Quando a pornografia atrapalha sua vida
Redação DM
Publicado em 13 de outubro de 2016 às 01:26 | Atualizado há 2 anosJá teve um tempo em que se pornografia não era religião, ao menos se misturava com as práticas voltadas aos deuses. Os gregos, por exemplo, pintavam peças fálicas e distribuíam imagens em procissões e locais de adoração. Há 2500 anos, portanto, Atenas compreendia a pornografia como algo cultural e natural. Apesar de se prestar ao mesmo estímulo dos sentidos, ela evoluiu também para obter centralidade em seus encontros públicos.
Mas tempos depois o mundo é outro e o excesso de bens de consumo visual, a explosão dos cenários eróticos e os sex shops tornaram a pornografia manifestações sensoriais reservadas – onde cada um exerce sua moral de acordo com convicções éticas e sociais.
No espaço público, o assunto é mais do que tabu: fazer ou facilitar a demonstração de ato obsceno é, na verdade, crime. E para a prática de obscenidade em lugar público, aberto ou exposto ao público a pena é de detenção e pode chegar a um ano.
Geralmente, cabe ao juiz decidir no que consiste o ato obsceno – mas quase sempre ele envolve pornografia ou a prática sexual em si. Mas não é raro os magistrados ficarem em eternos diálogos debatendo o que é ou não pornografia.
O que não suscita dúvidas é quando a pessoa abusa da pornografia comum, visível e que se revela nos meios de comunicação como a internet. A representação de cenas e objetos obscenos destinados a serem apresentados a um público e também a expor práticas sexuais diversas, com a intenção de despertar desejo sexual no observador, é tão comum que chega a passar despercebida.
Mistura das palavras “prostituta” e “representação”, a pornografia desperta os sentidos. E seu abuso tem colocado a família, os relacionamentos e até a produtividade a perder.
Em 2013, um agente administrativo da Companhia Riograndense de Saneamento (Corsan) foi demitido por justa causa após acessar, em dois dias, 867 sites não associados à sua atividade de trabalho. O caso levou a uma discussão moral: se é ou não justa a causa da demissão. Em caso positivo, o funcionário perderia férias e décimo terceiro salário proporcionais. A Sexta Turma do Tribunal Superior do Trabalho, que reformou decisão em sentido contrário do Tribunal Regional do Trabalho da 4ª Região (RS), reafirmou o entendimento fixado na Súmula 171 e na Lei nº 4.090/62, que restringem o pagamento à dispensa imotivada, ou sem justa causa.
Assessor parlamentar e especialista em estudos sobre pornografia infantil, o advogado Antônio Moura de Mesquita afirma ao DM que inúmeras decisões têm “formado um corpo de jurisprudência para combater a pornografia no ambiente de trabalho”. Para ele, parece óbvio que o funcionário deve respeitar a moral e as regras internas das instituições que colaboram. “O Ministério Público Federal no Rio Grande do Norte condenou um servidor do Ibama por série de irregularidades. Ele realizava a impressão de conteúdo pornográfico”, diz.

Vício ainda não é certo
As linhas mais recentes de pesquisa no cérebro tentam entender se a pornografia vicia. Conforme os especialistas, estima-se que entre 50% e 99% dos homens gostam de acessar material adulto na internet. A situação é tão comum que pesquisadores têm dificuldades para encontrar homens que jamais acessaram pornografia e que possam participar de pesquisas.
A mesma pesquisa indica uma taxa de 30% a 86% de mulheres para o mesmo padrão de comportamento. Conforme os pesquisadores, a pornografia agiria para liberar a dopamina, um neurotransmissor que atua no sistema de recompensa das pessoas. Quanto mais se vê pornografia, mais se produz dopamina entre os neurônios. Mas a hipótese é ainda uma incógnita quanto aos mecanismos de repetição e propriamente vício.
Os religiosos, aliás, nem falam em vício, mas quando a prática passa a prejudicar o próprio relacionamento, colocando em risco famílias. “Temos falado frequentemente com pessoas que frequentam a igreja, que chegam aqui e falam abertamente sobre isso. Veja bem, quando a pessoa passa a ter dificuldade em se excitar com a parceira, tem dificuldades para atingir o clímax sexual, sente menos prazer com o sexo e acessa em qualquer lugar, temos aqui um problema. Encaminhamos para um psicólogo ou acompanhamento médico. E aviso: é mais comum do que se pensa”, diz o pastor Urias Costa de Farias, que atua na Assembleia de Deus, em Goiânia. Para ele, a obscenidade é o maior problema, pois torna-se visual e assusta quem acompanha o drama do consumidor de pornografia. “Todavia, para o viciado é algo grave: a incapacidade de ser normal é algo terrível. Daí que saber reduzir a zero este consumo é o ideal”.