Para cada imigrante nos EUA, uma Ação de Graças diferente
Redação DM
Publicado em 28 de novembro de 2015 às 06:05 | Atualizado há 11 anosLOS ANGELES – Quatro séculos depois dos Peregrinos, as famílias continuam comemorando o sucesso de sua chegada à costa americana com uma refeição caprichada no final de novembro – mas nem sempre é o peru assado que ocupa posição de destaque.
Na casa de Margoth Abrego, imigrante salvadorenha de 56 anos, por exemplo, a ave nunca chega à mesa inteira; ela prefere fazer dois perus (um assado, o outro refogado), que são desfiados e servem de recheio para o pão em um prato típico de sua terra chamado “pan con chumpe”.
Esse, por sua vez, é servido com “arroz con gandules” (arroz com guandu), prato tradicional de Porto Rico. Para os Abrego, Ação de Graças é dia de pensar nas origens em terras distantes – e um lembrete das dificuldades em manter a família unida. Margoth viveu 14 anos em El Salvador sem a mãe, que tinha ido para Los Angeles para trabalhar como camareira e acabou se casando novamente com um porto-riquenho.
“Minha mãe não consegue falar da infância sem chorar. Até hoje tenta compensar os anos que viveu longe da minha avó”, conta a filha de Margoth, Leisy, que é professora da Universidade da Califórnia em Los Angeles.
O feriado deste ano reuniu cinco gerações do clã – e, em uma época em que é mais difícil do que nunca atravessar as fronteiras dos EUA, nem toda família imigrante tem tanta sorte.
Aprendemos na escola que o Dia de Ação de Graças começou como um encontro de culturas; Abraham Lincoln formalizou a data como comemoração nacional durante a Guerra Civil, na tentativa de unir um povo ferido e dividido. Hoje em dia, que me desculpem os nossos amigos nativos, mas a última quinta-feira de novembro é a data mais respeitada e lembrada do país.
Os aeroportos não ficam lotados no dia três de julho com gente tentando chegar em casa a tempo de pegar o churrasco do Dia da Independência; Natal é feriado religioso, mas Ação de Graças combina com as orações de todas as crenças e, cada vez mais, é desfrutado com pratos multiétnicos. É uma data que comemora a força do elemento que mantém o país unido: a família.
É a coisa mais fácil encontrar receitas da região de Bengala para a data, ou pãezinhos recheados de peru no vapor chineses, ou até relatos das refeições de famílias armênias nessa data. Pergunte ao rabino e ele também lhe dirá para não se preocupar por que o dia também pode muito bem ser kosher.
Para grande parte dos grupos étnicos que se estabeleceram nos EUA ao longo do último século, a refeição “tradicional” pode ser meio estranha e até exótica. Meus pais, imigrantes guatemaltecos, só passaram a comemorá-la depois de se divorciarem e se casarem novamente, em uma família judaica e outra, mexicana. (Meu veredito pessoal: os tamales são ótimos, mas continuo preferindo o bom e velho peru recheado.)
Para os jovens imigrantes que tiveram a sorte de reencontrar os pais e/ou outros familiares, o Dia de Ação de Graças deste ano serviu de introdução à promessa – e às complicações – da vida nos EUA.
“Eles estão tentando se readaptar às suas famílias; vão se sentar à mesa, frente a frente com pais que não veem há anos ou que se casaram de novo”, explica Leisy Abrego, cuja experiência a levou a escrever o livro “Sacrificing Families: Navigating Laws, Labor and Love Across Borders” (“O Sacrifício da Família: Como Lidar com as Leis, o Trabalho e o Amor Além da Fronteira”).
“Para aqueles que cresceram querendo reencontrar o pai ou a mãe ausente por tanto tempo, poder compartilhar o espaço da cozinha para preparar uma refeição é muito importante”, afirma.
Para outros, o dia oferece a oportunidade de rezar pelo reencontro há muito adiado pelas complicações resultantes da situação de imigração.
“Passo com meus amigos; no ano passado fizemos tamales e um peru”, conta uma salvadorenha de 60 anos que pediu para eu não publicar seu nome porque está vivendo em Los Angeles com o visto vencido.
Ela está no país há quinze anos, mas nunca comemorou a data com os dois filhos crescidos, que ficaram em El Salvador. Em vez disso, se reúne na Califórnia com os amigos, vizinhos e colegas que se tornaram sua família “adotada”.
Os dias de folga são uma pausa bem-vinda das longas horas de trabalho, geralmente silenciosas, como doméstica em tempo integral perto da praia, em Malibu. Ela conta que seu salário ajuda o filho a sobreviver e paga a educação da filha.
“Dou um duro danado para mantê-los, mesmo de longe, e pagar nossas dívidas. Tenho orgulho disso, mesmo que me sinta muito só”, revela.
O ponto alto da semana é quando os patrões permitem que use um dos computadores para fazer uma chamada de vídeo para casa, em El Salvador. O neto de sete anos, que ainda não conhece pessoalmente, já ganhou uma medalha de prata na escola, onde cursa o primeiro ano.
Para os amigos, ela prepara um “curtido”, tipo de relish com legumes frescos e mostarda, mas confessa que, se estivesse em casa, com a família, prepararia uma “sopa de gallina india”, prato tradicional de seu país.
“Seria maravilhoso poder passar o tempo com a minha família, não importa o dia”, suspira.
(Héctor Tobar, professor assistente da Faculdade de Jornalismo e Comunicação da Universidade de Oregon, é autor, mais recentemente, de “Deep Down Dark: The Untold Stories of 33 Men Buried in a Chilean Mine, and the Miracle That Set Them Free” e contribui frequentemente para a coluna.)