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Transtorno bipolar: um mistério para a sociedade

Especialista explica sobre o diagnóstico e importância de abordagens terapêuticas

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No dia do aniversário do icônico pintor Vincent Van Gogh, 30 de março, o mundo se une em uma reflexão importante sobre os transtornos bipolares, uma condição da qual Van Gogh foi diagnosticado, postumamente, como provável portador. Van Gogh é um dos artistas mais influentes da história da arte moderna, conhecido por suas obras emocionais e expressivas. Suas pinturas são famosas pela vibrante paleta de cores e pinceladas distintas, que refletem sua própria turbulência emocional e visão única do mundo.

Entre suas obras mais importantes estão "Noite Estrelada", uma representação poderosa do céu noturno sobre Saint-Rémy-de-Provence, na França, que captura a tumultuada mente do artista. "Girassóis" é outra série famosa de Van Gogh, que retrata a beleza simples e a energia vital das flores em uma explosão de cores vivas. É amplamente discutido se alguns de seus trabalhos mais famosos foram criados durante episódios de surto.

Esta celebração não é apenas uma homenagem a Van Gogh, mas também uma chamada à ação global para combater o estigma e aumentar a conscientização sobre os desafios enfrentados por aqueles que vivem com transtorno bipolar. Desde pacientes e profissionais de saúde até familiares e comunidades, todos são afetados de alguma forma por essa condição complexa. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 140 milhões de pessoas lutam com esse transtorno em todo o mundo.

Apesar dos avanços científicos, a causa exata do transtorno bipolar ainda permanece um mistério. No entanto, estudos sugerem que mudanças no cérebro e nos neurotransmissores podem ser a chave para este desequilíbrio, muitas vezes de base genética que resulta em uma montanha-russa emocional, alternando entre episódios depressivos e momentos de euforia intensa, o que desafia tanto aqueles que vivem com a condição quanto aqueles que os cercam.

Para entender melhor os desafios desta doença o Diário da Manhã conversou com o psicanalista e pesquisador Jorge Cordeiro, conhecido por seu trabalho no Projeto de Escuta Coletiva "Psicanálise na Praça”.

Para ele, o transtorno bipolar é uma condição mental complexa, reconhecida como transtornos bipolares e relacionados na literatura médica. Caracteriza-se por episódios de humor variáveis, incluindo períodos de mania e depressão.


		Transtorno bipolar: um mistério para a sociedade


Entendendo o Transtorno Bipolar

Existem basicamente três tipos principais de transtorno bipolar:

Transtorno Bipolar I: Caracterizado por episódios maníacos graves que podem incluir sintomas depressivos graves.

Transtorno Bipolar II: Envolvem episódios depressivos graves alternados com episódios de hipomania, menos intensos que os da Bipolar I.

Transtorno Ciclotímico: Caracterizado por oscilações de humor menos intensas, mas persistentes, que envolvem episódios hipomaníacos e depressivos leves.

Sintomas e Impactos

Os sintomas do transtorno bipolar podem variar, mas geralmente incluem períodos de mania, hipomania e depressão. Durante episódios de mania, a pessoa pode experimentar euforia excessiva, aumento da energia e comportamento impulsivo. Já durante os episódios depressivos, sintomas como tristeza profunda, falta de energia e pensamentos suicidas podem ser prevalentes.

Um Olhar Histórico e Cultural

Ao longo da história, o transtorno bipolar foi observado em várias figuras notáveis, incluindo o filósofo grego Sócrates e o poeta romano Catulo. No século XIX, o psiquiatra alemão Emil Kraepelin desempenhou um papel importante na descrição da doença maníaco-depressiva, que mais tarde veio a ser conhecida como transtorno bipolar.

Celebridades Brasileiras e o Transtorno Bipolar

No Brasil, várias figuras importantes foram associadas ao transtorno bipolar, incluindo Júlio Delamare, Renato Russo, Heitor Villa-Lobos, Bernardo Carvalho e Maria Rita Kehl. Suas histórias destacam como o transtorno bipolar pode afetar pessoas em todos os aspectos da vida, incluindo artistas, líderes políticos e figuras públicas.

A Importância do Diagnóstico Adequado

O psicanalista e pesquisador Jorge Cordeiro, conhecido por seu trabalho no Projeto de Escuta Coletiva "Psicanálise na Praça", enfatiza a complexidade do transtorno bipolar e a necessidade de abordagens específicas de tratamento para cada indivíduo. Cordeiro adverte contra a busca desenfreada por diagnósticos na internet e a autodiagnóstico, destacando os perigos de um diagnóstico impreciso que pode levar a uma vida inteira de sofrimento.

Ele ressalta que “atualmente existe uma urgência desenfreada na necessidade de obter um diagnóstico. Esse movimento é perigoso em função de ter a capacidade de condenar uma pessoa a uma vida inteira de sofrimento. Sim, um diagnóstico impreciso produz dor e sofrimento. O diagnóstico é importante desde que seja para melhorar a vida de quem precisa de acompanhamento."

Cada indivíduo apresenta uma singularidade que demanda um tratamento específico. O diagnóstico não pode ser simplificado, pois cada caso é único e merece uma atenção personalizada Jorge Cordeiro, psicanalista

As falas do psicanalista Jorge Cordeiro oferecem uma perspectiva esclarecedora sobre o transtorno bipolar, destacando nuances importantes que podem ser facilmente negligenciadas. Cordeiro enfatiza a complexidade do transtorno bipolar, evitando simplificações excessivas que podem obscurecer sua compreensão. “Não existe causa exata de como podem surgir, mas, em geral, o quadro surge com uma fase de mania, de início súbito, e que pode durar de duas semanas a quatro meses.”

Ele destaca a diversidade de transtornos bipolares e relacionados, enfatizando que cada indivíduo é único e requer abordagens específicas de tratamento. Sua abordagem enfatiza a importância do diagnóstico médico individualizado, rejeitando uma visão unilateral do transtorno bipolar.

Além disso, o psicanalista chama a atenção para os perigos do autodiagnóstico e da busca por diagnósticos superficiais na internet. Ele adverte contra a urgência desenfreada na busca por uma definição imediata dos sintomas, destacando os riscos de um diagnóstico impreciso que pode levar a uma vida inteira de sofrimento desnecessário. “Mas, cada episódio – seja de mania, hipomania ou depressão - tem características próprias dessa forma requer um diagnóstico médico.”

Com isso, ele promove uma abordagem cautelosa e cuidadosa para a compreensão e tratamento do transtorno bipolar, enfatizando a importância de buscar ajuda profissional qualificada e evitar estigmas associados à saúde mental.

Através de suas palavras, Cordeiro encoraja uma visão mais compassiva e inclusiva em relação ao transtorno bipolar, destacando a necessidade de acolhimento e compreensão para aqueles que enfrentam essa condição. “É fundamental o diagnóstico correto, a terapia, uso de medicamentos, mudança no estilo de vida e, sobretudo, respeito à condição da pessoa em sofrimento.” Sua abordagem destaca a importância de um diálogo aberto e informado sobre saúde mental, visando construir um futuro onde o estigma seja substituído por empatia e aceitação.


		Transtorno bipolar: um mistério para a sociedade

Cordeiro, dentre vários projetos que desenvolve, destaca-se pelo trabalho pioneiro com o Projeto de Escuta Coletiva "Psicanálise na Praça”, na praça do Sol em Goiânia, onde ele leva cadeiras e se senta ao lado de uma placa chamando as pessoas para uma conversa informal, “A escuta na psicanálise é diferente, pois tem o compromisso com a singularidade de cada sujeito: cada história de vida é única e, assim, também é singular o caminho a ser trilhado pelo paciente para a resolução de seus conflitos.”

Durante essa conversa casual, ele compartilha sua compreensão sobre o assunto e enfatiza a importância de priorizar a saúde mental. Ele orienta as pessoas a tratarem sua saúde mental com seriedade, encorajando-as a buscar ajuda quando necessário e promovendo a conscientização sobre os desafios enfrentados por aqueles que lidam com questões mentais. E completa “Assim, te convido à praça para uma conversa em momentos de escuta e fala. Venha participar do @psicanalisenapraca”

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