculdade, mas é feito junto com a comunidade. Sendo uma licenciatura diferenciada porque traz o conhecimento deles como legítimo, tanto quanto o ocidental.
“A licenciatura vem também para desmistificar esse conceito de conhecimento científico, porque, na verdade, o conhecimento para eles que inclusive vai construindo uma base epistêmica dentro do curso indígena vem do ancião. Então a licenciatura tem uma ideologia, por isso ser intercultural, de dialogar com os dois mundos. Na verdade, o que a gente entende por ciência, essa ciência ocidental, não é o que atende e dialoga com eles. A ciência e filosofia deles é o ancião. Então essa é uma licenciatura que vem de uma demanda deles para, inclusive, contribuir em realização de projetos”, define.
Etnocentrismo
Para a professora da Licenciatura Intercultural do Núcleo Takinahaky da UFG, Suety Líbia ainda existe um olhar curioso da sociedade não indígena sobre os povos indígenas. De acordo com ela, estes ainda são caracterizados como aqueles que devem andar com o arco e flecha.
“Precisa as pessoas conhecerem quem são os indígenas, que cultura é essa para desmistificar essa visão. As pessoas entendem o indígena como uma coisa só, mas é importante esclarecer que existem mais 200 línguas indígenas no nosso país, são várias etnias. Não podemos dizer índio, devemos dizer: Tapirapé, Guajajaras, Xavante, Xerente, Karajá, se referir a eles como o povo que são e não de uma maneira generalizada do índio selvagem que é uma visão muito ultrapassada”, adverte.
Líbia menciona que a vinda dos estudantes indígenas ao jornal, na quarta-feira, faz parte da aula de português intercultural IV, disciplina em que foi trabalhado textos informativos de circulação pública. “Essa foi uma oportunidade de ampliar o conhecimento deles, sendo essa a primeira experiência deles de visitar um jornal. Notei que gostaram e interagiram bem. Fomos bastante acolhidos. Eles se sentem bem no sentido de terem oportunidade de dizerem quem são”, conclui.