Cotidiano

‘Minhas despesas são fixas, mas minha receita é uma incerteza’

Redação DM

Publicado em 21 de novembro de 2015 às 04:05 | Atualizado há 11 anos

Devido à crise financeira do Estado do Rio, estão ocorrendo problemas em hospitais e escolas. A situação pode piorar?

Não sei. O estado recolhe impostos da população e das empresas. Se há atrasos hoje no pagamento a nossos fornecedores, também há por parte de muitas empresas, que deixaram de arcar com seus impostos. Meu grande trabalho em 2015 foi facilitar a vida do empresário, para ele nos pagar. Se eu recebesse tudo que as empresas me informaram que iriam pagar, não haveria crise alguma no estado, eu estaria com tudo em dia. Elas deixaram de recolher R$ 7 bilhões (dívida acumulada desde 2013). Então, meu grande trabalho é fazer com que as empresas recolham seus impostos, para que eu possa acertar a vida do estado. Mas, obviamente, sei que elas também estão num momento de dificuldades.

O senhor pensa em alguma nova iniciativa para aumentar o recolhimento dos impostos?

Já aprovamos na Assembleia Legislativa este ano 11 leis econômicas. Facilitamos, conseguimos fontes de financiamento para pagamento de impostos. Estou me reunindo com cada empresário. Agora, vou à Firjan, à Fecomércio e à Associação Comercial pedir que os empresários recolham seus impostos para que eu não precise aumentar os tributos, como todos os estados vêm fazendo.

Existe a possibilidade de aumento do ICMS?

Não descarto, mas não estou querendo aumentar o ICMS. Tanto que, em 11 meses, eu não aumentei. Estou resistindo bravamente.

A dívida do estado com o governo federal está em R$ 8,5 bilhões por ano. O senhor pensa em propor uma renegociação?

Teremos uma reunião em São Paulo na quarta-feira, com mais de 15 governadores do movimento Brasil Competitivo. Pedimos a reforma da Previdência e uma conversa sobre esse fardo que é o pagamento da dívida com juros astronômicos.

O senhor pode atrasar o pagamento de parcelas?

Até agora não atrasei. Mas, entre pagar funcionário, aposentado e pensionista e pagar a dívida, vou optar por eles.

Então pode haver atraso?

Tudo pode acontecer. Vivo na incerteza, vivo do recolhimento das contribuições e da economia. Minhas despesas são fixas, mas minha receita é uma incerteza. Ela depende do empresário. Às vezes, ele prefere aplicar numa taxa de juros, que está gigantesca, e ficar esperando um benefício de parcelamento por parte do estado. Isso é o que eu quero combater, a sonegação. Autorizei o secretário (de Fazenda) Julio Bueno a botar scanners em todas as entradas do estado, por onde chegam mercadorias ilegais. Quero fazer uma grande Parceria Público-Privada (PPP) nessa área. Vou botar scanner, aparelho de Raios X, tudo que tem de mais moderno no mundo para combater não só a sonegação, mas também a entrada de armas no Rio.

Esse é um projeto de implementação imediata?

Quero ver se estaremos com tudo isso na rua até abril de 2016.

Como vai funcionar o equipamento?

Vou ter o mais moderno sistema de combate à sonegação. O contrabando de cigarro, que provoca uma perda para o estado de R$ 100 milhões na arrecadação de impostos, eu vou combater. Todas as entradas de mercadorias no Rio terão scanners fixos. Teremos também barreiras móveis. Uma fraude grande que estamos combatendo é a de combustíveis. Já apreendemos mais de cem carretas este ano. Tenho uma outra novidade, um projeto que ainda não foi concluído, mas eu já o autorizei. Vou fazer uma espécie de programa de milhagem para o contribuinte que pedir nota fiscal. Será um programa muito diferente do feito em São Paulo, que, agora, deu uma recuada.

Como será o programa de milhagem do Rio?

A pessoa pede a nota, ganha pontos e pode trocar por prêmios ou descontos.

Alguma obra poderá parar por falta de recursos?

Não paralisei nem quero parar obra alguma. Sem obra, seria pior ainda. Mas tudo depende do recolhimento de impostos. Estou querendo manter os investimentos, porque o que gira a economia é operário trabalhando. Se ele tem salário, vai para a farmácia, o supermercado, o boteco, para todos os lugares onde se recolhem impostos.

E a Linha 4 (Barra-General Osório) do metrô fica pronta até as Olimpíadas?

Estou trabalhando muito para isso. Até agora, não atrasei nenhum pagamento (para as obras do metrô).

O senhor depende de repasses de financiamento para a Linha 4…

Até agora, os repasses estão em dia, e meu pagamento também. Sou muito otimista. Quero muito entregar essa obra em abril ou maio, para o metrô começar a fazer o testes.

O pagamento em dia dos servidores está assegurado?

Até agora, mantive todo o calendário. Sou um dos poucos governadores que já pagaram 50% do 13º salário. Agora, tenho que correr atrás dos outros 50%.

Os servidores querem saber se vão receber a segunda parcela do 13º salário em dezembro…

Os servidores podem estar certos de que têm um governante que se preocupa muito com os salários deles, que coloca como prioridade o pagamento de seus vencimentos.

Qual é a previsão de déficit nas contas estaduais no encerramento do ano?

Hoje, meu déficit é de R$ 2,3 bilhões. Espero fechar o ano com um déficit entre R$ 500 milhões e R$ 1,5 bilhão, dependendo do que eu conseguir de dinheiro daqui para a frente.

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O senhor tem em vista alguma medida criativa para contornar a crise

Eu brinco que tirei muito coelho da cartola. Eu e minha equipe. Mas, hoje, já acabou até a cartola. Agora, quero arranjar uma outra. Vou arranjar.

O senhor já tem algum novo projeto para tirar um coelho da cartola?

Fiquei muito feliz ontem (anteontem) ao me encontrar com o Joaquim Levy (ministro da Fazenda), depois de 11 meses martelando que o governo federal precisa ter um fundo de apoio aos estados. Já que ele não quer conceder empréstimos, pelo menos pode criar um fundo garantidor para que possamos fazer as PPPs.

Mesmo com a crise há empresários interessados em investir no estado?

Há muitos empresários interessados, inclusive do exterior. Recebi o ministro da Economia da Inglaterra esta semana, que veio com diversos empresários que querem investir no Rio. Tenho recebido chineses, franceses… Ontem (anteontem), recebi representantes de uma fábrica francesa que está vindo para o Rio. Isso será anunciado na primeira semana de dezembro. Serão mais de 1.500 empregos diretos. Recebemos a fábrica da Sadia e Perdigão, com mais de 500 empregos diretos. As coisas não estão parando. Eu tenho de fazer o dever de casa, correr atrás do custeio, e torcer para a Petrobras retomar e terminar as obras do Comperj.

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