França discute uso do quipá após agressão antissemita
Redação DM
Publicado em 13 de janeiro de 2016 às 01:10 | Atualizado há 11 anosPARIS — A agressão antissemita contra um professor judeu de Marselha, na segunda-feira, reacendeu a discussão sobre o uso do quipá nas ruas da cidade. O agressor, um jovem de nacionalidade turca, afirmou que agia “em nome de Alá” e do grupo terrorista Estado Islâmico. O professor sofreu ferimentos leves com os golpes de machado deferidos pelo curdo de 15 anos, que disse aos policiais sentir “vergonha por não ter matado a vítima”.
O ataque fez a comunidade judaica local, que reúne 70 mil pessoas, relembrar os dois ataques antissemitas na cidade meses atrás. Mas o medo aflige toda a França. Há um ano, quatro pessoas foram mortas em um atentado a um supermercado kosher de Paris. O uso do quipá não é uma obrigação religiosa, é uma tradição que se tornou símbolo do Judaísmo. Diante da comoção, o presidente do conselho judaico local, Zvi Ammar, aconselhou que os judeus evitassem a utilização do quipá provisoriamente, algo contestado pela maioria dos líderes da comunidade.
— Não é questão de ceder ao terrorismo nem a essas barbáries, mas unicamente de preservar vidas humanas. Infelizmente, diante de uma situação excepcional, é preciso tomar uma decisão excepcional — explicou ao canal i-Télé.
À AFP, Ammar disse que a comunidade “é obrigada a se esconder um pouco”, mesmo que o Estado francês faça tudo para protegê-los, porque “não dá para colocar um policial ou um militar atrás de cada judeu”. A presidente regional do Conselho representativo de Instituições Judaicas na França (CRIF, na sigla em francês), Michèle Teboul, disse que não se oporia ao conselho, já que a instituição está focada na segurança dos judeus. No entanto, o presidente nacional da organização, Roger Cukierman, rebateu que se privar do uso do quipá seria “uma atitude de derrota, de renúncia”.
O grande rabino da França, Haïm Korsia, declarou que a comunidade “não deve ceder em nada”, embora considere “compreensível” o grito de emoção de Ammar. Da mesma forma, o presidente do conselho judeu central da França, Joël Mergui, julgou “excessiva” a reação do líder local.
— Eu compreendo que, nesse contexto de emoção, ele (Zvi Ammar) tenha proposto essa medida de urgência. Mas ele sabe tanto quanto eu que não é o uso ou não do quipá que vai resolver a questão do terrorismo — ponderou Mergui.
Na esfera política, o tom é de não ceder ao medo. A ministra da Justiça do país, Christiane Taubira, destacou os valores nacionais de laicidade e de liberdade de consciência. Para ela, os judeus devem poder usar o quipá nas ruas e se sentir em segurança.
A porta-voz do governo, Stéphane Le Foll, afirmou à i-Télé que o Estado não tem uma posição sobre o caso e sim, a responsabilidade de garantir a proteção dos cidadãos e denunciar atos antissemitas. Xavier Bertrand, do partido Os Republicanos, considerou que “a França não será a França” se os judeus renunciarem ao uso do quipá.
A intolerância religiosa corriqueiramente é pauta no país. No início de 2015, o jornalista israelense Zvika Klein filmou a si mesmo por dez horas andando pelas ruas de Paris com um quipá. As imagens, exibidas na FOX News, mostram Klein sendo intimidado por manifestar a religião. Uma equipe da France TV decidiu repetir o experimento para atestar se o vídeo de Klein correspondia ao cotidiano da França, mas não registrou ameaças em 60 horas de filmagem.