França vai cada vez mais à direita após atentados
Redação DM
Publicado em 20 de novembro de 2015 às 05:05 | Atualizado há 11 anosPARIS – A França socialista caminha para uma guinada à direita. Sete dias depois dos atentados de Paris, a três semanas das eleições regionais de 5 de dezembro e já mirando a disputa para presidente, em 2017, a classe política começa a se organizar discretamente para uma batalha que se anuncia implacável. Na cabeça de todos — os que apoiam, mas sobretudo os opositores — prevalece um nome: Marine Le Pen. A populista e popular loira que comanda o partido Frente Nacional (FN), de extrema-direita, encarna a França branca e prega linha-dura e o fim da imigração. E é quem mais poderá se beneficiar da insegurança que reina no país depois dos atentados, avalia Bruno Cautrès, cientista politico do Instituto de Ciências Políticas de Paris (Sciences-po).
— Marine se beneficia porque está no seu terreno natural, com os temas da imigração e da lei e da ordem. Hoje, toda a vida política francesa está girando em torno da FN.
Cautrès já dá praticamente como certa a chegada de Marine Le Pen ao segundo turno das eleições presidenciais de 2017.
— Se a eleição para presidente fosse amanhã, seu lugar estaria quase garantido no segundo turno. O problema é saber quem vai se opor a ela no segundo turno. Há meses, ela está em primeiro lugar no primeiro turno.
Este é um prognóstico que já vinha sendo feito antes mesmo dos ataques. No dia do atentado, o instituto Ifop publicou uma pesquisa que dava Marine Le Pen no segundo turno de uma presidencial em todos os cenários, com 28% dos votos — independentemente de seu principal opositor.
Le Pen deve obter governo regional
Em 2002, Jean-Marie Le Pen, pai de Marine, famoso pelo discurso extremista que até minimizou o Holocausto, saiu vitorioso no primeiro turno das presidenciais, chocando a França. Mas foi apenas um susto. Uma ampla coalizão que pedia um voto “contra o fascismo” acabou reelegendo Jacques Chirac com 82% da preferência do eleitorado no segundo turno.
Marine assumiu o comando da FN em 2011 com um discurso mais sutil e politicamente correto, abrindo as portas para um eleitorado mais moderado. Com o octogenário Jean-Marie expulso do partido após uma longa briga contra a “suavização” da legenda, o caminho da herdeira ficou cada vez mais aberto. Marine amplia seu eleitorado, surfando nos fracassos e nas divisões da esquerda e abocanhando o eleitorado da direita tradicional.
Sondagens indicam que o partido está forte em todas as regiões do país, como em Côte-d’Azur e Provença. No final de outubro, uma pesquisa indicou que a FN tem o maior percentual de intenções de voto para as regionais de dezembro (28%), seguida do partido de centro-direita Os Republicanos (27%) e do Partido Socialista, hoje no poder, com 21%.
É dada como certa a eleição de Marine para governar Nord-Pas-de-Calais-Picardie — região recém-criada no Norte e habitada por quase seis milhões de pessoas — nas eleições regionais.
— Ela partiu para conquistar essa região. E agora pode utilizar o contexto (dos atentados) para dizer: “Tudo o que acontece hoje demonstra que eu tinha razão para controlar a imigração e as fronteiras” — alerta Cautrès.
Louise G., estudante de 22 anos, sempre votou nos Republicanos de Nicolas Sarkozy — um dos caciques do partido tradicional de direita. Mas hoje, revoltada com os atentados (perdeu uma amiga na casa de espetáculos Bataclan), descambou para a extrema-direita. Não tem nenhuma dúvida de seu próximo voto: Marine Le Pen.
— Antes, eu dizia: “Le Pen é horrível, não posso votar nela”. Votava em Sarkozy. Mas hoje “Sarkô” está à esquerda demais para o meu gosto. Os Republicanos nem propõem controlar as fronteiras. Para mim, precisamos fechar as fronteiras. Hoje eu digo: “Putin, Obama, vamos lá, bombardeiem o Estado Islâmico!”.
Num momento em que a Europa enfrenta uma imensa crise de refugiados — três mil estão cruzando as fronteiras do continente diariamente, segundo a ONU — Marine não parou de dizer que havia terroristas infiltrados entre eles. Ontem, atacou o governo por não ter descoberto antes o paradeiro do mentor dos ataques da semana passada, Abdelhamid Abaaoud — morto na invasão a um prédio, anteontem, em Saint-Denis.
‘Clima e contexto são favoráveis’
“A ausência de fronteiras nacionais é uma loucura criminosa. A restauração de controles nas fronteiras nacionais é a primeira resposta que precisa ser dada”, escreveu Marine em seu Twitter. “Parece que qualquer um pode agora entrar livremente.”
A jovem deputada Marion Maréchal Le Pen, 26 anos, sua sobrinha, na lista do partido para as próximas eleições, criticou ontem na Assembleia Nacional a abertura das fronteiras.
— Todo mundo sabia que um atentado iria acontecer na França. Mas depois dos ataques do “Charlie Hebdo”, em janeiro, nenhuma medida foi tomada para impedir isso. Não agimos à altura da ameaça, tanto no exterior quanto no interior.
O Partido Socialista poderá sofrer um golpe. Batendo recordes de impopularidade e com a esquerda dividida, o presidente François Hollande poderá ganhar a simpatia inicialmente, como aconteceu logo após os atentados de janeiro, prevê Cautrès. Mas, para ele, isso não vai durar.
— Muitos eleitores vão se lembrar, primeiro, que os terroristas eram conhecidos pelos serviços de Inteligência belgas e franceses, mas conseguiram agir. E, segundo, vão inferir que a razão pela qual isso aconteceu na França foram erros na política internacional de Hollande. A priori, o clima e o contexto só são favoráveis a Marine Le Pen.
Pascal Perrineau, diretor do Centro de Pesquisa Política da Sciences-po, vai na mesma linha:
— A única peça que joga contra a FN é o fato de que franceses estão esperando pessoas que conheçam de diplomacia e funcionamento do Estado. Aí, Marine Le Pen continua a ter um ponto fraco.