Socialista António Costa é nomeado primeiro-ministro de Portugal
Redação DM
Publicado em 25 de novembro de 2015 às 03:00 | Atualizado há 11 anosRIO — Colocando fim a semanas de impasse, o presidente português, Aníbal Cavaco Silva, nomeou o líder do Partido Socialista (PS), António Costa, como primeiro-ministro. Resistente a uma alternativa que englobasse a esquerda radical, o presidente impôs seis condições antes de encarregar Costa de formar um novo governo, incluindo o cumprimento dos acordos firmados com a União Europeia (UE) para equilibrar as contas públicas do país. As exigências foram corroboradas em carta pelo líder socialista, mas sem a assinatura de seus aliados — Partido Comunista (PCP), Bloco de Esquerda (BE) e os Verdes.
Numa aliança inédita com a extrema-esquerda, os socialistas derrubaram o governo minoritário de centro-direita de Pedro Passos Coelho há duas semanas, prometendo terminar com anos de forte austeridade, aumentar os rendimentos das famílias e ajudar os pobres, que sofreram durante a crise da dívida e o programa de resgate internacional que terminou somente no ano passado.
A agitação política das últimas semanas gerou medo de que uma já frágil recuperação econômica pudesse ser prejudicada, e foi vista por alguns analistas como o momento mais crítico na política portuguesa desde a Revolução dos Cravos, em 1974. Alguns setores temem que possíveis divergências na aliança liderada por Costa possam comprometer o seguimento das regras orçamentárias da UE e colocar Portugal numa rota similar à da Grécia.
O analista Boaventura de Sousa Santos, da Universidade de Coimbra, no entanto, demonstrou não ter dúvidas de que os acordos serão cumpridos e criticou a postura de Silva.
— Obviamente que vão honrar. Isso está escrito na resposta de Costa e sempre foi claro. O que lamento é que o presidente tenha levado tanto tempo para cumprir a Constituição e nomear Costa. Ele deveria tê-lo feito logo após a rejeição da proposta da direita no Parlamento. Ele demorou para tentar dividir o PS. O presidente tem que ter uma postura de Estado e não de partido — disse o especialista ao GLOBO.
Filipa Raimundo, professora de Ciências Políticas do Instituto Universitário de Lisboa, avaliou que os compromissos com a UE poderão ser cumpridos se o cenário econômico for favorável.
— Afinal de contas é um programa que pretende apostar na recuperação salarial e que implica necessariamente mais despesa — pontou ela, acrescentando que o governo socialista não deverá encontrar fortes resistências. — Desde que foi levantada a hipótese de um governo do PS, com apoio do PCP e do BE, o país continuou a se financiar no mercado da dívida pública sem dificuldades. Além disso, o elenco ministerial apresentado não é particularmente à esquerda, o que transmite confiança aos investidores assim como às instituições europeias, que também não se têm revelado preocupadas com a situação política nacional. O próximo orçamento de Estado deverá ser relativamente pacífico.
Antes de ser nomeado, António Costa se reuniu com Silva duas vezes em 24 horas. Os socialistas esperam que o líder seja empossado ainda esta semana, formando o primeiro governo socialista apoiado no Parlamento pela extrema-esquerda.