Cotidiano

Postura dura de Macri contra Maduro divide países vizinhos

Redação DM

Publicado em 25 de novembro de 2015 às 05:05 | Atualizado há 11 anos

BUENOS AIRES – Não será fácil para o presidente eleito da Argentina, Mauricio Macri, encontrar aliados no Mercosul dispostos a avançar com a aplicação da cláusula democrática do bloco contra a Venezuela (medida que só pode ser adotada por consenso). O novo chefe de Estado antecipou sua decisão de abrir um debate sobre a eventual suspensão do país, na próxima cúpula de presidentes do Mercosul, que será realizada em 21 de dezembro, em Assunção. No entanto, segundo analistas e fontes do Paraguai, Uruguai e Chile ouvidas pelo GLOBO, os demais governos não estariam dispostos a aderir à iniciativa de Macri, embora compartilhem, em muitos casos, seus questionamentos ao presidente Nicolás Maduro.

No caso do Paraguai, existe um impedimento econômico que, na opinião do jornalista Adrián Cativelli, editorialista do “Última Hora”, dificulta uma eventual parceria entre o presidente Horacio Cartes e Macri. Ambos se conheceram há vários anos, quando o paraguaio comandava o time de futebol Libertad e o presidente eleito estava à frente do popular Boca Juniors. Mas hoje, não seria tão simples para ambos unir-se no âmbito do Mercosul.

— Tomamos nota (da proposta de Macri) — limitou-se a dizer ontem o chanceler paraguaio, Eladio Loizaga.

O Paraguai está em plena renegociação de uma dívida estimada em US$ 350 milhões da Petropar, companhia petrolífera do país, e a Petróleos da Venezuela (PDVSA).

— Cartes pode até compartilhar a visão de Macri, na intimidade, mas não vejo seu governo defendendo a utilização da cláusula democrática — enfatizou Cativelli.

O jornalista lembrou que seu país ainda guarda um profundo ressentimento pela suspensão aplicada pelo Mercosul em 2012, após o polêmico impeachment do ex-presidente Fernando Lugo. O Paraguai só iniciou o lento processo de reinserção no bloco com a posse de Cartes, em meados de 2013.

— Nosso país tem uma posição clara, condenou à prisão de Leopoldo López, mas não é tão simples fazer o que Macri pede _ afirmou Cativelli.

Em Montevidéu, o governo do presidente Tabaré Vázquez também enfrenta um cenário delicado, mas não somente por questões econômicas (a dívida do Uruguai com a PDVSA alcança em torno de US$ 400 milhões). O principal obstáculo para que Vázquez, de perfil bem mais moderado que seu antecessor, José “Pepe” Mujica, possa respaldar o pedido de Macri é político. A governista Frente Ampla está dominada, atualmente, por uma ala esquerdista, que jamais aceitaria qualquer tipo de medida contra a Venezuela de Maduro.

A divisão tornou-se evidente recentemente, quando o secretário-geral da Organização de Estados Americanos (OEA), Luis Almagro, ex-chanceler do governo Mujica, enviou uma carta ao Conselho Nacional Eleitoral (CNE) venezuelano defendendo a necessidade de enviar uma missão de observadores. A reação de Mujica foi imediata: o ex-presidente rompeu relações com Almagro, publicamente:

— Lamento o rumo que seguiste e sei que é irreversível, por isso agora, formalmente, te digo adeus.

Na visão de Jorge Lanzaro, professor do Instituto de Ciência Política da Universidade da República do Uruguai, “parece difícil que o Uruguai possa acompanhar a postura de Macri”.

— O governo uruguaio está dividido, mas dentro da Frente Ampla e no Parlamento a ala esquerdista é mais forte — explicou Lanzaro.

Na última segunda-feira, o chanceler do país, Rodolfo Nin Novoa, afirmou que “não estão dadas as condições” para aplicar a cláusula democrática no caso venezuelano.

— Agora, a posição pessoal de Vázquez é outra coisa… mas isso não se sabe, o presidente é muito mais cauteloso que seu antecessor e fala pouco — comentou o professor.

O clima no Palácio de La Moneda é ainda mais tenso. Segundo altas fontes do governo da presidente Michelle Bachelet, as divergências internas dentro da aliança governista Nova Maioria em relação à Venezuela são cada vez mais profundas. A própria presidente do Partido Socialista, ao qual pertence Bachelet, a senadora Isabel Allende, já referiu-se ao governo Maduro como “uma ditadura militar”.

— A situação de Bachelet é extremamente delicada, mas, até o momento, não imaginamos a presidente seguindo os passos de Macri, sobretudo se o Brasil resistir — apontou a fonte, que pediu para não ser identificada.

Recentemente, o Senado chileno aprovou, por unanimidade, uma resolução repudiando a condenação judicial do líder opositor Leopoldo López. Paralelamente, a Corte Suprema de Justiça, numa decisão polêmica, solicitou à Corte Interamericana de Direitos Humanos da OEA que envie uma missão à Venezuela para comprovar o estado em que estão as dezenas de presos políticos do país.

— Nas últimas semanas, a troca de cartas diplomáticas entre Chile e Venezuela foi intensa — revelou a fonte.

Leia também

Siga o Diário da Manhã no Google Notícias e fique sempre por dentro

edição
do dia

Impresso do dia