França vai controlar dinheiro anônimo contra jihadistas
Redação DM
Publicado em 24 de novembro de 2015 às 05:05 | Atualizado há 11 anosPARIS – Depois de restringir a liberdade de movimento de simpatizantes, suspeitos de terrorismo e seus amigos, a França agora partiu para cortar a principal fonte do Estado Islâmico: o dinheiro. O ministro das Finanças, Michel Sapin, anunciou ontem uma série de medidas para dificultar a circulação do dinheiro anônimo — principal arma dos terroristas. A partir de agora, por exemplo, cartões de crédito pré-pagos na França serão controlados.
Este tipo de cartão foi usado pelos terroristas na preparação do pior atentado da História recente da França — para aluguéis de carros, por exemplo. Com capacidade de até € 2.500, ele pode ser comprado até em supermercados, sem qualquer controle bancário ou verificação da identidade. Paris quer agora que os outros 27 países da União Europeia (UE) adotem as mesmas restrições e vai insistir nisso na próxima reunião de ministros de Finanças do bloco, no dia 8 de dezembro.
Para Bruno Dalles, que comanda o Tracfin — órgão do Ministério das Finanças responsável por detectar o dinheiro dos terroristas — a medida tornará o combate mais eficaz na França:
— A partir do momento em que tivermos uma melhor rastreabilidade dos cartões de crédito pré-pagos e que pudermos cruzar as informações com as identidades das pessoas que estão sendo monitoradas, poderemos ser mais eficazes.
Não foi por acaso que os envolvidos nos atentados escolheram esse método. Hoje, existem dois tipos de cartões no país: um não recarregável, de até € 250, e outro recarregável que tem capacidade dez vezes maior. A ativação é simples e instantânea. É possível até transferir dinheiro de um cartão para outro, desde que seja da mesma marca. Pelo menos 21 empresas disputam o mercado na França. Uma delas, por exemplo, oferece 32 mil pontos de venda.
Acesso instantâneo às contas de radicais
Com as mudanças, agentes do Tracfin passarão a ter acesso direto às contas de 10.500 pessoas suspeitas de fazer parte de grupos radicais. Ou seja, vão trabalhar quase em tempo real para verificar os movimentos financeiros. Os agentes também terão acesso direto às fichas de antecedentes criminais controladas pela polícia. O Tracfin ainda poderá acionar diretamente os bancos, alertando sobre os suspeitos e pedindo monitoramento.
Muitas das medidas começaram a ser preparadas depois dos atentados terroristas contra o semanário satírico “Charlie Hebdo”, em janeiro. Agora, sob pressão por conta do segundo ataque, o governo quer acelerar o processo. Em junho, Paris já havia decidido limitar pagamentos em dinheiro a € 1.000, no lugar de € 3 mil, para lutar contra transações anônimas. E o texto de um projeto de lei para a transparência e modernização da vida econômica será apresentado ao Conselho de Ministros em janeiro. Mas algumas decisões poderão vigorar mais rapidamente, por decreto.
Chantal Cutajar, fundadora do Colégio Europeu de Investigadores Financeiros, em Estrasburgo, disse ao GLOBO que este era um problema que já vinha sendo detectado pelas autoridades policiais, judiciais e alfandegárias:
— Formamos estas pessoas. Todos nos disseram que havia um enorme problema com estes cartões pré-pagos. Simplesmente porque não há como rastreá-los — afirma, lembrando que os terroristas se aproveitam da falta de transparência. — Sabemos que são instrumentos perigosos há anos. Apesar disso, fechamos os olhos porque favorece a economia. Este é o grande problema da eficácia na luta contra a lavagem de dinheiro e o financiamento do terrorismo.
Agora, o ministro das Finanças, Michel Sapin, disse que a França irá pedir à UE para “acelerar consideravelmente” a implementação da última diretriz do bloco para lutar contra a lavagem de dinheiro do terrorismo. Sapin também quer que o Grupo de Ação Financeira (Gafi), órgão internacional que luta contra a lavagem de dinheiro e o terrorismo, seja mais rápido na identificação de países que não estão cooperando nesta luta. Hoje, somente dois países constam da lista negra do Gafi: Irã e Coreia do Norte.
O governo de François Hollande quer ainda que a UE se equipe para ter mais acesso aos dados das transações Swif — sistema por onde são feitas 90% das transferências de fundos internacionais, hoje, sob o controle dos EUA. Bancos e empresas financeiras também terão de endurecer. A França também pede para que todos os países fiquem alertas a transferências de dinheiro para a Síria ou Iraque. Mudanças de atitudes repentinas de um cliente também devem ser avisadas ao governo.
O Estado Islâmico não apenas controla um vasto território em dois países — Síria e Iraque — como detém uma riqueza colossal. Seu patrimônio foi estimado em € 2,07 trilhões por Jean-Charles Brisard, especialista francês em financiamento do terrorismo. O grupo movimenta estimados € 2,5 bilhões por ano. A maior parte da receita, segundo Brisard, vem da extorsão, seguida da venda de petróleo, gás, fosfato, trigo, resgates de sequestros, venda de cimento, doações, trafico de obras de arte e venda de algodão. Ontem, bombardeiros americanos destruíram 283 caminhões de combustível usados para transportar petróleo para ajudar a financiar o EI.