Cotidiano

‘Mãe Suu’, uma líder contestada na vitória

Redação DM

Publicado em 10 de novembro de 2015 às 06:05 | Atualizado há 11 anos

YANGON – Os resultados iniciais apontam uma vitória acachapante da Liga Nacional pela Democracia (LND), e até mesmo o Partido da União da Solidariedade e do Desenvolvimento (Pusd), do governo, apoiado pelos militares, reconheceu a derrota. Das 54 cadeiras com resultado já fechado, a LND obteve 49. Mas a tão esperada chegada do partido da ativista Aung San Suu Kyi ao poder — encarada por muitos como uma “vingança eleitoral” pelas eleições de 1990, em que a LND venceu, mas o resultado não foi reconhecido pela junta militar — traz uma série de incertezas para o futuro de Mianmar. Críticas de ex-apoiadores revelam um retrato da vencedora do Prêmio Nobel da Paz bastante diferente da líder popular conhecida como “Mãe Suu”, que finalmente triunfou após quase 15 anos de prisão domiciliar em sua luta pela democracia.

Quando Suu Kyi e seus correligionários lançaram a LND, em setembro de 1988, U Myo Khin não hesitou em se juntar ao partido como voluntário. O preço por essa escolha foram 12 anos na cadeia, e a constatação de um cenário que o fez deixar a legenda antes das eleições e concorrer a uma vaga no Parlamento como independente.

— Atuei como mensageiro entre os estudantes e a equipe de Suu Kyi. Todos a adorávamos — disse Khin, hoje com 57 anos. — Ativistas como eu sacrificaram sangue, suor e lágrimas pelo partido durante muitos anos. Mas fomos marginalizados.

‘NINGUÉM TOSSE NA LND SEM SUA PERMISSÃO’

Segundo Khin, a LND estabeleceu critérios para definir seus candidatos ao Parlamento, entre eles, a experiência dentro do partido. No entanto, o critério decisivo era a proximidade com grandes nomes do alto escalão da LND, e quando seu rival, com menos experiência e apoio local, reforçou suas ligações com o comitê central do partido, Khin foi preterido.

Numa coletiva dias antes das eleições, Suu Kyi defendeu a decisão da legenda de não apoiar as candidaturas de ativistas de fora do partido, privilegiando a escolha de nomes leais e experientes da LND. No entanto, mesmo figuras com anos de participação e alta popularidade local também ficaram de fora da lista de candidatos, como Daw Khin Phone Wai, que, como Khin, também deixou o partido antes das eleições.

— Suu Kyi não se identifica com as pessoas comuns — afirmou Phone Wai ao “New York Times”. — As pessoas têm enfrentado dificuldades e ela não consegue entender suas necessidades. Ela não tem conexão com o povo mais pobre.

De acordo com Khin, a vasta maioria de pessoas que apoiou a LND nos tempos de crise foi marginalizada, e os poucos sobreviventes só conseguiram permanecer próximos à líder por apoiá-la sem questionamentos. O ativista conta que mais de cem integrantes da LND reclamaram da escolha de candidatos para as eleições. No dia seguinte todos foram expulsos.

— Suu Kyi é autoritária — diz o ex-membro da LND. — Seu objetivo é a democracia, mas seus meios para atingi-la não são democráticos. Ela não gosta de quem lhe diz “não”, e no partido ninguém nem mesmo tosse sem sua permissão.

As declarações de Khin são reforçadas por frases da ativista e ações da legenda durante a campanha. Em agosto, numa entrevista à Radio Free Asia, Suu Kyi afirmou que a responsabilidade do povo durante as eleições era simplesmente “votar no partido, e não no nome do candidato”. Na mesma ocasião, ela explicou a escolha de candidatos da Liga.

— A LND é um partido político, e temos regras — afirmou. — Se você não é capaz de seguir essas regras, não pode trabalhar para a LND.

Mesmo com uma vitória, Suu Kyi, mãe de dois filhos britânicos, está impedida de ocupar a Presidência graças a um artigo da Constituição, que exclui do cargo parlamentares com filhos de nacionalidades estrangeiras. A recente declaração de que atuaria “acima do presidente” também gerou preocupações entre os antigos apoiadores.

— Essa eleição é histórica. Todos queremos democracia, e isso significa transparência, mas a líder do partido democrático não é transparente — diz Khin. — Ela e seu comitê até agora não revelaram quem será o candidato presidencial.

Também no exterior, a imagem de Suu Kyi ficou arranhada, desta vez por seu silêncio com relação à questão da minoria muçulmana rohyngia, que além de sofrer perseguições este ano, também teve seu direito a voto cassado nas eleições, por não serem considerados cidadãos birmaneses. Seus defensores afirmam que o silêncio da ativista foi uma atitude programada para não perder os votos de eleitores budistas nas eleições. No entanto, em recentes declarações, a ativista pediu à população que “não exagerasse” os dramas enfrentados pela minoria e, embora tenha afirmado que trabalhará pela reconciliação entre os grupos étnicos do país, destacou que “violência foi cometida por ambos os lados”. Ainda assim, criticou publicamente uma decisão do governo que proíbe famílias rohingyas próximas à fronteira com Bangladesh de terem mais de dois filhos.

— Não gosto de ser chamada de ícone ou símbolo. Só digo que terei que trabalhar muito duro, então é assim que prefiro ser reconhecida: como uma trabalhadora incansável — afirmou Suu Kyi, destacando que as acusações de autoritarismo não a incomodam. — O fato de me criticarem significa que sou uma política de verdade. Nunca ouvi falar de políticos que nunca foram criticados.

MILITARES DEVEM MANTER INFLUÊNCIA

Apesar da anunciada vitória do partido liderado pela ativista, analistas internacionais destacam que a influência das Forças Armadas na política está longe do fim. Os militares mantêm o poder de nomear um quarto do Parlamento, e qualquer lei precisa de aprovação superior a 75% para entrar em vigor, o que pode gerar um cenário complicado para o partido.

— A LND conseguiu uma bela vitória com uma votação expressiva, mas não será capaz de realizar as mudanças pelas quais a população votou, já que terá sua atuação minada pela Constituição militar — afirma Mark Farmaner, diretor da Burma Campaign UK, ONG britânica que defende direitos humanos em Mianmar. — A LND irá buscar mudanças, mas não há qualquer indicação de que os militares irão ceder um centímetro que seja.

Suu Kyi, no entanto, tratou de minimizar o problema:

— As Constituições são elaboradas pelo povo e não são eternas — afirmou antes da eleição. — Se o apoio popular for forte e claro o suficiente, não vejo por que não poderíamos superar pequenos problemas com emendas constitucionais.

Diante dos resultados, o Pusd reconheceu a derrota.

— Aceitamos o resultado sem questionamentos — afirmou o presidente do partido, Htay Oo.

Leia também

Siga o Diário da Manhã no Google Notícias e fique sempre por dentro

edição
do dia

Impresso do dia