Pessoa diz que dinheiro de campanha não era propina
Redação DM
Publicado em 10 de novembro de 2015 às 08:20 | Atualizado há 11 anosSÃO PAULO —O dono da UTC Ricardo Pessoa, um dos principais delatores da Lava-Jato, disse que as doações para campanhas eleitorais não tinham relação com as propinas pagas pela empreiteira em troca de contratos com a Petrobras.
— A campanha não tinha nada a ver com propina. A doação de campanha tinha pedido específico para candidatos — disse Pessoa, acrescentando que os pedidos para campanha, mesmo quando feitos por Vaccari, não eram vinculados às propinas por contratos na Petrobras. — Não eram para políticos (as propinas), era para o diretório nacional — afirmou Pessoa, em depoimento do juiz Sergio Moro na última segunda-feira.
O empreiteiro afirmou que havia uma diferença entre as doações feitas dentro e fora do período eleitoral. Uma das linhas de acusação da Procuradoria é que o financiamento legal a candidatos e partidos era uma das etapas finais da lavagem do dinheiro desviado da estatal.
— Na época de campanha, as contribuições de campanha não tinham nada a ver com propina, eram contribuições de campanha mesmo. O restante, não. Era como se pagava a comissão da propina da Petrobras — disse Pessoa, não detalhando o que diferenciava os dois esquemas.
Pessoa ressaltou que as doações oficiais vinculadas à propina eram feitas apenas ao Partido dos Trabalhadores.
— A grande maioria era contribuições para o PT. Não tinha campanha eleitoral.
Pessoa afirmou ter dado dinheiro em espécie ao ex-tesoureiro do PT, João Vaccari Neto, “uma ou duas vezes” e que as quantias foram retiradas aos sábados, em seu escritório.
O empresário disse ainda que nunca usou o esquema do doleiro Alberto Youssef para obter dinheiro em espécie para pagamento de propinas. Segundo ele, a UTC usou duas empresas de Adir Assad – a SM Terraplanagem e a Rock Star – e um escritório de advocacia.
— Pouquíssimas vezes foi dado dinheiro em espécie, porque ele (Vaccari) pedi, Para nós era muito mais difícil — disse Pessoa, referindo-se à necessidade de pagar pelo serviço de terceiros, como Assad, que firmavam falsos contratos de prestação de serviços, emitiam notas para justificar o pagamento e, em seguida, entregavam o dinheiro em espécie à empresa, ficando com um percentual.
O empreiteiro afirmou que teve contrato com a JD Consultoria, do ministro José Dirceu, para se estabelecer no Peru e que foram prestados serviços efetivos, embora não tenha dado tempo de ter fechado negócios no país. Ele disse quel, quando Dirceu foi preso, recebeu um pedido de ajuda do irmão do ex-ministro, Luiz Eduardo.
— Ele pediu e eu decidi ajudar.
Embora o pedido de ajuda não tenha sido vinculado ao pagamento de propina da Petrobras, Pessoa conseguiu que os valores fossem abatidos do total de propinas que devia ao partido, com autorização de Vaccari.
‘VALORES ERAM COMPROMISSOS POLÍTICOS’
O ex-presidente da construtora Camargo Correa Dalton Avancini afirmou, também em depoimento ao juiz Sérgio Moro, que a propina paga no esquema de corrupção da Petrobras era “compromisso político”. Avancini foi ouvido nesta segunda-feira como testemunha de acusação na ação que envolve o ex-ministro da Casa Civil José Dirceu.
— Os valores acertados eram compromissos políticos — afirmou Avancini quando questionado pelo juiz Sérgio Moro sobre se ele sabia para quem ia o dinheiro desviado da estatal.
O executivo, no entanto, afirmou que não havia indícios de que Dirceu era um dos destinatários da propina paga pela Camargo Correa. A construtora admitiu a participação no esquema e assinou um acordo de leniência onde se comprometeu a devolver R$ 700 milhões aos cofres públicos.
Além do executivo, que assinou acordo de delação premiada, a Justiça ouviu outras testemunhas de acusação no processo de Dirceu. O ex-ministro está preso no Complexo Médico-Penal em Pinhais, na Região Metropolitana de Curitiba.
O engenheiro Marcelo Halembeck, dono de uma construtora que reformou o apartamento do ex-ministro confirmou que recebeu o dinheiro da obra do lobista Milton Pascowich, apontado como operador de Dirceu. Em delação, Pascowitch admitiu a participação no esquema.