Cotidiano

Quem não arrisca não se realiza

Redação DM

Publicado em 10 de dezembro de 2016 às 23:54 | Atualizado há 10 anos

Conseguir espaço firme no mercado de trabalho não é processo simples, requer anos de estudo e dedicação. Por isso, “jogar fora” quatro anos de faculdade para se dedicar a outra área em busca da tão sonhada realização profissional é escolha considerada ousada ou até mesmo utópica para muitos que se arrependem do caminho profissional trilhado até então. Assim, o medo de fracassar, aliado à crise econômica a nível nacional e aos altos níveis de desemprego no país, podem acabar impedindo que novos caminhos sejam buscados.

Apesar do cenário assustador, Cintia Zago, 26, mudou o rumo de sua vida profissional. Com dois diplomas universitários e um MBA, falando fluentemente três idiomas e com meio caminho andado rumo à profissão de diplomata, Cintia decidiu que essa não era a carreira que realmente queria e abandonou tudo para abrir uma empresa de chocolates artesanais.

“Sou formada em Relações Internacionais na PUC-GO, Letras na UFG e MBA em Marketing. Meu foco era Relações Internacionais. Achava que ser diplomata era o melhor que eu poderia ser, me encantava com o salário, cargos renomados e a capacidade de estar sempre viajando para o exterior. Fiz a faculdade de letras justamente para me ajudar com o processo seletivo”, relembra ela.

Mas Cintia conta que decidiu que não queria ser diplomata quando percebeu que o cargo exigiria que ela fosse alguém diferente de quem realmente era. “Esse cargo precisaria que eu não tivesse opinião, pois estaria sempre representando os interesses de uma nação, e não os meus. Enquanto isso, eu uma pessoa altamente alegre e espontânea. No trabalho, eu teria que ser uma pessoa diferente de quem eu sou. Eu sei que tem muita gente que é uma pessoa dentro do trabalho e outra na vida real. Mas eu podia escolher. Daí procurei por emprego e arranjei um em uma Multinacional”, conta.

Nessa empresa, onde trabalhou por mais de um ano, ela percebeu que seu coração batia mais forte pela área de Marketing. Então ela se mudou para São Paulo, conseguiu emprego na área e fez o MBA. “Dentro do MBA, aprendemos inúmeros assuntos vinculados ao marketing. Um deles foi sobre empreendedorismo. Eu fiquei inquieta nessa aula. Eu quase podia me escutar falando: “é isso o que quero fazer”. Eu quero criar algo do zero. Assim eu daria asas para o meu lado criativo se satisfazer. Eu queria trabalhar em algo que fizesse sentido pra mim. Queria sentir que eu estava proporcionando algo positivo para as pessoas enquanto a empresa me moldava em uma pessoa melhor”, define ela.

Grandes anseios

Cintia explica que decidiu de vez mudar o rumo de sua vida profissional depois de perceber que o emprego anterior teria um campo de crescimento pequeno perto do que ela ansiava. Além disso, no tempo em que gastou para se organizar e planejar o funcionamento de sua empresa, ela juntou uma quantidade razoável de dinheiro para dar suporte no início do seu empreendimento. Ela permaneceu dois anos conciliando o trabalho na empresa com o seu projeto, para servir como um teste e como pesquisa de mercado para seu empreendimento.

Ela define como libertadora a experiência de finalmente pedir demissão no emprego antigo com o intuito de se dedicar totalmente à sua empresa. “Eu me sinto totalmente realizada agora. A Chocolates da Sorte, desde que era apenas uma semente de ideia, tem me trazido muito aprendizado e autoconhecimento. É a maior riqueza que eu poderia ter pedido. Me sinto uma pessoa melhor agora”, afirma.

O caminho, entretanto, não foi fácil, e ela precisou superar obstáculos desafiadores para manter sua empresa. “Como criei uma empresa a partir do zero (não comprei uma empresa já pronta e nem uma franquia), minha criatividade foi exercitada e aflorada. Tive que lidar com todos os medos de um empreendedor iniciante: de ter o produto rejeitado, de estar tomando as decisões erradas, medo de dar certo, medo de dar errado, medo do amanhã. E isso tem me fortalecido, e me ensinado bastante sobre o mundo de negócios”, define ela.

Perguntada se alcançou o objetivo de proporcionar algo positivo para as pessoas, Cintia respondeu: “Todos os meus doces possuem uma mensagem da sorte, de inspiração e motivação, e todos eles proporcionam um bem estar (mais calma, mais coragem, melhor auto estima). E isso tem saciado a minha sede de fazer algo que faça sentido com a minha vida profissional. De contribuir, com minhas mãos, para um mundo melhor, mais positivo e de testar todos esses benefícios comigo antes (risos)”.

A chocolatier contou ainda que já recebeu duas ótimas propostas de trabalho, desde que ficou exclusiva com a Chocolates da Sorte, mas não sairia de sua empresa para voltar ao mercado de trabalho.

Caminho de autoconhecimento

Sam Cyrous, psicólogo da clínica  me – Instituto de Psicologia e Saúde e consultor organizacional, explica que há um fenômeno na psicologia chamado “dissonância cognitiva” que prevê que os indivíduos que decidem algo, dificilmente mudam depois de opinião, e encontram explicações mais estranhas para racionalizar e justificar essas escolhas aparentemente equivocadas.

“Por exemplo: alguém que é bom com palavras, com a escrita, mas decide por ser médico, ou físico, é possível que não seja muito feliz profissionalmente. O mais acertado deveria talvez ter escolhido filosofia, jornalismo ou letras. Então a pessoa procura um raciocínio para justificar porque escolheu uma área diferente da que tem aptidão. O desafio que as pessoas enfrentam atualmente no mundo profissional é o de conhecer as suas aptidões, habilidades e competências (que é o que elas sabem fazer), suas motivações (que são os seus gostos) e os seus interesses vocacionais, para então decidir uma profissão que seja coerente com isso”, considera ele.

Mas muitas vezes isso não acontece e o psicólogo alerta para o risco de as pessoas acabarem se frustrando na escolha profissional que fazem. E esse, segundo ele, é o momento da escolha, no qual a pessoa percebe que talvez devesse mudar de caminho profissional, ou poder vir a passar a vida frustrada por não ter feito isso.

Ele explica que essa incoerência pode causar uma frustração interna no indivíduo ao longo do tempo. “É preciso que as pessoas descubram um trabalho que seja significativo para elas, que faça sentido em sua existência, pois atuar em algo que não condiz com elas mesmas pode levá-las a desperdiçar energia e consequentemente tempo, não sejam tão produtivas como poderiam ser e esse processo pode acarretar em doenças psicológicas como depressão e stress. Isso impede os indivíduos de fazerem um bom trabalho, pois o descontentamento se torna frustração existencial, a frustração existencial se torna stress, o stress acarreta em um rendimento mais baixo e por aí vai”, descreve ele.

Assim, Sam explica que trocar de carreira pode ser, muitas vezes, uma decisão sábia. Ele, entretanto, não defende que seja uma decisão fácil. “Esse pode ser um processo doloroso e que não atinge só a pessoa que decide mudar de carreira. Mas se for uma decisão bem pensada e refletida, e se houver acompanhamento de um profissional de qualquer área que domine temas laborais e vocacionais, o indivíduo pode tomar as decisões mais sábias para a sua vida”, defende.

Para concluir, o psicólogo dá uma recomendação: “Pesquise processos de autoconhecimento que tracem seu perfil de aptidões (o que você sabe fazer), de motivações (o que você gosta de fazer) e que tracem seu perfil de interesses (onde você quer chegar). Com base nesses três elementos, e com o acompanhamento profissional, é possível escolher uma profissão que se relacione de verdade com você”, conclui ele.

 

Eu queria trabalhar em algo que fizesse sentido pra mim. Queria sentir que eu estava proporcionando algo positivo para as pessoas enquanto a empresa me moldava em uma pessoa melhor”

Cintia Zago, chocolatier

 

 

7 dicas para mudar de carreira sem medo

Fim de ano é época de fazer planos e de várias mudanças. Muitos aproveitam a época de esperanças para mudar de emprego. Mas você sabe como fazer isso sem manchar a sua imagem? Confira as sete dicas para mudar de carreira sem medo e ser mais feliz:

 

1) Amadureça a ideia: Converse com familiares e amigos para saber a opinião deles. Pesquise sobre a função desejada e as chances no mercado de trabalho. Enfim, amadureça a ideia. Antes de se arriscar numa nova carreira, saiba tudo o que puder sobre ela e procure apoio com pessoas próximas. Com certeza eles darão a maior força para você se estabilizar no seu emprego dos sonhos e ser muito feliz.

 

2) A raiz do problema: Descubra o motivo da desmotivação na atual função. Um colaborador insatisfeito tem queda na produtividade, e este é um sinal de que algo não vai bem. Trabalhar numa função que desagrada traz, além da insatisfação, abalos psicológicos, irritação, desatenção e até sintomas físicos, como fadiga.

 

3) Analise o problema: Você está realmente insatisfeito com sua atual função, ou com uma tarefa em específico? Analise bem antes de querer mudar de profissão. Às vezes uma mudança de setor já fará muito bem para você.

 

4) Encontre prazer: Descoberta a raiz do problema, é hora de se dedicar ao que realmente dá prazer. Prepare-se: faça cursos, participe de palestras, faça testes vocacionais e converse com pessoas da área. Atualize-se e pesquise! Esse já é o primeiro passo para o sucesso.

5) O mercado de trabalho da nova carreira: Pesquise sobre o novo mercado de trabalho, o quanto promissor pode ser, o que os economistas falam das principais empresas que estão contratando, a concorrência e etc.

 

6) O novo currículo: Quando não há experiência, destaque o seu diferencial. O que você faz ou fez que é importante na nova carreira. Trabalhos anteriores podem ser incluídos, desde que acrescentem à nova profissão e sejam destaques como diferencial. Isso te colocará na frente de muitos candidatos.

 

7) Mudanças internas: Você verificou que o que incomoda é uma função em específico? Peça remanejamento sem medo e continue exercendo sua função feliz. Se não, verifique se um processo interno pode acrescentar algo na sua experiência, talvez a sua vaga na nova carreira esteja dentro da empresa que você trabalha. Lembre-se: empresas dão preferência para profissionais internos, depois externos.edo

 

 

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