Cotidiano

Endereço musical de Londres, Soho luta para manter identidade

Redação DM

Publicado em 6 de dezembro de 2015 às 06:05 | Atualizado há 11 anos

LONDRES — Entre as fachadas empoeiradas de prédios abandonados e os novos espigões coloridos ou envidraçados que se veem à distância, vai mudando de cara a emblemática Denmark Street, lugar que, no imaginário coletivo londrino, era o ponto de encontro da boemia, dos clubes alternativos e dos amantes do rock ‘n’roll puro. Desde os anos 1960, o Soho, bairro no Centro de Londres, ficou conhecido como meca da música. Nos estúdios e nos palcos das despretensiosas casas de show espalhadas por suas ruelas estiveram David Bowie, Jimi Hendrix, os Rolling Stones e os Small Faces.

Hoje, gruas e britadeiras incessantes dão o tom nesta vizinhança, onde nasceram tantos grupos e solistas importantes da música, e sobreviveram por tantos anos gravadoras e lojas independentes de discos e de quadrinhos. É cada vez maior a lista de endereços que entraram para a História e, em breve, estarão restritos à memória. Do imenso canteiro de obras devem sair prédios residenciais e comerciais, além de um hotel. Foram-se o Astoria, o Metro, o Mean Fiddler e o cabaré burlesco Madame Jojo’s.

Luta pelo público

Após o último show de rock do 12 Bar, onde estrearam Adele e Jeff Buckley, um grupo de ativistas decidiu ocupar o espaço para impedir que mais uma das casas tradicionais virasse empreendimento no mercado especulativo da capital. O movimento ganhou adeptos nas redes sociais: eventos e seminários se multiplicam e a campanha para tentar salvar o bairro ganhou fôlego.

Há três semanas, a prefeitura, reconhecendo a importância da rua, comprometeu-se em tentar resgatar sua tradição. É um setor que rende 600 milhões de libras (quase R$ 3,5 bilhões) anualmente só em turismo musical. O relatório busca soluções não apenas para a Denmark Street, mas para outros endereços musicais na capital.

Ao GLOBO, Mark Davyd, presidente da Music Venue Trust, ONG que participa do grupo de ativistas, afirmou que 35% dos endereços musicais de Londres fecharam em oito anos. O 12 Bar não fechou. Foi para bem mais longe, na Holloway Road.

— Claro que ainda terá clientes, mas não será o movimento natural num endereço emblemático. As pessoas terão de se deslocar até lá. Perde movimento — diz Davyd, líder da força-tarefa.

Na Denmark Street, mais do que em qualquer outro dos pontos ameaçados, está o retrato da sanha imobiliária que gentrifica uma região da cidade antes associada à boemia.

— Ainda temos um público cativo, mas até ele tem minguado — diz Samuel, vendedor de uma loja de guitarras.

O músico amador Larry Stone concorda com o vendedor, enquanto dedilha uma guitarra Fender:

— Não dá para negar que pode estar muito próxima a ideia do fim. Veja os prédios abandonados e as lojas fechadas. Ninguém mais vai lembrar o que eram.

Na tarde chuvosa de quinta-feira, no número 4 da Denmark Street, o Regent Sound Studio estava cheio. O endereço onde os Stones gravaram um disco mantém-se como uma loja de guitarras — que, para se adaptar aos novos tempos, em breve vai oferecer uma loja virtual.

— Dos Stones a David Bowie, esses endereços permitiram que alguns dos maiores nomes da música se desenvolvessem e construíssem seu público. São incubadoras para estrelas — afirmou o prefeito Boris Johnson.

Com desafios como lei do silêncio, licenciamento e especulação, o plano inclui tombamento cultural para catalisar novos empreendimentos no entorno. Os novos espigões vão continuar inflacionando o mercado imobiliário. Mas a ideia é compartilhar o espaço. Resta saber como fazê-lo numa área que não para de crescer, prestes a ganhar um projeto ferroviário audacioso.

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