Cotidiano

PF sofre críticas por divulgação precipitada

Redação DM

Publicado em 21 de março de 2017 às 02:21 | Atualizado há 1 ano

Acatando a Operação Carne Fraca, mas criticando a maneira como foi divulgada ao público, os segmentos do agronegócio censuram a Polícia Federal. A primeira reação nesse sentido partiu do próprio ministro da Agricultura, Blairo Maggi, que gostaria de dispor de representante do seu Ministério em missão dessa natureza. Em sua opinião, houve declarações precipitadas e mal interpretadas acerca de determinados conservantes, considerados de uso legal.

A Federação da Agricultura e Pecuária de Goiás (Faeg), que congrega mais de 120 sindicatos rurais, reuniu-se ontem à tarde. O presidente da entidade, José Mário Schreiner, emitiu comunicado ao final do dia. A Faeg, como os demais segmentos da cadeia da carne, concorda com a ação da PF. Mas observa também que “o problema ganhou uma magnitude que não precisava”. Ela quer dizer que três unidades não podem prejudicar um universo. Procura tranquilizar o consumidor final quanto à qualidade da carne bovina brasileira. Da porteira para dentro, o rebanho é vacinado periodicamente, resultando numa carne saudável.

Há uma preocupação do segmento, contudo, com a reação do mercado interno e externo. Há muitos boatos. As redes sociais dificultam porque nem sempre traduzem a realidade. Ontem, em consequência dessa situação, as plantas frigoríficas não procederam à cotação diária. A expectativa é a de que a partir de hoje haja novas ofertas pela arroba do boi e que o mercado não se deprima. A arroba do boi gordo estava cotado a R$124,50 em Goiânia e a R$139,67 em Bom Jesus de Goiás, na última sexta-feira.

Passando ligeiramente por Goiânia, ontem, o presidente da Associação Brasileira dos Criadores de Zebu (ABCZ), Arnaldo Manuel de Souza Machado, disse que mantém concordância com a posição do ministro Maggi. Marcos Gracia, da Associação Goiana dos Criadores de Zebu (AGCZ) e da diretoria da ABCZ, concorda com a opinião geral do segmento de que ocorreu uma divulgação generalizando tudo. A visão que deixa é a de que “alguém queria aparecer, ocupar o holofote, e prejudicar todo um setor que faz a economia brasileira movimentar.

A Associação Brasileira da Proteína Animal e a Associação Brasileira da Indústria Exportadora de Carne, no entanto, foram mais duras. Francisco Turra, pela ABPA, e que já foi ministro da Agricultura, e Antônio Camardelli, da Abiec, insistem que há “uma avaliação e julgamento de situações que ainda não foram investigadas”. Para ambos, se há algum problema na cadeia é “pontual” e defenderam que os “possíveis criminosos sejam punidos”. Turra, retrucando o absurdo de uma gravação da PF: “ Ácido ascórbico é vitamina C. Quem toma suco de laranja consome bastante essa substância”.

Marcos Gracia lembra, ainda, que o BRF não abate bovinos e sim peru e frango. “Mas a mídia não destaca esses detalhes e culmina por prejudicar o setor pecuário de corte”, observa. Por último, 33 fiscais, segundo ele não concursados, prejudicam também todo um segmento. “São apenas três unidades interditadas num cenário de mais de 450”, concluiu. Para o presidente da Abiec, Antônio Camardelli, “há uma situação sendo generalizada. Agora é a vez de separar o joio do trigo. O que não queremos é que todos sofram com essa imagem negativa que foi criada”.

 

Sindicarne propõe novo sistema de controle de qualidade

O presidente do Sindicato das Indústrias de Carnes e Derivados de Goiás (Sindicarne), José Magno Pato, acompanha atento o desenrolar da Operação Carne Fraca deflagrada pela Polícia Federal. Pato, conceituado líder do segmento e que escolheu como profissão a condição de médico veterinário, defende novos sistemas de controle de qualidade. Pela sua vivência, entende que chegou a hora de modernização no setor. Ele parte da premissa de que “onde tem muito a presença do governo em ações de fiscalização, pode haver corrupção.”

Magno Pato não é contra a fiscalização do Ministério da Agricultura nas indústrias de alimentos. Mas enfatiza que essa ação deveria ser feita por amostragem (sem avisos) com auditorias a cada época (mês, quinzena etc). Por sua vez, entende que “as empresas têm que ter responsabilidade sobre o que colocam no mercado e é o que acontece com a grande maioria hoje no País. Tanto é que o Brasil é o maior exportador mundial de carne bovina e isso não veio por acaso. São muitos anos de trabalho”.

Pato observa que o sistema de fiscalização do Ministério da Agricultura “é ainda da década de 50 e isso precisa ser modernizado”. Está convencido de que as leis hoje sobre os direitos do consumidor no Brasil são modernas, eficientes e uma das melhores do mundo. Então todos que produzem alimentos de origens animal e vegetal devem ter consciência disso.

Laboratórios e controle 

Para Magno Pato, um exemplo prático que poderia ser adotado pelos frigoríficos é a implantação de laboratórios de controle de qualidade em suas unidades como as indústrias de laticínios que não são isentas de fiscalizações do Ministério da Agricultura. E isso é muito bom para quem busca qualidade. Esses laboratórios dos frigoríficos deveriam ser inclusive auditados até por países que compram nossos produtos e não só pelo Ministério da Agricultura.

O presidente do Sindicarne enfatiza outro exemplo. Os laboratórios que fabricam remédios, não contam com a presença constante de fiscais do Ministério da Agricultura. No entanto, funcionam com alto grau de credibilidade.

Pato indaga: “por que que só nos frigoríficos tem que haver constantemente a presença de fiscais do Mapa? Na prática isso não acontece já que, na maioria dos casos, o próprio governo federal não tem gente suficiente para tal tarefa, buscando funcionários emprestados até dos Estados ou dos municípios. Enfim, um sistema em desarmonia. “Por isso acho que está na hora de todos os seguimentos envolvidos nesse processo buscarem novas discussões visando modernizar as fiscalizações com maior dinâmica e credibilidade”, finalizou.

ABCZ incentiva modernização 

A Associação Brasileira dos Criadores de Zebu (ABCZ) disse, em nota, que ação da Polícia Federal, deflagrada com a operação Carne Fraca, vai incentivar a modernização da fiscalização do processo frigorífico, “acompanhando os avanços que há tempos já fazemos no campo”.

A entidade, uma das principais representantes da pecuária do País, afirmou que defende o rígido processo de apuração e, “mediante comprovação, punição severa apropriada à gravidade da situação”. “Essas acusações contrariam todo o esforço da nossa classe de produtores rurais que seguem rígidas normas de segurança para a produção de carne bovina”, afirmou a associação.

Exceção não é a regra 

A Associação Brasileira do Agronegócio (ABAG), com sede em São Paulo, emitiu o seguinte posicionamento ao Diário da Manhã em relação à operação “Carne Fraca”:

No Brasil, a evolução das cadeias produtivas das carnes é notável. Os ganhos de produtividade, as certificações e os controles de qualidade fizeram o produto brasileiro ganhar o mercado internacional e reduziram os preços ao consumidor interno.

Assim como se passa agora, com essa crise no setor da carne, deve-se lembrar que problemas momentâneos em outros setores, públicos e privados, sempre uma minoria, aconteceram. No caso da carne, ressalta-se o envolvimento de um número mínimo de unidades de produção.

Pedimos que as averiguações sejam feitas com transparência, urgência e rigor. Alertarmos para que elas se façam dentro dos critérios técnicos, éticos e sejam divulgados os fatos que precisam ser corrigidos.

Queremos o diagnóstico e a solução!

Como brasileiros, vamos defender a verdade e não gerar motivos que prejudiquem o País.

Temos toda a confiança nas autoridades públicas e nas empresas para solução do problema.

Exceção não é regra!”

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