Ensino da paz
Redação DM
Publicado em 11 de outubro de 2015 às 23:52 | Atualizado há 11 anos
Um aluno estica a perna e o colega tropeça. A queda é o início para confusão. Professor tenta separar a briga em meio ao alvoroço e usa o “bom e velho” diálogo. Na conversa aberta, o adolescente ofendido faz uma revelação: o que mais doeu não foi à vergonha diante o tombo, mas em saber que o agressor era considerado seu melhor amigo. Quem pregou a peça se surpreende ainda mais e, quase incrédulo, pede perdão: “Não sabia eu que sou seu melhor amigo. Desculpe-me, por favor! Te derrubei de propósito.” Palavras ditas, amizade selada. O caso é fictício, porém, é uma de muitas situações corriqueiras nas escolas.
Por isso, o projeto de pacificação social – RePacificar –, desenvolvido por Akira Ninomiya, vai oferecer um jeito diferente de resolver desacertos, em especial nas escolas públicas, por meio de mediação de conflitos. Além de fomentar uma política pública de Estado, tendo como elemento central a resolução de situações antagônicas, tanto como elemento de contenção, como de prevenção do atrito através do resgate dos valores familiares na sociedade.
Iniciativa
De acordo com Ninomiya, especialista em mediação de conflitos, a ideia já vem sendo aplicada desde fevereiro do ano passado. Na ocasião, três instituições goianas de ensino passaram por período de estágio para demonstrar a viabilidade e a necessidade de se trabalhar uma política pública voltada para a pacificação social. Cada uma delas recebeu um Núcleo Permanente para Diagnóstico do Conflito, composto por mediador, psicólogo e assistente social.
O êxito dos pilotos do projeto levou a Secretaria Estadual de Educação (Seduce) implementar, por meio do Programa RePacificar, ações madura de abordagens ao conflito escolar. A intenção da secretaria é envolver 40 subsecretarias regionais, mais de 1,1 mil escolas e 560 mil estudantes, até 2018. “Essa parceria, com a Seduce, nos dará suporte para ampliarmos o programa”, disse Ninomiya. Contudo, a proposta deve abarcar inicialmente, ainda em outubro, escolas das Regiões Leste e Noroeste da Capital.
Origem da discórdia
O especialista explica que os conflitos diagnosticados na escola “cerca de 90% vem da família. Por isso, a educação é a porta principal de identificação da questão. O programa tem causado impacto positivo na vida dos gestores escolares e professores. Eles são as estruturas do projeto que compreenderão situações antagônicas vividas pelos alunos”, afirma. Akira Ninomiya esclarece que os educadores antes de entrarem em ação recebem formação adequada.
Ninomiya acrescenta ainda que o trabalho é desenvolvido de forma integrada, com participação ativa dos conselhos de direitos da criança e do adolescente, tutelar, de segurança, juizado da infância e juventude, Creas, Cras, Cmei, entidades religiosas, iniciativas esportivas e culturais. Todos eles também passam por capacitação para trabalhar prevenção e mediação de conflitos em escolas e comunidades.
“É de fundamental importância a participação dessa rede de apoio diante conflitos escolares. Já que em cada contexto que a gente se depara, a escola sozinha não consegue resolver e nem é papel dela resolvê-lo. O que é diagnosticado no ambiente escolar deve ser encaminhado para entidades competentes. Por exemplo, se é uma intervenção preventiva é o Cras, caso seja uma situação de violência contra criança e o adolescente é o conselho tutelar”, explica.
Dentro dessa visão, o Projeto RePacificar propõem fortalecimento do diálogo e do redirecionamento do olhar desconectado das emoções. Ainda que as partes não consigam resolver o conflito, uma com a outra, “o objetivo, friso, é o indivíduo se reconciliar consigo mesmo, é cada um obter sua paz interior e tendo apenas como consequência, a pacificação com o outro”, sintetiza Akira.