Cotidiano

Tem piedade, Satã, desta longa miséria

Redação DM

Publicado em 8 de setembro de 2021 às 11:33 | Atualizado há 5 anos

Tem piedade, Satã, desta longa miséria: é assim, com um aforismo do poeta Charles Baudelaire, que o escritor Gabriel Nascente, 71, chama o leitor para uma odisseia em torno da “Ópera dos Ausentes”. Poema-reportagem de fôlego sobre a covid-19 – a obra tem 687 páginas -, os versos burilam a enfermidade instalada no mundo, como se as palavras fossem ganhando vida a partir das agruras do espírito de Nascente em movimentos do pretérito, numa linguagem com ondulações prosaica ou lírica-clássica.

Bié, como o poeta é chamado pelos amigos mais próximos, recebeu no último dia 31 a reportagem do Diário da Manhã na Pinacoteca do Tribunal de Justiça do Estado de Goiás (TJ-GO). E afirmou que ousou criar um estilo de poesia mais focado em questões sociais: “é o que eu chamo de poema-reportagem.” Nascente contou, entre referências a Pablo Neruda e T.S Eliot, que o aparecimento da peste lhe fez a esboçar aquilo que se pretendia ser um poema-crônica sobre a pior moléstia desde a Gripe Espanhola.

Mas à medida que os dias foram se sucedendo, o poeta percebeu que havia a necessidade de aprofundar-se “na temática dessa tragédia universal que eu imaginei inspirada no pandemônio da pandemia”. “Eu nunca saberei elucidar a eminência desta catástrofe, nem o uivo horripilante das ambulâncias despedaçando a inocência das madrugadas. Eu o fiz acompanhando o hematoma dos acontecimentos e a enxurrada das mortes arrancando pedaços de luz”, explica Nascente, na apresentação da obra.

É o que fica explícito, por exemplo, nos versos “amanheço martelando meus dedos/ na solidão mecânica das letras,/ e detonando perguntas/ aos dicionários.” Também, pudera: a pandemia enclausurou a humanidade em seus cubículos, sem amigos, desprovidos de penetrar o universo do outro pela janela da alma, os olhos. Ou seja, ao dar uma volta no “lívido véu do amanhecer” assistimos um tumulto balouçando no ar.

“Povo é a soma de defuntos/ tombados pela Covid-19,/ sem direito à lápides/ ou velas e velórios,/ exéquias de prantos”, anota Nascente. No meio de “A Ópera dos Ausentes”, há uma imagem surrealista, a qual o poeta antecipou a este repórter em janeiro deste ano, em uma entrevista sobre o livro: é um casamento imagético e textual em que se retrata a temática da dor, com astros se irritando e buscando ajuda nas nuvens e elas, frágeis, começam a chorar. Foi daí, aliás, que nasceu o título da obra.

“A Ópera dos Ausentes”, de fato, resume o esforço de Gabriel Nascente a ingressar na Academia Brasileira de Letras (ABL), o que seria o coroamento de um estilista das palavras elogiado por nomes como Ivan Junqueira, Ferreira Gullar, Olga Savary, Carlos Drummond de Andrade e Carlos Nejar. De Nejar, inclusive, Nascente che gou a ser agraciado com o poema “Gabriel Nascente de Goiás”: “é um poeta em estado fonético.” Drummond, porém, foi mais enfático: “sua poesia continua viva e atuante, e testemunho disto é “Pastoral”, que recebi há pouco.”

PORTAS DE PÚRPURA

Nascido em 23 de janeiro de 1950, Gabriel José Nascente chegou ao mundo pelas portas de púrpura do crepúsculo. “Após o parto, minha mãe pediu marmelada”, recordou-se o poeta. Ele dedica-se à poesia há 55 anos, e é um dos nomes que mais colecionam premiações, como o da Academia Brasileira de Letras e o Cruz e Sousa de Literatura, de Santa Catarina. Também chegou a ser finalista do Prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro, de São Paulo – uma das mais tradicionais do país.

Alerta diante da vida, como definiu Carlos Drummond de Andrade, Nascente recebeu elogios do Vaticano e de Cuba, além de ter sua obra traduzida para o espanhol, francês, inglês, romeno, russo, grego e italiano. Aos 16, sozinho, embarcou para o Rio de Janeiro, apresentando “Os Gatos” ao editor da Civilização Brasileira, Moacyr Félix. No Rio, enquanto bebericava um café em Copacabana, viu o poeta Manoel Bandeira. E esteve pessoalmente com Drummond numa reunião no apartamento de Plínio Doyle.

Jornalista com passagem por grandes veículos de comunicação do Brasil, entrevistou algumas das principais celebridades da vida cultural brasileira do século 20. Para escapar do xilindró durante os anos de chumbo da ditadura civil-militar brasileira, fugiu na clandestinidade para Buenos Aires, capital argentina. Nesta época, conheceu o líder histórico do Partido Comunista do Brasil, Luís Carlos Prestes, com quem chegara a agendar uma entrevista, no apartamento do arquiteto Oscar Niemayer, no Rio.

Em Goiás, comandou o Suplemento Literário (LEIA) deste Diário da Manhã, uma das iniciativas goianas mais importantes para fomentar produção literária na década de 1980. Por mais de 15 anos, assinou uma coluna de crônicas no jornal O Popular. E, quando esteve na cidade de São Paulo, foi “foca” (jargão utilizado na profissão para se referir a jovens jornalistas) na Redação da Folha de S. Paulo, época em que selou amizade com o poeta Menotti Del Picchia e fora revisor na Livraria Martins Editora.

Gabriel Nascente, definitivamente, consolida-se como um poeta das metáforas da fragilidade da existência humana, tradição na qual se encontra semelhança nos cânticos de Federico Garcia Lorca. Por isso e muito mais, “A Ópera dos Ausentes” figura – pouco depois de ser gestada e parida – como um importante documento histórico sobre o maior desastre sanitário de nossas gerações.

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