‘Kirchnerismo construiu Estado com fins políticos’, diz chefe de gabinete do governo
Redação DM
Publicado em 17 de janeiro de 2016 às 06:35 | Atualizado há 11 anosBUENOS AIRTES — O Chefe de Gabinete do governo argentino, Marcos Peña comandou a campanha de Mauricio Macri e é considerado o braço direito do novo presidente. Ele diz ter ficado surpreso com a “profunda deterioração do Estado” e confirma a defesa de uma aliança estratégica com o Brasil, os questionamentos ao governo venezuelano e o interesse do americano Barack Obama em visitar a Argentina este ano.
O que mais os surpreendeu no primeiro mês de governo?
A constatação de que temos um Estado muito mais deteriorado do que se percebia fora dele.
E o que foi mais difícil?
Justamente, colocar em marcha o Estado, perder tempo em acomodar-nos depois de uma transição curta e com pouca colaboração do kirchnerismo.
Circularam muitos comentários sobre buracos no chão da Casa Rosada, umidade nas paredes…
A deterioração é profunda e vai muito além disso. O kirchnerismo concebeu o governo como um grande ato de comunicação, mas sem qualquer realidade por trás disso. A sensação ao se entrar na Casa Rosada é de que não se trabalhava aqui. Ela era uma metáfora de um governo sem coordenação ministerial, que praticamente não recebia ninguém a não ser para aplaudir nos atos da presidente.
O novo governo encontrou suspeitas de corrupção?
O que descobrimos foi que, quando existe um Estado que não tem transparência, mas que tem muitos recursos, há um espaço enorme para aumentar os custos políticos sem dar explicação à sociedade, para que não exista controle social sobre contratações e para que funcionários tenham sua pequena parcela de corrupção. Estamos juntando informação.
Poderiam ser apresentadas denúncias?
Vamos colocar tudo on-line e colaborar com todos para facilitar essa informação. Nosso foco é cumprir nossas metas, como alcançar a pobreza zero. O kirchnerismo é uma etapa encerrada. Mas, sim, é possível que sejam encontradas novas coisas.
Já no primeiro mês, o presidente Macri avançou sobre símbolos do kirchnerismo, como a lei de meios…
Nosso objetivo é colocar em marcha a economia. Claramente, no caso de setores como o das comunicações e dos meios, acreditávamos que era urgente recuar, pelo menos em parte, em relação à política do kirchnerismo. Não existe a intenção de avançar contra os símbolos dos governos dos Kirchner mas, sim, governar desde o primeiro dia resolvendo questões, algumas mais emblemáticas do que outras.
Os decretos de necessidade e urgência de Macri foram questionados, até mesmo por seus aliados na coalizão Mudemos…
As discussões internas são saudáveis, e a saúde do Mudemos está em seu melhor momento. Em certas situações, teremos pontos de vista diferentes, em outros podem existir questões de comunicação interna a serem melhoradas, como no caso da Corte Suprema Os decretos irão ao Congresso. Não existe vocação autoritária, mas, sim, para o diálogo e para a construção de consensos.
(Macri designou dois magistrados por decreto, sem antes avisar seus aliados).
O governo está fazendo uma limpeza no Estado?
Queremos um Estado forte, ativo, que invista mais em obras públicas e em infraestrutura, mas que, ao mesmo tempo, seja viável fiscalmente. O kirchnerismo construiu um Estado com fins políticos. Estamos revisando mais de 65 mil contratos, alguns inexistentes. A ideia é ordenar essa situação. Não nos importa a filiação política, nos importa que trabalhem e muitas pessoas não o fazem. Podem falar em ajuste, mas isso seria partir da base de que eles fizeram algo bom para o Estado, mas o esvaziaram.
(os kirchneristas)
O que é o kirchnerismo hoje?
Uma expressão que muito provavelmente tende a ser minoritária dentro do peronismo.
Existe preocupação com a crise brasileira?
Observamos com o desejo de que o Brasil se recupere o mais rápido possível. Como sócio estratégico central, quanto mais rápido sair de sua situação de conflito, mais rápido poderemos começar a trabalhar juntos.
Macri tem boas relações com os presidentes da região, menos com o venezuelano Nicolás Maduro…
Não temos um problema pessoal, muito menos com os venezuelanos. Existem uma defesa de valores e uma ideia de que é necessário ajudar a Venezuela para que o país respeite as instituições democráticas e os direitos humanos. Não temos uma agenda internacional ideológica, queremos trabalhar sem preconceitos com todos.
Na última cúpula do Mercosul, o presidente foi bastante duro com relação à Venezuela…
O Mercosul tem desafios nesse sentido, a Venezuela não cumpriu os compromissos institucionais que tem. Existe um limite para a democracia silenciosa. Em algum momento a diplomacia deve ser explícita. Dizer que não deveriam existir presos políticos e violações dos direitos humanos é uma questão básica.
Obama virá a Argentina este ano?
Não existe notificação oficial, mas, sim, conversas. Queremos trabalhar numa boa relação com os EUA. Queremos uma agenda de trabalho mais saudável e menos dramática. Temos de construir uma nova etapa nessa relação. Mas para construir uma relação madura, é necessário tirá-la da adolescência.