Cotidiano

Morre jornalista Janet Malcolm

Redação DM

Publicado em 18 de junho de 2021 às 14:37 | Atualizado há 5 anos

A jornalista Janet Malcolm, autora e repórter curiosa e corajosa, conhecida por suas críticas desafiadoras, desde casos de assassinato e arte e até o próprio jornalismo, morreu ontem, aos 86 anos. Segundo o jornal The New York Times, a causa do falecimento foi um câncer de pulmão.

Autora de livros e histórias publicadas em revistas influentes, a profissional nascida em Praga, na República Tcheca, praticava uma espécie de jornalismo pós-moderno no qual costumava chamar a atenção para seu próprio papel na narrativa, questionando se até mesmo o observador mais cuidadoso era confiável. Ela trabalhava desde 1963 na revista The New Yorker.

Em sua carreira, marcada por apurações exaustivas e textos saborosos, Malcolm se tornou conhecida por ter apostado em reportagens que uniam o ensaísmo com a psicanálise para dissecar assuntos forenses. Era, portanto, mais precisa que Tom Wolfe e Joan Didion. Grande parte de sua carreira foi focada no que ela chamou de “problema moral” do jornalismo e “o eu inventado do jornalismo”.

“Todo jornalista que não é muito estúpido ou muito cheio de si para perceber o que está acontecendo sabe que o que ele faz é moralmente indefensável”, foi como ela começou “O jornalista e o assassino”, publicado no Brasil pela Companhia das Letras. O livro de 1990 atacou o clássico do crime de Joe McGinniss, “Visão Fatal”, como o caso principal do autor enganando seu assunto, que era o assassino condenado Jeffrey MacDonald. É uma obra seminal do jornalismo literário.

O livro-reportagem, aliás, provoca controvérsias até hoje. Apareceu pela primeira vez na New Yorker em 1989 e foi publicado como um livro em 1990, explorando o caso de Jeffrey MacDonald, médico acusado e posteriormente condenado por matar sua esposa e duas filhas, que se tornou amigo do jornalista Joe McGinniss. MacDonald encarregou McGinniss de escrever um livro simpático sobre seu caso, mas McGinniss se convenceu de sua culpa e colocou no papel exatamente isso.

VOZ NARRATIVA
Em 1978, três anos após a morte de seu marido, Malcolm se casou com seu editor na New Yorker, Gardner Botsford. No mesmo ano, ela começou a desenvolver sua voz narrativa característica, enquanto tentava parar de fumar: ela acreditava que não conseguia escrever sem cigarros.

Dois anos depois, publica seu primeiro livro, “Diana e Nikon”, uma coleção de ensaios sobre fotografia. Depois, saiu um compilado de seus artigos publicados na New Yorker, intitulado de “Psychoanalysis: the Impossible Profession” – sem edição no Brasil. Mas foi em 1984 que ela se tornou um nome famoso, com “In the Freud Archives”, um artigo de duas partes que havia escrito sobre o psicanalista Jeffrey Moussaieff Masson. Foi um escarcéu judicial.

Analisando uma antologia de 2013 de seu trabalho, “41 Inícios Falsos”, para o The New York Times, Adam Kirsch elogiou Malcolm por “uma experiência literária poderosamente distinta e muito divertida”. “A maioria das peças do livro mostra Malcolm observando artistas e escritores do presente (David Salle, Thomas Struth) ou do passado ( Julia Margaret Cameron, Edith Wharton)”, escreveu Kirsch. “Mas o que o leitor lembra é de Janet Malcolm: sua inteligência fria, seu talento psicanalítico para perceber e seu talento para se retrair a fim de permitir que seus súditos se enforquem com suas próprias palavras.

No Brasil, saíram ainda o livro “A Mulher Calada”, perfil sobre a poeta Sylvia Plath, e Anatomia de um Julgamento, a respeito da investigação de Janet sobre a Justiça Criminal. (Redação, com informações da AP via Agência Estado)

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