Cotidiano

Setor Central reage frente ao abandono

Redação DM

Publicado em 7 de agosto de 2015 às 01:57 | Atualizado há 2 anos

Divania Rodrigues,Da editoria de Cidades

O Setor Central foi invadido por uma onda de projetos que tentam trazer vitalidade ao local que é descrito por moradores e visitantes como abandonado. Influenciado em parte pela antiga cidade francesa Versalhes, a Goiânia projetada por Atílio Corrêa Lima é reconhecida pelo patrimônio de prédios em art déco. Planejada em 1933, a cidade e seu cerne inicial passaram por intensas transformações nas décadas seguintes.

Durante muito tempo o setor central manteve parte de seu dinamismo e de sua importância funcional. Maria Ester de Souza, 49, vice-presidente do Conselho de Arquitetura e Urbanismo de Goiás (CAU/GO), reside no centro há 20 anos e relembra com entusiasmo de quando o local ainda sustentava o esplendor de variados cinemas e do Teatro Goiânia. “Os cinemas do centro, antes dos shoppings, eram o espaço de lazer. Existiam restaurantes e teatros e um conjunto maior de atividades. Saíamos do teatro e íamos na pizzaria”, conta.

Para ela, que é arquiteta com mestrado em Geografia e doutoranda em Geografia Urbana, atualmente o local tem atividades de lazer, mas ainda de forma isolada, o que inviabiliza uma volta ao esplendor de outros tempos. Como profissional, Maria Ester explica que os projetos voltados ao setor não podem ser chamados de revitalizadores ou reurbanizadores, pois Goiânia não passou por um processo de esvaziamento de grande parcela de seu centro, como São Paulo ou Salvador em que se observam edifícios destruídos pelo abandono e ruas tomadas por usuários de drogas.

Ela esclarece que o esvaziamento do centro é comum e acontece lentamente com o crescimento das pequenas cidades por meio dos grandes loteamentos ao redor do aglomerado urbano inicial. Nas cidades grandes e mais antigas em que houve esse empobrecimento paisagístico e social, o movimento tem sido inverso. “Há uma pressão muito grande nos governos para que resolvam o problema que está no centro”, explica.

História

Também formada em arquitetura e integrante da equipe de planejamento urbano da escola de artes e arquitetura, da Pontifícia Universidade Católica de Goiás, a pesquisadora Maria Diva Araújo Coelho Vaz, 60, pondera que o centro de Goiânia tem importância histórica inegável, como núcleo inicial da cidade. Para ela, sua importância funcional também é relevante, por ser reduto movimentado do setor mercantil e de serviços, além de ponto de confluência do transporte público coletivo.

Projetos em andamento podem recuperar setor

Nelcivone Soares de Mello, presidente da Agência Municipal de Meio Ambiente (Amma), diz que o setor central não está abandonado. Os dois grandes projetos com recursos para serem executados são os de requalificação da Praça Cívica, já em andamento, e o de restauração da Estação Ferroviária. Os dois projetos foram apresentados ao Ministério do Planejamento e foram contemplados pelo PAC Cidades Históricas – programa do governo federal para preservar o patrimônio histórico e valorizar a cultura brasileira.

O presidente da Amma explica que esses projetos conseguiram a soma de R$ 22,5 milhões para ser realizados, mas que muitos outros esbarram na falta de recursos financeiros. Também lembrou que o corredor da Avenida T-7 está em plena execução e que este impacta também o setor central. A pretensão é promover a requalificação da via e implantar um corredor exclusivo para transporte coletivo, além de ciclovia, ciclorrotas e ciclofaixas.

Praça Cívica

Para Maria Diva Araújo Coelho Vaz, da equipe de planejamento urbano da escola de artes e arquitetura da PUC, a intervenção na Praça Cívica é importante para reconquistar o espaço antes tomado pelo estacionamento de veículos. Mas alerta que a requalificação precisa ser pensada globalmente, incluindo fiscalização. “Porque fazem a intervenção, mas se deixam sem conservação adequada [o espaço] vai se degradando novamente sem se romper esse ciclo”, explica.

Para arquiteta Maria Ester de Souza, frequentadora antiga do local, era necessária a intervenção, porém vê problemas no projeto. “Eu brinquei nas fontes que tinha na praça Cívica, mas não tem a menor intenção de reviver aquilo. Reformar é o que eles estão fazendo”. Para ela é necessário que o projeto contemple a preservação do patrimônio e a memória afetiva do local.

Cultura

Ivanor Florêncio, secretário municipal de cultura, esclareceu à reportagem que o Centro é uma preocupação da administração e que projetos em andamento na área cultural não faltam. Ele informa que os becos do centro foram ocupados por grafites e sempre há programações que envolvem batalha de MCs e eventos de Hip Hop. Também mencionou que o Grande Hotel dispõe de biblioteca aberta ao público e de cursos de teatro e dança oferecidos a população, assim como o Cine Ouro e o Mercado da Rua 74 que apresentam programação diária.

O secretário também destaca que na última segunda-feira foi lançado o edital para a segunda fase do projeto “Galeria Noturna”, que transformou as portas de comércios da Avenida Goiás em painéis pintados por artistas locais. Outra novidade é a volta do “Chorinho”, evento cultural que reunia toda a sexta-feira cerca de 2 mil pessoas em frente ao Grande Hotel para apreciar MPB, samba e choro. O evento passa a ser realizado na Rua do Lazer a partir de hoje Também no próximo domingo (09), ruas do centro serão fechadas para o trânsito de veículos e darão lugar à atividades culturais diversas, com performances de dança e teatro e exposição de obras de arte pertencentes ao Museu de Artes de Goiânia (MAG). O projeto de incentivo à leitura “Achei um livro” também deixará publicações nos bancos da Avenida Goiás.

Para Ivanor, muitas pessoas têm a sensação de que o centro esteja abandonado por desinformação: “Neste momento [a população] não está acostumada e não sabe da efervescência que vive o centro de Goiânia.” De acordo com o secretário, a ideia é que o centro de Goiânia não fique totalmente abandonado para que depois não seja difícil reocupar.

Bairro passa por envelhecimento

Embora o centro de Goiânia ainda não tenha passado pelo processo de esvaziamento completo, Maria Ester comenta que nenhuma cidade deve viver sem manutenção, mesmo que não precise ser totalmente reformada ou restaurada. “Não sei se já houve esse esvaziamento total do centro. O que ocorre é uma espécie de envelhecimento, de falta de manutenção”, comenta.

Maria Ester ressalta alguns pontos que precisam de cuidados urgentes: reforma das calçadas, fiscalização de ambulantes e readequação das fachadas comerciais. A arquiteta afirma ser difícil andar por algumas calçadas do setor central, principalmente as que estão desniveladas e com buracos: “Já quebrei o pé andando na Rua 3 há algum tempo e passei 40 dias engessada.”

Os ambulantes e comerciantes que colocam mercadorias nas calçadas também dificultam o livre trânsito dos pedestres. Para a arquiteta, projetos que melhorem essa questão são fundamentais. Ela cita como modelo o projeto de 2001 que redesenhou a Avenida Goiás e realocou os ambulantes para as feiras: “[A avenida Goiás] é um lugar muito agradável para andar e se todas as ruas tivessem acompanhado esse projeto o centro seria melhor para se caminhar.”

Maria Diva diz que a administração deveria investir mais na manutenção e qualificação do espaço público para afastar da população o sentimento de que o local está abandonado. “Vai perdendo a importância, vai perdendo vida, ficando sujo e mal cuidado, com calçamento inadequado – com ambulantes e lojistas ocupando esse espaço – e pontos de ônibus em condições precárias”, completa.

Fachadas

Outra discussão a respeito do centro fica por conta das fachadas comerciais que escondem o patrimônio histórico em art decó de edifícios construídos à época da fundação da cidade. A perda com a poluição visual, causada pelas fachadas multicoloridas que cobrem o desenho original dos prédios históricos, é grande de acordo com Maria Ester.

Para ela, muitas vezes os proprietários atuais, por não entenderem a importância do traçado em art decó, acabam encobrindo-o com letreiros. “Isso empobrece a paisagem principalmente no centro. A cada seis metros há um letreiro. E por mais simples que sejam os desenhos, seria mais suave para as pessoas olharem se tivesse descoberto”, afirma.

Para tentar resolver esse problema se discute desde 2012 a regulamentação de letreiros e outdoors. De acordo com o vereador Elias Vaz, autor da proposta, o projeto está em discussões finais e pode ser aprovado em um mês. Ele esclareceu à reportagem que foram feitas várias reuniões com os setores do comércio e indústria, os mais afetados pela lei e que várias sugestões podem ser acolhidas. Dentre elas, maior tempo de transição dos letreiros atuais para os que se adequem à lei e incentivos fiscais para os proprietários que realizarem a mudança em menos tempo.

O presidente da Agência Municipal de Meio Ambiente (Amma), Nelcivone Soares de Mello, esclarece que haverá fiscalização da adequação das propagandas para que não ocultem o patrimônio.

Segurança

Um dos pontos que parece consenso a respeito do centro de Goiânia é a sensação de insegurança. Para Giuliano Junqueira Maia de Mendonça, 39, gerente de uma loja no setor, um dos pontos que o impede de ficar no local depois do horário comercial é a sensação de insegurança: “Não gosto do centro a noite. Têm muitos usuários de drogas e pedintes.”

Também explica que a falta de estacionamento é um problema e que não se sente seguro ao deixar o carro na área azul. De acordo com o tenente coronel Ricardo Mendes, da Polícia Militar, a companhia responsável pela área central tem executado um trabalho de policiamento que apresenta índices de redução nos roubos a comércios e veículos. O índice de homicídios no local também teria tido queda de 52%.

 

 

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