Espanhol dado como morto nos ataques em Paris está vivo
Redação DM
Publicado em 16 de novembro de 2015 às 01:00 | Atualizado há 11 anosMADRI — No começo da tarde deste domingo, Alberto Pardo se conectou à Internet e leu a notícia de sua própria morte. Abriu o Facebook e notou que havia um número excepcional de mensagens no seu mural. “Sempre nos lembraremos de você, Alberto”, diziam alguns. “Descanse em paz”, escreviam outros. No domingo, após receber as condolências pela própria morte, Alberto Pardo, de 33 anos, ficou sabendo pelo EL PAÍS que era oficialmente, com base nas informações das autoridades francesas, um dos mortos no atentado do Estado Islâmico em Paris.
Durante várias horas, a imprensa espanhola noticiou a morte de Alberto Pardo e saiu à procura de dados para o seu obituário. Só que Pardo não saiu de Estrasburgo no fim de semana do ataque. No entanto, seu nome, seus dois sobrenomes e sua cidade de origem, Pontevedra, não deixavam lugar a dúvida: ele estava sendo enterrado.
O dia mais triste e mais feliz da vida dos pais de Alberto começou bem cedo, com um telefonema para a casa da mãe dele. Uma familiar havia escutado no rádio que o número de vítimas espanholas em Paris havia aumentado, e que entre elas se encontrava Alberto Pardo Touceda. Essa mulher ligou para Pilar Touceda, a mãe de Alberto, e escutou do outro lado da linha a voz habitualmente tranquila dessa mulher. Ela não sabia nada. A interlocutora levou a conversação para os atentados de Paris.
Poucos minutos depois, tocou o interfone, e dois agentes à paisana se apresentaram na porta do apartamento. Pediram a Pilar Touceda que se sentasse, e então comunicaram que seu filho Alberto Pardo havia falecido em Paris. Alberto estava, segundo eles, entre as vítimas da sala Bataclan. Deram-lhe os pêsames e se colocaram à disposição. Logo parentes e amigos começaram a chegar à casa de Pilar Touceda.
Cansado de não encontrar trabalho, Alberto havia saído de casa em 2012, farto da crise econômica espanhola e indignado com os políticos do país. Foi com a roupa do corpo. Saiu de Pontevedra (noroeste da Espanha) de bicicleta e só parou de pedalar quando chegou à França. Em Limoges, trabalhou numa loja de roupas; em Estrasburgo, onde vivia com sua namorada francesa, arrumou bicos como intérprete em um navio turístico.
A primeira comunicação de Alberto após a notícia da sua morte foi via Facebook. Ele escreveu: “Sei lá… Eu vejo a mim mesmo nestes momentos e diria que estou vivo… Mas se vocês continuarem escrevendo coisas tão bonitas sobre mim talvez eu tenha de morrer para não deixá-los mal… Além do mais, se o EL PAÍS está dizendodeve ser verdade”. E seguia nos comentários: “Puxa, que pressão precisar desmentir sua própria morte, pensei em alguma brincadeira que marcasse o momento para sempre, mas acho que livrá-los dessa sensação de merda o antes possível era prioritário”. Entre os comentários apareceu o de uma prima dele, Lucía, pedindo-lhe que ligasse imediatamente para a mãe.
Pilar quis escutar seu filho para acreditar. E em três ou quatro minutos seu telefone começou a tocar.
Era Alberto. Estava bem, não tinha ido a Paris, não tinha saído de Estrasburgo. Pediu desculpas porque seu telefone estava desligado e fora da área de cobertura. Pediu que sua família ficasse tranquila. Pretendia voltar no Natal, mas anteciparia a viagem para se encontrar com eles. Logo em seguida telefonaria para o consulado avisando que não estava morto. E especulava que o erro podia ter acontecido por causa do roubo da sua carteira de identidade anos antes, algo que havia denunciado na delegacia de polícia.