Cotidiano

“O pequi pode ser tão famoso e rico quanto a azeitona. Ou mais”

Redação DM

Publicado em 14 de abril de 2018 às 01:49 | Atualizado há 1 ano

“Precisamos superar os limites dos commodities e matérias-pri­mas e agregar valores aos produtos do agronegócio. Esse é um dos gran­des desafios brasileiros.” A avaliação é de Sávio Barros de Mendonça, es­pecialista em Planejamento e Ava­liação Ambiental pela Universidade de Aberdeen, Reino Unido. Espe­cialista em desenvolvimento rural e sustentabilidade econômico-so­cial e ambiental, ele tem palestra­do em diversas universidades eu­ropeias. Sávio Barros é doutorando em Produção Sustentável pela Uni­versidade de Montpellier, França; mestre em Políticas para o Desen­volvimento Sustentável pela Uni­versidade de Brasília, especialista em Planejamento Estratégico pela Universidade de São Paulo; e admi­nistrador público pela Universidade Federal do Amazonas.

No evento, Sávio Barros parti­cipou de sabatina ao lado de Ciro Gomes, pré-candidato à presiden­te do Brasil.

Na Universidade de Montpel­lier, Ciro traçou um resumo históri­co do processo político e de desen­volvimento econômico do Brasil e dos desafios esperados pela nova gestão nacional.

 

ENTREVISTA

Após fazer diversas especializações em universidades no Brasil e Europa, como você analisa hoje a inserção comercial do Brasil no mundo?

O Brasil se destaca como im­portante ator no cenário global, não somente pelos avanços tec­nológicos, mas também, por po­líticas públicas que alicerçaram essa alavancagem, especialmente no agronegócio. Mas existem la­cunas que ainda necessitam ser aprimoradas como fragilidades no campo da logística, da edu­cação rural, da formação edu­cacional e educativo-técnico e gerencial consistentes para os pe­quenos agricultores familiares. Precisamos de maiores esforços conjuntos das instituições, com políticas integradas, que pro­movam mais agregação de va­lor ao produto primário, desde os grãos já produzidos em larga escala, a produtos da biodiver­sidade brasileira, que possam atender ao largo espectro de mer­cados nacionais e estrangeiros em alimentos (bens em forma­to para o consumo final , sucos, geleias, biscoitos, frutas proces­sadas, bebidas diversas, energi­zantes, smoothies, ração animal de alta qualidade dentre outros), além de nutracêuticos, suplemen­tos, cosméticos, fármacos, de en­zimas e tantos outros produtos.

Mas na prática em que estágio se encontram os produtos brasileiros no mercado global?

Ao se visitar supermercados na Europa, América do Norte, Japão e China, por exemplo, encontra­-se produtos agroindustrializa­dos oriundos do México, Espa­nha, Itália, França, Alemanha, Grã-Bretanha, Canadá, Estados Unidos, China, Japão e tantos ou­tros, menos do Brasil. Chega-se ao disparate de se encontrar pra­teleiras citando “café italiano ou café alemão”, sem que esses paí­ses produzam uma grama des­ses produtos. Valendo ressaltar a tecnologia de torrefação que eles possuem, mas o Brasil também já dispõe. Temos que superar a pro­dução de matérias-primas alimen­tares e de fibras e agregar valor aos produtos básicos. Esse é um dos grandes desafios brasileiros. No mercado varejista europeu, por exemplo, pode-se comprar pacotes, à vácuo, com verduras de Israel e da Espanha, leite de soja ou de castanha de caju pro­duzidos na França ou na Suécia, com elevado grau de consumo. E em todos os casos, no que concer­ne a produtos tropicais, nenhum foi produzido nos campos agrí­colas da Europa.

O Brasil pode perder mais ainda o controle sobre seus recursos naturais?

Instituições de pesquisa estão testando a produção de açaí no norte da Austrália, e empresá­rios franceses começam a orga­nizar sistemas produtivos de açaí na Guiana Francesa, fechando a cadeia produtiva inteira até se chegar a uma bebida pron­ta, tipo smoothie, à base de açaí, no ponto para exportação para a Europa. Vê-se aí o risco de se repetir uma situação já conhe­cida em relação a tantos outros produtos, como o velho caso da borracha natural da Amazônia.

Que informações você tem de Goiás, considerado um dos grandes celeiros do agronegócio no Brasil?

No passado o estado de Goiás teve uma grande empresa cha­mada Arisco, que distribuía seus produtos alimentícios dentro e fora do País, honrando os esfor­ços do empresariado goiano e brasileiro. Atualmente, como tantas outras promissoras em­presas brasileiras, ela se encon­tra nas mãos de não brasileiros. Não que estejamos fazendo apo­logia a um nacionalismo irra­cional, radical e sem visão de negócio, muito longe disso, en­tretanto, alertando para a ur­gente e necessária expansão de políticas que venham ampliar o suporte ao produtor e empre­sariado brasileiro, com estraté­gias de logística, de industriali­zação do produto primário e de mercado que alcancem as pra­teleiras do mundo, com produ­tos de alto valor agregado. O pe­qui, por exemplo, pode ser tão famoso e rentável quanto a azei­tona, salientando que a Europa, Japão e China estão ávidos por gostos exóticos e sabores diferen­ciados. No setor de cosméticos o seu óleo já atrai forte interesse de indústrias cosméticas da Euro­pa, mercado atualmente aten­dido por uma empresa original­mente do interior de São Paulo e com uma bioindústria instalada em Belém, PA, longe de atender a uma demanda emergente gigan­tesca em volume e em valores mo­netários.

O que estaria faltando para o País se fazer mais presente lá fora, com marcas próprias?

O Brasil dis­põe de valiosas e produtivas ins­tituições de pes­quisa e inovação, no entanto, a pesquisa por si só não dará vazão às oportunidades laten­tes e potenciais existentes nos mercados do País e do mundo. Esse quadro mostra um univer­so gigantesco de oportunidades a serem abraçadas pela inicia­tiva privada nacional, que fa­voreçam à ampliação do Pro­duto Nacional Bruto e do PIB, e nesse contexto, incluídos os médios e pequenos produtores familiares, que necessitam de amparo do Estado.

Seria o caso de aumentar investimentos públicos no setor?

Não há necessidade de uma elevadíssima carga de subsídios, como ocorre na Europa, Japão e Estados Unidos, mas há que haver forte presença de um Es­tado assistente e não assisten­cialista. Afinal, nos países de economia desenvolvida há ex­tensa propaganda institucio­nal e estes difundem matérias jornalísticas incentivando o li­vre comércio, em que pese sutis e inteligentes estratégias mer­cadológicas de autoproteção e valorização de seus produtos (o que não é errado). Errado é imaginar que no mundo do co­mércio não existe uma “guer­ra” de mercado e por mercados, que demanda por especialis­tas e estrategistas, com preparo em inteligência e contra-inteli­gência de mercado, papel que poderia estar sendo realizado por instituições ligadas ao go­verno e ao setor privado, como a APEX. O mundo dos negócios não é para amadores e o Brasil tem um enorme passivo a con­quistar nesse campo.

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