Sequestrado na ditadura argentina renova esperanças de outras famílias
Redação DM
Publicado em 2 de dezembro de 2015 às 05:05 | Atualizado há 11 anosRIO – “Quando Mario abraçou a mãe, parecia que nunca mais iria largá-la.” Assim observou de perto Manuel Gonçalves, neto das Avós da Praça de Maio presente ao encontro. A reunião de Mario Bravo ontem com Sara foi um momento histórico para uma geração argentina que vive em busca da reconciliação depois de ter tido seus pais mortos em centros de tortura e extermínio na ditadura militar de 1976 a 1983. Ao contrário da maioria, ele encontrou a mãe viva. Seu pai, no entanto, ainda consta como desaparecido.
— Agora tenho seis irmãos e sobrinhos, e muito gasto para o Natal. Tudo o que vier será lindo — disse em entrevista coletiva ontem o recém-descoberto “neto”, com a mulher e as representantes da organização. — Choramos muito. Foram anos de buscas. Temos que aproveitar a vida que temos pela frente. Agora temos que ser positivos, pensar adiante. O que aconteceu foi muito feio, mas já passou.
Sara foi sequestrada em julho de 1975 por militares que se articulavam para dar o golpe que derrubaria a presidente María Estela Perón, a Isabelita — e mergulharia o país em sete anos de ditadura —, quando voltava do trabalho de madrugada. Era acusada de integrar uma organização clandestina de esquerda. Deu à luz em 1976, meses antes de ser solta. Tudo o que ouviu nos poucos segundos com o filho, vendada, foi o choro do bebê, sem saber se ele era menino ou menina — por um palpite correto, sempre imaginou como ele seria enquanto homem adulto.
Mas temia que a busca pelo filho lhe custasse a vida ou a de suas outras duas filhas. Trinta anos depois, procurou a Secretaria de Direitos Humanos para ter seu DNA incluído num banco de dados. E quase uma década depois recebeu um telefonema dizendo que seu filho havia sido achado.
— Estas coisas não acontecem por milagre, magia, mas sim porque há um povo argentino que abre caminhos que assombram o mundo todo — disse Estela de Carlotto, líder do grupo. — Sara me disse: “Ele nunca mais vai se separar de mim.”
Na comemoração, a mãe preferiu não participar da coletiva, apenas passar tempo com Mario.
— Preferimos deixá-la ficar a sós com Mario, aproveitando para finalmente conhecer o filho. Esta história é um estímulo para todos aqueles que continuamos buscando — contou ao GLOBO Manuel, que foi descoberto em 1995 após ser roubado e ter os pais assassinados pelo regime. — Este abraço que parecia não ter fim nos dá enorme força e renova nossas energias.
Desde jovem, Mario desconfiava que não era filho biológico de sua família. Parentes sabiam que ele era adotado, mas não contavam igualmente por medo de represálias. Segundo Mario, seus pais foram enganados ao adotá-lo (“Tinham perdido uma filha antes, e no interior, poucos sabiam o que acontecia”). Em 2007, ele levou a busca adiante, esperando até ser contatado por Manuel.
Os sobrinhos biológicos já haviam criado um grupo no aplicativo de mensagens WhatsApp chamado “Bem-vindo, tio Mario’”, tudo para recepcioná-lo. De Las Rosas, em Santa Fé, Mario percorreu 900 quilômetros de ônibus para conhecer a mãe. Mas ainda não sabe se mudará de sobrenome. A identidade do pai não foi informada.
— O encontro foi muito lindo e emotivo. Tenho a sorte de ter encontrado minha mãe com vida, e isso é um milagre para mim. É muito emocionante. Quando você encontra sua mãe, vê todo um filme da vida em preto e branco passando. Você se lembra de quando era pequeno, de como foi criado e como alguém te buscou — disse, em lágrimas, agradecendo à organização.
Dos 119 netos dos mais de 500 centros de tortura e extermínio achados pelas Avós e pelo Estado argentino, Mario é apenas o quinto cuja mãe sobreviveu aos porões do terror. De 1976 a 1983, outras dezenas de milhares de ativistas, sindicalistas, estudantes e até empresários viveram o inferno — sequestrados, torturados, mortos ou ameaçados de morte. Em 2012, a 107ª neta encontrada também tinha a mãe viva, assim como prisioneiras uruguaias na Argentina.
‘Que não haja retrocesso’
Manuel e Mario souberam do resultado em 19 de novembro, mas o grupo decidiu adiar a revelação para não influenciar politicamente o segundo turno das eleições presidenciais.
A organização se diz “extremamente contente”porque a revelação “é uma vitória não só política, mas dos direitos humanos e do povo argentino”.
— Não fomos procurados ainda por Mauricio Macri (presidente eleito) sobre a luta pela memória, mas o que queremos garantir é que não haja retrocesso — disse Manuel. — As Avós começaram a buscar seus netos na ditadura e hoje eles estão crescidos. Nós nos sentimos muito afortunados em contribuir. Mario é a história de muitos outros que ainda temos que achar. Espero que possamos continuar esta briga para que estas pessoas vivam uma vida plena, longe das mentiras que a ditadura plantou.