Cotidiano

‘Uma grande prisão’: a vida sob o controle do Estado Islâmico

Redação DM

Publicado em 9 de dezembro de 2015 às 00:10 | Atualizado há 11 anos

RIO — “Uma grande prisão” é como os habitantes das regiões controladas pelo Estado Islâmico descrevem a vida na sua terra natal. Todos os dias, vivem com o medo dos bombardeios praticados pela coalizão internacional contra os jihadistas. Enquanto isso, as capitais do califado — Raqqa, na Síria, e Mossul, no Iraque — presenciam as decapitações e os apedrejamentos cotidianos do califado. A sobrevivência fica ainda mais difícil com a queda da qualidade de vida, o aumento do desemprego e a falta de dinheiro da população nos últimos dois anos.

A pressão internacional sobre a insurgência não ameniza seu controle sobre as duas cidades. Pelo contrário, depois de terem sido expulsos de Sinjar, no Iraque, os militantes ficaram ainda mais fortes em Raqqa e Mossul. Segundo moradores locais contaram ao jornal “”, o regime brutal que já completa dois anos se tornou uma espécie de ditadura ao estilo soviético, que não provê serviços básicos e justiça aos seus cidadãos.

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A proibição dos cyber cafés e da internet nas casas gera grande dificuldade de comunicação em Raqqa. Também é proibido usar telefones celulares, fumar cigarros ou ouvir música. As ruas principais da cidade têm câmeras e policiais que vigiam a movimentação diariamente. Tudo para controlar a população e evitar que as pessoas forneçam informações ao inimigo. Aqueles que desrespeitam estas regras podem ser punidos com chibatadas ou penas ainda mais severas.

Segundo um conhecido ativista apelidado de Tim Ramadan, a cidade se tornou uma “prisão gigante”, sobretudo para as mulheres. Elas raramente deixam seus lares com medo da polícia do Estado Islâmico, que pode puni-las por atos banais e cotidianos, até mesmo como carregar uma bolsa colorida e brilhante.

— A vida de uma menina já é naturalmente uma violação — disse Ramadan ao jornal inglês.

Já os homens devem vestir roupas largas e não podem fazer a barba. Eles podem ser parados por oficiais e revistados a qualquer momento à procura de qualquer infração.

Para Abdulkarim, residente de Mossul, a tomada da sua cidade pelos jihadistas parecia, no início, positiva. Os serviços de segurança, eletricidade, abastecimento de água e limpeza das ruas eram melhores do que nos tempos de controle do governo iraquiano. Por isso, o homem de 31 anos conta que não se incomodava em pagar uma parcela do seu salário como uma contribuição ao Estado Islâmico.

Em julho, no entanto, Bagdá parou de pagar os salários para funcionários do governo, como Abdulkarim, que vivem em territórios controlados pelos jihadistas. Ao lado do bloqueio econômico e dos bombardeios da coalizão liderada pelos Estados Unidos, a vida se tornou uma tortura: o preço dos combustíveis aumentou em cinco vezes, lojas fecharam e as pessoas já não conseguiam mais comprar bens básicos. Com o desespero, segundo jornalistas locais, muitas pessoas acabaram se aliando ao califado em busca de benefícios.

— Mossul se tornou uma grande prisão e as pessoas parecem estar sedadas com a esperança de que um dia as coisas vão mudar — contou Raafat Alzirai, jornalista residente em Irbil.

FUGA E REVOLTA

A outra opção para centenas de pessoas é fugir, embora isso também seja proibido e severamente punido. Para deixar a região, geralmente é necessário pagar uma alta quantia de dinheiro a contrabandistas. Além disso, muitas pessoas morrem ao tentar enfrentar os obstáculos da viagem, como a fome e a sede.

Exausto depois da fuga do seu vilarejo ao sul de Mossul, Salah, de 34 anos, relatou a revolta depois que jihadistas filmaram o seu amigo morrer afogado em uma jaula.

— Eu chorei porque meu melhor amigo de infância tinha morrido. Se um dia houver a chance de libertar Mossul, eu serei o primeiro a vir para destruir o Estado Islâmico.

No entanto, as propagandas do califado estão em toda parte com imagens de decapitações e mutilações que já se tornaram comuns. Agora, as punições com algumas chibatadas em praça pública já não chocam mais a população — que, segundo habitantes locais, antes fechava seus olhos. Nas escolas, os problemas de matemática perguntam qual o resultado da soma entre duas armas com mais duas armas.

— O que aconteceu na França foi terrível. Mas nós temos estas tragédias todos os dias aqui, mesmo que não na mesma escala. Viver sob o controle do Estado Islâmico a longo termo é muito pior. E ainda você tem políticos no ocidente dizendo que vai demorar dez anos para destruir o Estado Islâmico. Você pode imaginar viver assim por mais dez anos? — disse Ramadan.

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