Cotidiano

Itália na película

Redação DM

Publicado em 17 de junho de 2021 às 16:58 | Atualizado há 5 anos

A 8 ½ Festa do Cinema Italiano começa hoje com o longa “As Irmãs Macaluso”, filme que estreou no ano passado durante a mostra competitiva do Festival de Veneza – um dos mais prestigiados do mundo. Dirigido pela cineasta e dramaturga Emma Dante, a película percorre a história de uma família formada por sete irmãs, com um olhar poético sobre memória, sonhos e revelações. Sem esquecer, claro, as marcas que elas carregam pela força do tempo ou da vida num subúrbio de Palermo, na Sicília.

Em uma poesia íntima que lhe fez cair nas graças da crítica internacional, Emma leva o espectador à alma das irmãs à beira do Mar Mediterrâneo, lugar no qual os laços familiares são fortes, indissolúveis e intensos, ao mesmo tempo em que a religião domina os costumes numa imposição do ideário conservador. É, portanto, uma fábula social, com algum contorno trágico e marcado pelo aspecto sociológico da miséria.

Nascida na cidade italiana de Palermo em 1967, a dramaturga destacou-se, com seu teatro, justamente por realizar uma abordagem sociológica de uma região, o sul da Itália, condenada a uma crise ética implantada pela máfia. Então não haveria outra razão, não é mesmo?, que não elaborar uma encenação e uma direção de atores impecáveis: é o espaço em que são levados a uma expressividade em alta intensidade.

As mulheres, confessou a diretora numa entrevista ao jornal italiano Corriere Della Sera antes do Festival de Veneza, realizam-se no filme, vivem juntas, sem os homens sequer lhes ajudarem. “Elas de alguma forma se salvam”, afirmou, na ocasião. São os efeitos do patriarcado, entendam. E por isso, se prestarmos atenção no contexto fílmico, o que temos é uma ode à irmandade. “Uma palavra que me faz pensar em mulheres solidárias, em mulheres guerreiras, na força do vínculo quando se está junto.”

Foi preciso, porém, fazer algumas modificações para “As Irmãs Macaluso” migrar da da linguagem teatral à cinematográfica. A começar pela direção de arte: completamente diferente no palco, as atrizes ficaram suspensas, no escuro, passando para o espectador na platéia a sensação de que elas haviam se perdido no tempo. A cenografia também é outro aspecto que passou por transformações. E muitas, aliás.

Mas também, pudera: no filme, desde o primeiro minuto, há um evidente esforço de construção da memória por meio dos objetos. Emma, em entrevistas à imprensa, contou que, antes de rodar a película, ensaiou ao longo de um mês, com casa vazia, sem as decorações: essa fase, sem dúvida, passou a ser primordial na construção do ambiente a ser filmado. Já que tudo estava indo bem, entram em cena as atrizes.

Se na peça a força cênica delas é a potência do espetáculo sobre o palco, para a obra ser adaptada ao universo cinematográfico com precisão haveria de ser tão forte quanto. E, bem, foi: as cenas, os ângulos fotográficos, além de como os corpos femininos contam histórias sobre sororidade, mostram que as atrizes Alissa Maria Orlando, Susanna Piraino e Anita Pomario estavam atentas aos detalhes, às construções entre as personagens jovens e já mais velhas. Temos um lindo filme. Poético, eu diria.

A programação, inclusive, homenageará a obra da cineasta Alice Rohrwacher, diretora dos aclamados e premiados “Lazzaro Felice” (2018), “As Maravilhas” (2014) – que conta com a atriz Monica Bellucci no elenco – e “Corpo Celeste” (2011), bem como os títulos inéditos no Brasil “Omelia Contadina” (2020) e “Uma Canzone” (2014). Haverá ainda masterclasses e bate-papos online com Emma Dante e os irmãos D´Innocenzo.

Berlinale
Dois filmes que foram exibidos no Festival de Berlim no ano passado fazem parte da programação do 8 ½ Festa do Cinema Italiano. Vencedor do Urso de Prata de Melhor Ator para Elio Germano, “A Vida Solitária de Antonio Ligabue”, de Giorgio Diritti, aborda a história real de um grande artista italiano do século 20 numa época dominada pelo fascismo. Ele recorre à pintura para suportar os horrores de um dos regimes totalitários mais brutais, além de com isso possibilita um caminho para amar.

O outro longa que chega direto da Berlinale para o Brasil é “Fábulas Sombrias”, dirigido pelos irmãos Fabio e Damiano D’Innocenzo. A linguagem, vanguardista, dá uma atmosfera singular ao desconforto de famílias que vivem no subúrbio de Roma, capital da Itália. Sarcástico e ácido, o narrador nos guia por um mundo de fábulas assustadoras e belas a partir do ponto de vista de crianças.

Em termos de ousadia estética, “Rômulo & Remo: O Primeiro Rei” talvez seja o mais afrontoso. O filme, falado em proto-latim integralmente, precisou ter o auxílio de estudiosos para criar construções da época da fundação de Roma, no ano 753 A.C. Para captar a atmosfera do período, os atores tiveram de passar por tratamento intensivo para conseguir sentir não só as lutas daquele povo, e sim a alma deles.

A 8 ½ Festa do Cinema Italiano tem na programação ainda “Volare”, de Gabriele Salvatores, diretor oscarizado em 1991 por “Mediterrâneo”, que também é uma estreia no Brasil – o filme foi exibido no Festival de Veneza neste ano. A produção, estrelada por Giulio Pranno e Claudio Santamaria e Valeria Golino, retrata a trajetória de um pai ausente que decide restabelecer o relacionamento com o filho. Enquanto “Volare”, Road movie pela Eslovênia, toca no ponto do amor entre pai e filho.

Para soltar boas gargalhadas, “Troca Tudo!”, de diretor Guido Chiesa, e “Bangla”, de Phaim Bhuiyan, premiado como a melhor comédia italiana de 2019. (Marcus Vinícius Beck)

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