Goianápolis tem trabalho para todos
Redação DM
Publicado em 4 de agosto de 2016 às 03:04 | Atualizado há 10 anosQuem chega a Goianápolis, a 33 quilômetros de Goiânia, já encontra o monumento de Jesus Cristo de braços abertos na entrada abençoando a quem aporta na cidade. Chamada de a Capital do Tomate, o município faz jus ao nome porque graças a esse fruto sua economia proporciona trabalho a todos. “Não há um só desempregado em Goianápolis”, afirma o prefeito Jeová Leite (PP), observando que “só não trabalha quem é preguiçoso ou ruim de serviço”.
Em Goianápolis, município considerado pequeno, cerca de três mil pessoas dedicam sua mão de obra na cultura tomateira. A sua população é de pouco mais de dez mil habitantes. O emprego no setor é praticamente permanente, porque as suas safras são práticas que ocorrem nas principais estações do ano. Os altos e baixos, contudo, são comuns, porque o sol ou o frio pode prejudicar a lavoura. São as doenças e pragas que se deliciam com as bruscas alterações climáticas.
Welysson Mendes da Silva recebe o repórter na propriedade de seu pai, Wanderley Mendes da Silva, que acaba de ganhar na 33ª Festa do Tomate premiação pelo segundo lugar do “melhor tomate”. “Para nós, o prêmio representa o estímulo para continuar a atividade que oferece um produto de qualidade ao mercado de consumo”, resumindo melhor o significado da honraria. Hoje, ele dispõe de dez diaristas e quatro trabalhadores fixos. A diária corresponde a R$70,00 mais o transporte da cidade à lavoura, que fica a 17 quilômetros.
Buscando qualidade
A busca de qualidade tem exigências de ordem funcional. Entre as quais a utilização de mão-de-obra qualificada. “A irrigação e o uso do fertilizante têm hora certa”, explica Welysson, dando um exemplo prático da cultura do tomateiro. Para evitar as ameaças de doenças, como a queima das folhas dos tomateiros, torna-se necessária a aplicação do agrotóxico preventivo. “Na medida certa”, observa, ou seja, dentro dos limites recomendados pela sanidade.
Na propriedade, acostumada nestes últimos cinco anos a receber premiações que envolvem qualidade, são plantados 18 mil pés, que ocupam uma área de meio alqueire, o equivalente a 15 mil metros quadrados. A sua produção esperada é de 7 mil a 7.500 caixas ou 400 caixas por cada mil pés de tomates. O ciclo da semeadura à colheita demanda até seis meses. As variedades mais usadas em Goiás são o saladete e o longa vida. O saladão é o mais antigo. Interessante, o plantio é consorciado em parte com pepino e feijão.
Com a colheita, inicia-se o processo de comercialização. Normalmente, a comercialização se dá com os depósitos ou revendedores estabelecidos nas instalações da Ceasa de Goiânia. Há uma oferta mensal de cinco a seis mil toneladas de tomates na unidade da Ceasa, segundo Josué Lopes Siqueira, gerente da empresa. Entra no mercado até produto de Santa Catarina concorrendo com o goiano. Mas o Estado comercializa o seu tomate com o Distrito Federal, Tocantins e Mato Grosso. A caixa do tomate oscila hoje de R$30 a R$40,00 com entrega na fonte da produção. O produtor se queixa dos custos que sofreram altas nos últimos meses. O fertilizante, vendido a R$50,00 no ano passado, atualmente é vendido a R$85,00 o saco de 50 quilos. Outros insumos ficaram mais caros, bem como o imposto embutido. “O investimento é alto”, concorda Josué Siqueira, expert no assunto, concordando com a opinião do tomaticultor.
Há produtor reclamando da condição das estradas vicinais. Os tratores e patrola estariam quebrados. O prefeito Jeová Leite, no entanto, rebate, afirmando que os tratores começaram a ser arrumados ontem. “Na verdade, quando entrei para a prefeitura, não havia praticamente nada. Eu que formei uma frota de quatro tratores, uma pá mecânica, uma escavadeira e ônibus”, esclarece.
E interessante: o tomate empresta seu superlativo a time de futebol, restaurante, bar, entre outros. É comum a denominação de tomatão, embora na condição de fruto seja destinado à confecção de salada de mesa.
Marco histórico
O prefeito de Goianápolis, Jeová Leite, descende de um dos pioneiros do tomate. Seu pai, Alvino Pereira da Silva, na década de 60, contribuiu na implantação da tomaticultura. O município foi o ponto de partida, embora produzindo o tomate tipo salada, no incremento do tomate industrial na região Centro-Oeste. Representa, portanto, o marco histórico da larga escalada de produção do tomate brasileiro, em que Goiás desponta como líder. Goianápolis já chegou a produzir 20 mil toneladas de tomate salada.
O próprio prefeito monta uma estrutura para produzir tomate de mesa com plantio em estufa. O projeto em andamento ocupará uma área de 12 mil metros quadrados com plantio no vaso. Ele usará o sistema de gotejo para irrigar o cultivo. Em mais dois meses, Jeová Leite espera estar produzindo os primeiros frutos, dando continuidade ao trabalho de seus pais. No passado, cuidou de uma lavoura de um milhão de pés de tomate por ano.
Ótica social do tomate
Do grupo das hortaliças, o tomate é a espécie mais importante, tanto sob o ponto de vista econômico quanto social, pelo volume da produção e geração de empregos.
São quase quatro milhões de hortas cultivadas com a espécie, o que gera uma produção de cerca de 110 milhões de toneladas. É também uma espécie cosmopolita, pois é cultivada no mundo todo, sendo China, Estados Unidos da América e Índia os principais produtores.
O Brasil é o oitavo maior produtor, com 65 mil hectares cultivados e produção que atinge quatro milhões de toneladas, o que significa uma média de 57 toneladas/hectares, ou seja, o dobro da média da produtividade mundial, que chega a 27 toneladas por hectare. Embora cultivado em todos os Estados, os principais produtores são Goiás, Minas Gerais, São Paulo, Bahia e Rio de Janeiro.
Goiás é líder na produção de tomate, somado o tipo salada ou de mesa e o rasteiro ou industrial. Sua área plantada é de 14 mil hectares. A produção é de 1.157.078 toneladas, segundo dados da Sepin-Seplan em 2013, referentes ao ano anterior. Pelos dados da Agência de Assistência Técnica, Extensão Rural e Pesquisa Agropecuária (Emater), a cultura gera renda a pequenos e a grandes produtores. Os primeiros atuam em sistemas familiares. E os grandes produzem em larga escala e fornecem a produção para a agroindústria. Além de Goianápolis, produzem tomate tipo salada ou de mesa 27 municípios goianos, como Corumbá, Catalão e Santa Rosa.
O engenheiro agrônomo Alípio Magalhães de Oliveira, supervisor regional da Emater-GO, lembra que a instituição presta assistência técnica aos produtores de tomate de Goianápolis desde quando foi cultivado os primeiros plantios nos idos da década de 60. “Sempre houve um escritório local na cidade, atendendo e orientando os tomaticultores sobre a melhor prática”, observa, lembrando da parceria firmada com a prefeitura municipal.
Alípio, com vasta experiência no setor, está convencido de que os índices de produtividade obtidos na atualidade são decorrentes dos trabalhos técnicos postos em prática pela extensão rural. Hoje, a produtividade média é de 250 caixas por mil pés. “Antes eram de 110/150 e há quem chegue a 400 caixas por mil pés”, ressalta. A Emater contribuiu, também, para a implantação do sistema irrigado, defendendo mais o de gotejo pela economia de água e que não causa erosão do solo.
Polinização do tomateiro
A Universidade Federal de Goiás (UFG), através dos professores Edivani Villaron Franceschinelli, Carlos de Melo e Silva Neto e Marcos Antônio da Silva Elias, acaba de divulgar trabalho sobre a polinização do tomateiro. A publicação em papel couchê brilho foi distribuída na 33ª Festa do Tomate de Goianápolis.
Os pesquisadores observam em sua obra que foi verificado que “quanto maior a proporção de vegetação nativa ao redor da plantação, maior é a quantidade de abelhas nas flores do tomateiro”. E acrescentam que a “manutenção de vegetação nativa ao redor da plantação e próximo a cursos hídricos é muito importante para a polinização do tomateiro. Esses remanescentes de vegetação podem facilitar a criação de ninhos pelas abelhas que visitam os tomateiros, além de fornecerem abrigo e alimento para elas”.
Consorciado com outras culturas, servem como atrativo para outras abelhas e em decorrência ajuda na manutenção das populações dos polinizadores. Na visão dos estudiosos, essas culturas podem ser berinjela, pepino, abóbora, melancia, melão, feijão, entre outras que atraiam abelhas nativas.