Cotidiano

Irlanda mantém estigma contra minoria mesmo após tragédia

Redação DM

Publicado em 16 de novembro de 2015 às 07:05 | Atualizado há 11 anos

CARRICKMINES, Irlanda – O fogo irrompeu pelo acampamento, tirando a vida de dez pessoas de duas famílias, incluindo cinco crianças pequenas e uma mulher grávida. A tragédia, ocorrida nas primeiras horas do dia dez de outubro no subúrbio de Carrickmines, ao sul de Dublin, foi a maior perda de vidas em um incêndio na Irlanda em quase 35 anos.

Não demorou muito para ficar claro que as demonstrações de tristeza e simpatia pelos mortos não seriam estendidas aos sobreviventes. As vítimas são de uma comunidade conhecida como os viajantes, o grupo mais estigmatizado da sociedade irlandesa. Mesmo em meio à catástrofe, o antigo preconceito não diminuiu.

Quando o governo da região quis montar acomodações de emergência ali perto para os 15 sobreviventes do fogo, os moradores da área bloquearam o acesso ao local proposto, afirmando que era inadequado e que eles não acreditavam nas promessas de que a presença dos viajantes seria temporária.

Dias depois de enterrar seus parentes, os sobreviventes se mudaram para um estacionamento isolado ao lado de um lixão desativado – um local cuja única vantagem aparente era que não havia ninguém vivendo perto o suficiente para reclamar. A situação foi descrita como temporária, mas o local onde o fogo aconteceu também deveria ter sido temporário – o acampamento dos viajantes estava ali há oito anos.

Quando os oficiais desistiram de seu plano inicial de realocação, o ministro do governo responsável por políticas igualitárias, Aodhan O´Riordain, descreveu as objeções dos moradores do bairro como “indicativo de uma visão mais ampla de toda a sociedade irlandesa”.

“Existem poucos grupos dentro da sociedade irlandesa sobre os quais todos podem falar quase tudo o que pensam e, frequentemente, as pessoas públicas dizem o que querem sobre os viajantes e nada acontece”, afirmou O´Riordain na rádio nacional.

Poucas questões dividem a sociedade irlandesa quanto como agir com os viajantes, termo que se tornou uma segunda palavra para atividade criminal e comportamento antissocial. Os governos vêm se questionando há tempos sobre qual a melhor maneira de lidar com eles. As políticas algumas vezes incluíram esforços para a assimilação definitiva, mas, no geral, os viajantes são considerados um problema a ser resolvido em vez de um grupo étnico distinto, cujo modo de vida deve ser respeitado.

Há dúvidas sobre suas origens. Alguns dizem que foram pessoas desalojadas séculos atrás por invasões e pela fome, mas existem evidências de DNA de que as origens na Irlanda datam de pelo menos mil anos. Muitos deles falam uma língua diferente e casamentos internos são uma regra. Vários ainda possuem um estilo de vida nômade, mas outros são conhecidos como “viajantes estabelecidos” porque preferem ficar no mesmo lugar.

De acordo com o censo de 2011, há cerca de 30 mil viajantes no país, mais ou menos 0,6% da população. Etnicamente, são distintos de outros grupos nômades, como os roma, e reconhecidos como uma minoria na Inglaterra, mas não na República Irlandesa.

Ao invés de se tornar uma oportunidade para a união da sociedade, as dez mortes pareceram apenas reavivar antigos antagonismos.

Martin Collins, codiretor de um grupo de direitos dos viajantes, o Pavee Point, acredita ser irônico o fato de que este ano a Irlanda foi celebrada pelo mundo por sua postura quanto à igualdade no casamento, depois que os eleitores aprovaram as uniões de pessoas do mesmo sexo. As atitudes com os viajantes, diz ele, mostram que qualquer afirmação de tolerância que a Irlanda faça é falsa.

“Nossa comunidade tem ficado de estômago revirado pela maneira insensível com a qual os sobreviventes vêm sendo tratados nas últimas duas semanas”, afirma Collins em uma entrevista. “Sem dúvida existe um racismo tão profundo na sociedade deste país que já é encarado como normal na psique dos irlandeses.”

Alan Kelly, ministro do governo responsável pelo alojamento dos viajantes, diz que a ação dos vizinhos foi “vergonhosa”, mas que os moradores tiveram bastante apoio em várias pesquisas on-line.

As redes sociais oferecem uma plataforma pronta para a desagregação. E o antagonismo apareceu de várias maneiras nos últimos anos, geralmente em torno de oposições políticas à oferta de casas para os viajantes. Muitos políticos com controle sobre onde essas pessoas podem ser acomodadas ganharam as eleições com base em promessas de que vão bloquear a aprovação de novos locais para a construção de casas para eles.

A má-vontade com os viajantes é tanta que quase metade das 31 localidades do país devolveu o dinheiro dado pelo governo central para a sua acomodação este ano. Além disso, de 2006 a 2013, cerca de US$55 milhões deixaram de ser gastos. Não é que o dinheiro não seja necessário: das 10.226 famílias de viajantes da Irlanda, acredita-se que mais de 1.500 vivam em lugares lotados com condições de higiene ruins, como Carrickmines – ou pior. Muitos acampamentos na beira de estradas não têm qualquer tipo de instalação.

Parece que a maioria da população da Irlanda têm uma imagem dos viajantes como um bando de gângsteres, arrombadores de casas e bandidos rivais. Frequentemente, eles não são atendidos em bares, lojas e hotéis, apesar de alguns processos por discriminação terem tido sucesso.

Os viajantes formam um grupo desproporcional da população carcerária. Seus apoiadores afirmam que o fato não é surpresa já que uma minoria deles fica na escola até o começo da adolescência, o que diminui a perspectiva de trabalho. Menos de um em cinco tem um emprego. Sua exclusão social faz com que os viajantes se tornem vulneráveis ao abuso de drogas, suicídio e crimes.

De acordo com o Estudo de Saúde Toda-Irlanda Viajantes 2010, a expectativa de vida dos homens é 61,7 anos – 15,1 anos menos do que para os homens da população em geral. As viajantes tem expectativa de vida de 70,1 anos – 11,5 anos menos do que as mulheres irlandesas. O estudo descobriu que a taxa de morte entre as crianças na comunidade dos viajantes era de 14,1 por mil nascimentos, significativamente mais alta do que a taxa de morte de 3,9 por mil da população em geral.

Duas semanas depois do fogo em Carrickmines, a estrada estreita de cascalho que leva ao cenário permanecia bloqueada, enquanto a equipe forense da polícia vasculhava as ruínas das cabanas enegrecidas e as caravanas de trailers em um esforço para descobrir a causa do incêndio. Flores e ursinhos de pelúcia foram colocados em volta de uma estátua de Nossa Senhora na entrada do local, onde vigílias foram conduzidas para lembrar os mortos.

As pessoas que lamentavam em um dos dois funerais ouviram que a tragédia deveria se tornar um divisor de águas. O reverendo Derek Farrel, da Paróquia do Povo Viajante, afirmou que toda a comunidade tem que garantir que essas mortes são importantes. Ele também denunciou a falta de tolerância com a diversidade.

“Temos lições marcantes aqui. Precisamos aprender, acima de tudo, a nos colocarmos no lugar do outro se quisermos desenvolver sociedades genuinamente inclusivas e pluralistas. Muitos de nós nas comunidades estabelecidas falhamos em ter empatia pelos nossos irmãos e irmãs da comunidade dos viajantes.”

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