Preso na Lava-Jato, ex-diretor da Odebrecht comenta ser ‘boa’ eventual saída de Cardozo
Redação DM
Publicado em 8 de novembro de 2015 às 01:40 | Atualizado há 11 anosSÃO PAULO. A análise das mensagens encontradas no celular do ex-diretor de relações institucionais da Odebrecht, Alexandrino Alencar, mostra que ele desejava que o ministro da Justiça José Eduardo Cardozo deixasse o cargo e que sua família temia sua prisão. O então diretor também discutia diretamente com o Instituto Lula como reagir a reportagens sobre a relação do ex-presidente com a Odebrecht.
O laudo foi incluído pela Polícia Federal na tarde de sexta-feira no processo onde a empreiteira é acusada de corrupção relacionada a contratos obtidos na Petrobras. Citado por três delatores da Lava-Jato como responsável pelo pagamento de propinas em nome da Odebrecht, Alexandrino ficou preso por quatro meses no Complexo Médico Penal, em Pinhais, na região metropolitana de Curitiba, e libertado em outubro. Ele nega as acusações.
Em 15 de fevereiro, um amigo de Alexandrino escreveu a ele que o ex-ministro do STF Joaquim Barbosa havia pedido a saída de Cardozo do ministério, pelo fato do ministro petista ter recebido em audiência advogados da Odebrecht, em Brasília.
“Que bom”, respondeu Alencar por texto. O interlocutor respondeu com risadas.
Perguntada, neste domingo, se a opinião de Alexandrino sobre Cardozo, era pessoal ou da empresa, a Odebrecht informou “desconhecer o teor e o contexto desta troca de mensagens” e que, por isso, não poderia se posicionar.
Mensagens trocadas em maio com uma filha mostram que a família de Alexandrino temia que ele fosse preso pela Polícia Federal. Logo depois da realização de duas operações da Lava-Jato, em abril, ao perceber que não era alvo, ele tranquilizou a família.
“Acabei de ver que está tendo outra operação da PF. Tá tudo tranquilo aí?”, perguntou a filha, recebendo resposta positiva do pai.
“SANGUE FRIO E ELEGÂNCIA”
Os textos apreendidos no telefone do então diretor evidenciam, ainda, que ele era avisado pelo assessor de imprensa do Instituto Lula, José Chrispiniano, sobre matérias que estavam sendo produzidas sobre a relação do ex-presidente com a Odebrecht. O assessor sugeria o tom das repostas da Odebrecht a reportagens e debatia com Alexandrino estratégias de reação.
Em 12 de abril deste ano, o GLOBO mostrou que Alexandrino acompanhou Lula em périplo por três países em viagem financiada pela Odebrecht, para realizar uma palestra e compromissos que não tinham relação com as atividades da empresa. A mesma matéria revelou que Alexandrino mantinha contatos telefônicos com Alberto Youssef, operador de lavagem de dinheiro e pagamento de propina para a Odebrecht.
Cinco dias antes da publicação da reportagem, minutos depois de ser procurado pelo GLOBO para esclarecer o relacionamento de Lula com Alexandrino, o assessor avisou o diretor da construtora sobre a reportagem.
“O GLOBO está atrás de você também. Viagem de Cuba. 2013. Abraço. Sabem que você estava lá”, escreveu.
Depois que a matéria foi publicada, o assessor de Lula escreveu a Alexandrino que gostaria de ver a “proposta de resposta” da Odebrecht à matéria, antes da divulgação pela empresa.
“Eu iria, com sangue frio e elegância, na jugular da matéria – título e lead, e desdobrando as mentiras dela”, escreveu o assessor, que pediu ajuda ao diretor da Odebrecht para fazer a nota “circular na internet”.
Os dois também conversam sobre reportagem da revista “Época”, publicada nas semanas seguintes, noticiando a abertura de investigação pelo Ministério Público Federal sobre a suspeita de tráfico influência de Lula em nome da Odebrecht.
“Mandei no seu e-mail nossa reposta”, escreveu o assessor a Alexandrino, dias antes da publicação da matéria.
“Gostei muito, parabéns”, respondeu o diretor investigado.
“REAÇÃO MUITO FORTE E DURA”
Depois que o texto saiu, o assessor de Lula reclamou do texto publicado pela revista.
“Se deixarem essa loucura crescer, acaba qualquer crédito à exportação. Vocês, as associações, têm que ir pra cima”, escreveu Chrispiniano.
“Tem que ter reação muito forte e dura. Muito”, reforçou o assessor.
“Vai ter”, respondeu Alexandrino.
Em mensagens posteriores, no dia 2 de maio, Chrispiniano reclama da publicação de repercussão da investigação do MPF no jornal “The New York Times” e na “TV Record”.
“Não vamos deixar barato”, afirma o assessor do Instituto, que diz trabalhar para evitar que o “The Wall Street Journal” publicasse textos sobre o tema.
“Dá pra segurar WSJ (referência ao ‘The Wall Street’) e Bloomberg?”, escreveu Alexandrino ao assessor de Lula.
“Acho que só WSJ”, recebeu como resposta. Dois meses depois, com a confirmação da investigação sobre o ex-presidente, o “The Wall Street Journal” acabaria publicando matéria sobre o tema.
Por meio de nota, a assessoria de imprensa da Odebrecht informou que “a defesa de Alexandrino Alencar lamenta o vazamento de diálogos de cunho estritamente pessoal”, que no entendimento dos advogados, “nada têm a ver com a investigação em curso pelo MPF”.