Cotidiano

Mesquita toma medidas contra extremismo após atentados e retaliações

Redação DM

Publicado em 10 de janeiro de 2016 às 05:08 | Atualizado há 11 anos

RIO – Instalada em uma rua pacata do bairro da Tijuca, a Sociedade Beneficente Muçulmana do Rio de Janeiro, onde funciona a Mesquita da Luz, tentou manter sua rotina tranquila, ontem, dia em que foi revelado que um de seus frequentadores, o argelino naturalizado francês Adlène Hicheur, está sendo investigado pela Polícia Federal (PF) brasileira, de acordo com a revista “Época”.

Em 2009, Hicheur, de 39 anos, foi preso e condenado na França a cinco anos de detenção pela acusação de planejar atentados terroristas. Hoje, ele é professor no departamento de Física da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Como de costume aos sábados, na Mesquita da Luz havia ontem poucos frequentadores, que foram à casa para participar de uma de suas rezas diárias ou então para fazer aulas de religião e línguas, também oferecidas pelo centro. Mas alguns traços do temor da radicalização estavam evidentes. A sociedade instalou câmeras de segurança na mesquita logo após o atentado terrorista ao jornal satírico “Charlie Hebdo”, em Paris, em 7 de janeiro de 2015, que deixou 12 mortos.

Temor à radicalização

A intenção da direção da associação é proteger fiéis e pessoas de diversas religiões, igualmente bem-vindas no espaço, contra qualquer ato de violência. Além disso, também demonstrar a vontade do centro em ser transparente e colaborar com qualquer investigação policial.

— Esta é uma casa de Deus, que está aberta a todos. E é muito importante para nós proteger todos que entram aqui — disse Mohamed Zeinhom Abdien, presidente da Sociedade Beneficente.

O cuidado extra com a segurança começou após a veiculação de uma reportagem da rede CNN em espanhol, que mostrou a rotina da Mesquita da Luz logo depois do ataque ao “Charlie Hebdo”. Durante a reportagem, quando o imã fazia uma pregação contra a violência, um dos fiéis defendeu o atentado e exibiu uma camisa com o símbolo do grupo terrorista Estado Islâmico (EI). Na tentativa de identificar o autor da mensagem de ódio, a PF descobriu que Hicheur frequentava a mesma mesquita. O cientista passou então a ser alvo de investigação da polícia, que apura se há ligações dele com o ato registrado no vídeo.

De acordo com Mohamed Zeinhom Abdien, a Sociedade Beneficente Muçulmana não tem qualquer relação com o professor investigado nem com o outro homem — ou conhecimento de suas atividades. Eles seriam apenas frequentadores do espaço.

— Estamos sempre atentos. Se algum outro caso de extremismo acontecer aqui, levaremos as imagens à polícia — comentou o presidente, referindo-se à ocorrência de janeiro do ano passado. — O importante é ressaltar que o islamismo não prega a violência, mas a paz e o diálogo. É uma pena que grupos com interesses particulares manchem a imagem da comunidade muçulmana.

Currículo exemplar

Até ser preso, Hicheur era um cientista com currículo exemplar. Especialista em física das partículas elementares, ele trabalhava na Organização Europeia de Pesquisa Nuclear (Cern, na sigla em francês), que tem o maior laboratório de aceleração de partículas do mundo em Genebra, na Suíça. Em 2009, tirou uma licença médica e foi para a casa dos pais, na França.

Foi nesse momento que entrou no radar das autoridades, ao passar a frequentar um fórum jihadista na internet, trocando mensagens com um indivíduo chamado Phenix Shadow — que seria Mustapha Debchi, apontado pelo governo francês como membro da al-Qaeda na Argélia. A revista “Época” teve acesso aos 35 e-mails trocados entre Phenix Shadow e Hicheur, interceptados pela Inteligência francesa.

A polícia da França identificou potencial de risco nas mensagens e passou a monitorar Hicheur. Ao longo da conversa, Phenix fez uma abordagem sem rodeios: “Caro irmão, vamos direto ao ponto: você está disposto a trabalhar em uma unidade de ativação na França? Que tipo de ajuda poderíamos te dar para que isso seja feito?”. Cinco dias depois, a resposta. “Sim, claro”. No texto, ele revela que planejava deixar a Europa nos próximos anos, mas que poderia rever o plano. Para permanecer, Hicheur pôs como condição uma estratégia: “Trabalhar no seio da casa do inimigo central e esvaziar o sangue de suas forças”.

Após as mensagens, a polícia francesa — que encontrou em seu computador um arquivo criptografado no qual se discutia o envio de € 8 mil à al-Qaeda — prendeu Hicheur. Ele foi condenado a cinco anos de prisão por conspiração para terrorismo.

Depois de obter a liberdade condicional, em 2012, e sem conseguir recuperar o emprego no Cern — a Justiça suíça proibiu a presença do cientista no país até abril de 2018 — o pesquisador veio para o Brasil, onde conseguiu uma bolsa do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), em 2013. Desde então, Hicheur vive na Tijuca, no Rio, e tem visto de trabalho da UFRJ até julho. Ele trabalha como pesquisador do Laboratório de Partículas Elementares do Instituto de Física.

“A UFRJ divulgou edital público para contratação de professor visitante, a inscrição do candidato seguiu os critérios em curso, e o Instituto de Física participou do edital apresentando proposta para contratação na área de Física de Partículas de Altas Energias, baseada na avaliação do currículo do candidato. A efetivação da contração foi feita pela universidade de acordo com as normas usuais de contratação de visitante estrangeiro”, informou a universidade em nota.

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