O mestre da reportagem
Redação DM
Publicado em 16 de novembro de 2021 às 13:26 | Atualizado há 5 anos
Luís Carlos Prestes, a essa altura exilado político, apontou para a direção de Fernando Morais. “Este é o jornalista brasileiro que escreveu o livro sobre Cuba”, disse o secretário-geral do Partido Comunista Brasileiro referindo-se ao livro-reportagem “A Ilha”, um dos maiores sucessos editoriais do Brasil no qual o repórter apresenta suas impressões sobre Cuba, em 1976, fruto de um trabalho que durou três meses.
Sem que Fidel Castro pudesse lhe cumprimentar, o jornalista brasileiro se apressou em colocar tudo sobre panos quentes: explicou ao líder da Revolução a promessa de entrevista feita por Carlos Rafael, que Veja vendia sabe-se lá quantos milhares de exemplares à época, que era a revista semanal mais importante do País. Terminou o monólogo avisando que, voltasse ele para o Brasil de mãos abanando, perderia o emprego, e precisaria lidar com as suspeitas de ter ido a Cuba não para fazer uma entrevista, mas como subversivo. Fidel pareceu ter se sensibilizado. Chamou um homem grisalho – José Ramón Barruecos, o Chommy, então seu secretário particular.
A primeira viagem a Cuba, no final de 1974, colocou Fernando em contato com Rafael Rodrígues, vice-presidente de Fidel, com a missão de falar com o jornalista brasileiro, o que só se concretizaria no último dia de sua estadia no país caribenho. Em nome de Fidel, Rodrígues abiu o jogo: os dois países tinham relações turbulentas e abaixar a guarda para um jornalista brasileiro seria um erro. Mas o comandante da Revolução prometeu que a primeira entrevista concebida a um veículo brasileiro seria a Morais.
Dois anos depois, já editor-assistente de Veja, Fernando topou com um telegrama de Cuba onde lhe davam poucos dias para estar em Havana. Foi falar com o chefe. Explicou que poderia ser a tal entrevista com Fidel. Sinal verde, apanhou, meio de imediato, um avião a Lima e, de lá, para a capital cubana. Entre idas e vindas, possibilidades de a conversa com Fidel não acontecer, havia a Guerra Fria, Fernando escreveu uma das reportagens mais icônicas da imprensa brasileira, a terceira da antologia “Cem Quilos de Ouro”, lançada pela Companhia das Letras (2003).
“Foi essa a imagem que ficou fora para as crianças: quem usa barba é guerrilheiro, lutou com serra Maestra. E, para reforçá-la, por todo o país vêem-se fotos e cartazes de Che Guevara e Camilo Cienfuegos – barbudos e uniformizados de guerrilheiros”, escreve o repórter, na abertura da reportagem “Primeiro Rascunho da Ilha”. O Diário da Manhã optou por manter a grafia utilizada na coletânea de matérias jornalísticas de Fernando – já que, sem exagero, se tratam de documentos históricos, registros de um jornalismo em extinção, símbolos de publicações como Veja e Playboy, onde brilhara.
Por essas e por outras, Fernando eleva o ofício à condição de arte. Seus textos carregam um rigor que, aliado a descrições saborosas, prazerosas e elegantes, reinventaram a biografia no Brasil, junto com o também jornalista Ruy Castro. É dele obras que hoje, por exemplo, se tornaram indispensáveis nas bibliotecas daqueles que procuram compreender o País e sua história, como “A Ilha” (2001), “Olga” (2008), “Os Últimos Soldados da Guerra Fria” (2011), “Chatô” (2011), “Corações Sujos” (2011), além de “Lula – Volume 1”, que será lançada nesta terça-feira, 16, pela Cia das Letras.
Dessas coincidências da vida, quando Fernando desembarcará em Goiânia para participar do ciclo de palestras Diálogos Contemporâneos, a biografia do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva chegará às livrarias. Trabalho de fôlego, a obra consumiu dez anos do jornalista, com acesso direto, franco e frequente a Lula. A essas quilométricas horas de depoimentos, somou-se o faro de repórter e a prosa virtuosa – mas também sedutora, jornalismo também é um flerte com o leitor, dizia Gay Talese – para pinçar o perfil biográfico que desnuda um dos mais importantes personagens da nossa política.
No primeiro volume, numa narrativa que recorre a recuos e avanços cronológicos para manter o conhecido ritmo eletrizante do autor, o jornalista vai da infância de Lula, no sertão nordestino, até o anulamento de suas condenações, em 2021, quando foram suspensas as condenações contra o ex-presidente: nas páginas, o leitor acompanha o novo sindicalismo, as greves do ABC, a fundação do Partido dos Trabalhadores e a primeira campanha eleitoral. Mas por conta da pandemia e das preocupações sanitárias, o biógrafo adianta que não vai ter uma noite de autógrafos.
“É praticamente impossível você autografar um livro sem poder cumprimentar a pessoa, sem conversar um pouco. Mas irei, sim, falar sobre o processo de produção de um livro como esse. Durante vários anos acompanhei o presidente Lula, desde quando ele deixou a Presidência da República”, antecipa Moraes, ressaltando que começou a levantar um pouco na história de Lula quando ele deixou a Presidência da República.
Jornalista que viu a guerrilha na Nicarágua de perto, escreveu entre Kane e os malditos da beat Generation, marcou um encontro com Chatô e perfilou o advogado que mandou prendeu o ditador chileno Augusto Pinochet, Fernando Moraes é do time de repórteres que leva a máxima de gastar sola de sapato e tina da caneta para construir uma reportagem ao pé da letra. E, além de tudo, agraciou o leitor nos últimos anos com sagazes análises sobre o cenário político brasileiro no portal O Nocaute. Com esse mestre da reportagem, o jornalismo se agarra ao melhor da boa e velha literatura.
Nada mais adequado, portanto, do que ouvi-lo destrinchar um tema pertinente para a atualidade: Guerras culturais – corações e mentes em tempos de fake news, negacionismo e pós-verdade.
Outros livros de Fernando Morais
‘A Ilha’
Lançada em 1976, essa reportagem sobre a pequena Cuba virou um dos maiores sucessos editoriais brasileiros e se converteu num ícone da esquerda brasileira nos anos 70. Foram três meses de apuração para uma reportagem histórica.
‘Cem Quilos de Ouro’
Doze reportagens de um dos mais importantes jornalistas brasileiros: cada texto é precedido de um breve relato que contextualiza cada matéria, numa verdadeira aula de jornalismo ministrada por um mestre da reportagem.
‘Olga’
A história de Olga Benario, judia e comunista, companheira de Luís Carlos Prestes. Grávida, foi entregue pelo governo de Getúlio Vargas à polícia secreta alemã e acabou assassinada nos campos de concentração nazistas.
‘Chatô’
Biografia do proprietário de um império de quase cem jornais, revistas, estações de rádio e de televisão. Figura carismática e intempestiva, Assis Chateaubriand teve uma trajetória indissociável da vida cultural e política do país entre as décadas de 1910 e 1960.
‘Corações Sujos’
A história da Shindo Renmei, a seita nacionalista que aterrorizou a colônia japonesa no Brasil após o fim da Segunda Guerra. Recusando-se a aceitar a notícia da rendição japonesa, a seita promoveu uma verdadeira caçada aos chamados “corações sujos”, acusados de traição à pátria pelo crime de acreditar na verdade.