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Fentanil a droga que mata milhares por dia

Medicamento usado para amenizar as dores em humanos e animais tem preocupado a saúde pública no Brasil e no mundo

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Em meio à pandemia de opioides que assola o mundo, uma droga sintética poderosa, o fentanil, emerge como uma ameaça devastadora à saúde pública. Esta substância, usada para tratar dores intensas em ambientes médicos controlados, está agora no centro de uma crise que se alastra por vários países, deixando um rastro de morte e destruição.

No entanto, é importante destacar que o fentanil desempenha um papel vital no alívio da dor em pacientes com câncer, proporcionando benefícios significativos no controle dos sintomas.

Outro uso do medicamento está na medicina veterinária, onde o medicamento além de aliviar a dor tem efeito sedativo sendo usado especialmente para permitir cirurgias nos animais.

Origens e Potência Descomunal

O fentanil foi sintetizado pela primeira vez na Bélgica na década de 1960 pelo renomado químico Paul Janssen, foi concebido para fornecer um analgésico eficaz e de ação rápida, com menor risco de efeitos colaterais. Sua potência, de 50 a 100 vezes maior que a morfina, tornou-o uma ferramenta valiosa no tratamento da dor, especialmente em procedimentos cirúrgicos delicados.

No entanto, essa mesma potência fez com que o fentanil se tornasse alvo de abuso. A busca por uma "alta" mais intensa e rápida levou ao uso recreativo e, consequentemente ao aumento do número de overdoses e mortes relacionadas ao seu consumo.

Epidemia no mundo


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Nos Estados Unidos, a crise de opioides atingiu proporções epidêmicas, com o fentanil desempenhando um papel central. Em 2020, mais de 57 mil mortes foram atribuídas a overdose de opioides, e o fentanil foi responsável por um aumento de 33,3% nas mortes por overdose entre 2019 e 2020, de acordo com os Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC).

A situação não é exclusiva dos EUA. Canadá, Reino Unido, Austrália e México também enfrentam uma crescente crise de fentanil. No Canadá, por exemplo, houve um aumento de 38% nas mortes por overdose em 2020, com a Columbia Britânica sendo particularmente afetada.

Em uma medida desesperada essa província liberou o porte e uso de um “pacote” onde entre o fentanil, estão o crack e a cocaína. Sem meios de conter o tráfico, principalmente de drogas sintéticas, passou a liberar o consumo de até 2,5 g, em 2023 com prazo experimental de três anos. Na Columbia Britânica morrem cerca de 10 mil pessoas por ano pelo uso dessas substâncias.

Brasil: alerta crescente


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O Brasil, embora não tão afetado quanto outros países, não está imune à crise do fentanil. O país enfrenta desafios relacionados ao uso indevido de opioides, incluindo o abuso de medicamentos prescritos e a presença crescente de drogas ilícitas, como o fentanil, no mercado clandestino. Embora dados específicos sejam escassos, as autoridades de saúde e segurança pública monitoram de perto a situação e buscam medidas preventivas.

Benefícios no tratamento de pacientes com câncer


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Francisco Filho, oncologista no Hemolabor. Divulgação: Hemolabor


Apesar dos desafios associados ao fentanil, é importante reconhecer seus benefícios no tratamento de pacientes com câncer. Para aqueles que enfrentam dores intensas devido a essa doença, o fentanil oferece alívio significativo e pode melhorar a qualidade de vida dos pacientes. Sua potência permite um controle eficaz da dor, mesmo em casos graves, proporcionando conforto e bem-estar aos pacientes.

Principalmente em suporte paliativo como assistência aos pacientes em que a doença não responde a terapêuticas curativas, priorizando o controle da dor e dos sintomas psicológicos, entre outros de conforto ao paciente.

Em entrevista ao DM o médico Francisco Filho, especialista em oncologia no Hemolabor, falou sobre o fentanil no tratamento dos pacientes com câncer, e salientou a questão do medicamento ter aplicação indolor sendo administrado através de um adesivo que é aplicado diretamente na pele e tem efeito continuo por até 72h.

“O fentantil tem algumas vantagens importantes como fornecer liberação contínua do medicamento ao longo de vários dias (geralmente 72 horas), o que pode melhorar a adesão ao tratamento em comparação com opioides que requerem administração oral ou intravenosa múltiplas vezes ao dia”, pontua o médico.

O especialista afirma que pelo fato do medicamento fornecer o remédio de forma continua para manter os níveis plásmáticos, ele reduz os picos associados a dor e os efeitos colaterais dos opioides de ação curta. “Por ser aplicado na pele reduz o impacto gastrointestinal e melhora a tolerância da medicação, principalmente em pacientes com tumores nessa região ou que fazem uso de várias medicações”.

O uso do medicamento em pacientes pediátricos é mais restrito e requer uma avaliação mais rigorosa devido a potência do Fentanil, “Isso exige uma abordagem cuidadosa, com ênfase na minimização de riscos e no monitoramento rigoroso.” Ele explica que a participação dos médicos juntamente com os familiares e paciente é essencial para garantir os benefícios do alivio da dor, para que sejam alcançados com segurança.

“As dosagens de Fentanil devem ser cuidadosamente calculadas com base na idade, no peso e na condição clínica da criança, com ajustes conforme necessário para evitar a subdose ou a superdose.”

Pondera o especialista, além de advertir que esse procedimento tem que ser assistido pelo médico para monitorar os sinais de uma overdose ou outros efeitos graves, já que o medicamento tem um alto potencial sedativo da dor e pode viciar o paciente.

Francisco lembra que no Brasil assim como em muitos países, o uso do fentanil é controlado, sujeito a regulamentações rigorosas devido ao seu potencial para dependência, abuso e overdose. “No Brasil a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA), estabelece diretrizes específicas para controlar a prescrição, dispensação e administração do Fentanil. O Fentanil deve ser prescrito por médicos com a devida justificativa clínica e a prescrição deve seguir os requisitos legais específicos, incluindo o uso de receituário especial.” O médico considera que é preciso um controle das farmácias e estabelecimentos autorizados a venda do medicamento mantendo sempre um registro detalhado das quantidades dispensadas aos pacientes. Para evitar que haja abuso ou overdoses pelo uso excessivo da medicação.

Para o suporte paliativo em pacientes que não respondem mais ao tratamento, o oncologista diz que o medicamento é uma opção eficaz pela administração e baixo efeito colateral, no entanto não é o mais indicado em dor aguda onde o medicamento precisa ter um efeito rápido, neste caso outros opioides podem ser necessários, para isso avalia a importância dos estudos randomizados controlado, isto é, são utilizados grupos de pessoas aleatórias para testes de novos medicamentos.

Interações Farmacêuticas


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Vivianne Melo Coordenadora de Assistência Farmacêutica na Atenção Especializada e Hospitalar da Gerência de Assistência Farmacêutica/SPAIS/SES-GO. Reprodução: Arquivo pessoal


O DM conversou com a farmacêutica Vivianne Melo, Coordenadora de Assistência Farmacêutica na Atenção Especializada e Hospitalar da Gerência de Assistência Farmacêutica/SPAIS/SES-GO, sobre as interações medicamentosas e as propriedades existentes no Fentatil.

Vivianne explica que entre os efeitos adversos o uso do medicamento sem orientação médica e sem indicação clinica possui um alto poder de dependência e que o abuso pode levar a morte por overdose.

O uso abusivo pode causar tolerância, dependência física e dependência psicológica. A associação com álcool é capaz de potencializar os riscos de depressão respiratória e seu uso indiscriminado ou em combinação com outras substâncias, pode levar rapidamente à intoxicação aguda e até à morte.” Vivianne Melo - Coordenadora de Assistência Farmacêutica na Atenção Especializada e Hospitalar da Gerência de Assistência Farmacêutica/SPAIS/SES-GO

A especialista explica que entre os efeitos aversos estão a diminuição da respiração, redução do nível de consciência, principalmente se usado com outras substâncias, como a ingestão de álcool. Pode inclusive causar sequelas como rigidez muscular, miose, bradicardia e ocasionar doenças cardíacas.

A farmacéutica explica que o medicamento possui mecanismos de controle tão rígido no país que é facilmente rastreado em caso de desvios. “O fentanil é um medicamento controlado e, portanto, todo seu ciclo desde a produção até a sua administração ao paciente intra-hospitalar é regulado pela Portaria n° 344/98 a qual é bastante rígida quanto a rastreabilidade desse medicamento desde a indústria até o hospital.” Sendo assim, fácil detectar o local de fabricação e onde deveria estar caso seja retirado do controle.

Uso na Medicina Veterinária


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Ana Luísa, médica veterinária, ,clínica cirúrgica e anestesiologia de animais de companhia pela UFJ. Reprodução: Arquivo pessoal


O medicamento também é utilizado na medicina veterinária como sedativo para cirurgias, como explica a médica veterinária Ana Luísa de Oliveira Araújo Pereira médica formada pela UFG com residência em clínica médica e atua em clínica cirúrgica e anestesiologia de animais de companhia pela UFJ. “Trata-se da mesma droga, mas a gente está falando de pacientes diferentes, então nos estudos humanos tem toda a questão dos opioides causarem euforia e dependência física, em cães não é bem estabelecido a questão da dependência no uso de opioides da mesma forma que acontece no ser humano.”

Ela explica que o uso do fentanil vai além da sedação, sendo usado também no transoperatório e serve como resgate analgésico, onde o veterinário percebe que houve algum estímulo de dor durante o procedimento e também para controle e alivio da dor trazendo conforto ao animal.

“Ele tem o seu tempo de alcançar o funcionamento rápido, então, com cinco minutos, eu já consigo trazer conforto para esse paciente e da mesma forma ele passa de maneira rápida, então ao fim do procedimento eu não vou ter efeitos adversos. E um tempo para recuperação no pós-operatório".

Para Ana Luísa, se no futuro houver uma proibição do fentanil no Brasil haveria uma perda muito grande para toda medicina, incluindo para os pacientes dela que precisam passar por cirurgias, principalmente por haver necessidade do uso deste medicamento durante o processo cirúrgico onde o animal inicia o processo de perda da sedação durante transoperatório e nenhum outro sintético tem a mesma potência do fentanil onde a rapidez permite o alivio imediato da dor.

“Para os pacientes em termos de poder proporcionar um conforto analgésico um resgate analgésico transoperatório adequado. Tem outros que poderíamos usar, mas igual a ele não vai ter”. Lamenta que o uso indiscriminado possa em algum momento prejudicar a medicina veterinária.

Potencialização do Fentanil a outras drogas


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Arquivo Pessoal - Doliana Brasil especialista em toxicologia do Ciatox. Arquivo Pessoal


Em Goiás os dados do Centro de Informação e Assistência Toxicológica (Ciatox), mostram que os abusos com entorpecentes têm crescido exponencialmente. Em um país com a dimensão continental como Brasil a dificuldade em conter o avanço do tráfico de drogas se torna um desafio em uma rotina árdua no combate ao uso de entorpecentes.

A rotina estressante, a falta de controle emocional, a dificuldade de lidar com os problemas diários, faz com que jovens e adultos encontrem nos sintéticos uma fuga para essas situações, e assim passem a ser usuários químicos dessas substâncias e cada vez mais frequente, já que o corpo se acostuma com a ingestão se tornando cada vez mais resistente aos efeitos do medicamento.

Em entrevista ao DM Doliana Brasil especialista em toxicologia do Ciatox, reforça o que os outros especialistas já disseram sobre o uso indiscriminado do sintético provocar a dependência do paciente, que pode passar a ser usuário. "Ele tem sido usado agora é como droga de abuso e ele tem um poder de criar dependência, de gerar dependência muito forte, cada cada vez que se usa de outra vez precisa se usar mais e mais.” E completa

levam o paciente a querer ter a sensação de euforia e bem-estar, mas ele é o pior e muito perigoso, primeiro porque ele é cerca de 100 vezes mais potente do que a própria morfina.” Dra. Doliana Brasil

No Brasil o fentanil entra pelo mercado clandestino misturado a cocaína ou outras substâncias ilegais. E seu efeito potencializado torna-se letal para o consumo. Como explica Doliana, “ele pode levar ao risco de depressão respiratória e depressão do sistema nervoso central, que pode levar ao coma, a uma parada cardíaca, ou desenvolver outros problemas ligados ao coração, e até mesmo a morte".

No Brasil a subnotificação dos casos de overdose dificulta o controle no número de vítimas por abuso de entorpecentes. Esses dados geralmente são inclusos em contagem de mortes por envenenamento tóxico ou morte suspeita.

Veja gráfico enviado pelo Centro de Informação e Assistência Toxicológica (Ciatox)


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