Cotidiano

Utopia da solidariedade brasileira

Redação DM

Publicado em 1 de outubro de 2015 às 13:43 | Atualizado há 1 ano

Elpides Carvalho

Dificuldade de pensar coletivamente e o individualismo estão entre características marcantes da cultura brasileira, quase estabelecida no Brasil. Políticos, por exemplo, não conseguem colocar o país acima de seus partidos ou interesses pessoais. Nem mesmo respostas descoordenadas, por vezes, xenofóbicas de governos europeus, diante a maior crise migratória de refugiados, desde a Segunda Guerra Mundial, coloca nossa nação no topo da generosidade com pessoas desconhecidas. Conforme pesquisa World Giving Index 2014, ocupamos a 90ª posição no ranking internacional de solidariedade. O estudo é considerado o mais abrangente do mundo no que se diz respeito à fraternidade.

A pesquisa é divulgada anualmente desde 2010, quando o Brasil ocupava o 76º lugar, de um total de 135 países pesquisados. De lá para cá caímos 36 posições no ranking das nações tidas como mais solidárias. Foram adotados, pelo levantamento, critérios de doações, trabalho voluntário e a ajuda a estranhos. O Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social (IDIS) é responsável pela publicação dos dados no País.

Os números da pesquisa revelam que 22% dos brasileiros entrevistados afirmaram ter doado dinheiro para organizações da sociedade civil, 40% ajudaram desconhecidos e 16% fizeram algum tipo de trabalho voluntario. Se comparado ao ano de 2013, apenas o ato de voluntariado expressou aumento, quando era 13%. Já os outros dois índices apresentaram quedas de 1% e 2% respectivamente. “Somos generosos com pessoas próximas, mas não com desconhecidos. O Brasil não é um país solidário”, afirma Paula Fabiani, diretora-presidente do IDIS.

Latino Americanos

De acordo com a pesquisa World Giving Index, na America do Sul, Venezuela é o país menos generoso, ocupando a posição 134º, situação idêntica com a do Equador, em 132º lugar. A nação mais solidária do continente é o Chile, em 50° lugar na lista, seguido da Colômbia, em 53°. Já Estados Unidos (América do Norte) e Mianmar (Sul da Ásia) compartilham o primeiro lugar no ranking. O País norte-americano é o único a liderar em números porcentuais nos três tipos de doação.

A posição de Mianmar se deve em especial a alta incidência de doações de dinheiro. Nove em cada dez pessoas naquele País seguem a escola Theravada de budismo, com forte cultura de solidariedade, o que contribui para que a nação esteja na primeira posição em doação de dinheiro.

Paula Fabiani acredita que a pesquisa revela necessidade dos brasileiros trabalharem a cultura de doação. “No Brasil, sete em cada dez pessoas não fazem doações e oito em cada dez não praticam qualquer ação de voluntariado. Temos que fomentar a cultura de doação no País, seja em dinheiro ou tempo. Os dados mostram que a doação não está apenas relacionada com a questão da riqueza. Uma prova disso são os Estados Unidos e Mianmar que permanecem empatados em primeiro lugar”, diz.

Brasileiros negam imigrantes

Para o pesquisador Gustavo Barreto de Campos, quando o assunto é hospitalidade, com estrangeiros e imigrantes, brasileiros não são nada cordiais. A noção histórica de país acolhedor “não passa de mito”, afirma ele após concluir tese de doutorado, com mais de 500 páginas, defendida recentemente na Universidade Federal do Rio de Janeiro (URFJ). Neste estudo, foram analisadas mais de 11 mil edições de jornais e revistas publicados desde 1808, sendo possível concluir que, apesar dos avanços, o racismo na imprensa do país contra o imigrante se manteve constante. Além disso, conforme Barreto, a aceitação do desconhecido é seletiva.

A questão do acolhimento brasileiro é algo complexo e depende da cultura de cada região do País, analisa especialista em mediação de conflitos Akira Ninomiya. “Num primeiro momento a gente pode até enxergar certa fraternidade, mas deve se perguntar se ela realmente é sincera, cultural ou há certos interesses por trás dela. Já caminhei por boa parte do Brasil trabalhando prevenção e resolução de conflitos. Teve lugares que fui bem recebido pela própria natureza cultural do povo, mas também ocorreu em outras regiões o contrário. O tema é muito peculiar”, explica.

Casos recentes de truculência contra haitianos ocorridos em um posto de gasolina na região metropolitana de Porto Alegre e outro em São Paulo, quando foi apontada suspeita de prática xenofóba, foram incluídos na tese de Campos. O pesquisador ainda contabilizou a estigmatização sofrida por africanos e haitianos em 2014. Na ocasião, foi levantada a hipótese de que um cidadão da Guiné estaria contaminado pelo vírus ebola.

Disfarce

Ninomiya diz que a cultura no Brasil se comparada a de outros países tende a ser mais fraterna, porém, em relação aos imigrantes nossa atitude é suspeita. “Às vezes, a hostilização ao imigrante pode ser por medo, assim como essa agressividade pode ser um medo disfarçado. Também tem aquele argumento de como: vamos receber, diante dessa crise no País, outras pessoas ou ser solidários. Daí entra naquela lei: defendo o que é meu e pronto. Tenho ouvido ainda: se meu País não está bom para mim, vai está para os outros.”, relata.

De acordo com Gustavo Barreto, o Brasil ainda tem um longo caminho para colocar em discussão sobre a imigração. “O refugiado é sempre negativo, um problema grave a ser discutido. O imigrante é uma questão a ser avaliada, pode ser algo positivo ou negativo, mas em geral a visão é de algo problemático. Já o estrangeiro é sempre positivo, inclusive melhor do que o brasileiro. É alguém com quem podemos aprender”, disse em entrevista a BBC Brasil.

Baseado no estudo da cobertura do assunto na imprensa ao longo de 207 anos, o pesquisador afirma que “em geral, os novos imigrantes estão sempre sendo vistos como problemáticos na sociedade. As notícias não estão discutindo imigração, problematizando o assunto, e não se vê discussões de política imigratória ou da legislação. O foco não é a solução ou discutir o tema, mas a noção de crise”, frisa.

Sírios podem ser alvo de redes de exploração de trabalho

Adriano Campolina afirma que imigrantes podem ser alvo de exploração (Foto: Fabíola Ortiz)

Fabíola Ortiz

BBC Brasil

Na busca desesperada pela sobrevivência nas cidades brasileiras, os sírios que chegam ao Brasil podem ser alvos fáceis para redes de exploração de trabalho escravo. A advertência é do diretor-executivo da organização ActionAid Internacional, Adriano Campolina, nas Nações Unidas.

O brasileiro de 46 anos lidera a ONG com sede na África do Sul e está nesta semana em Nova York para acompanhar a Cúpula do Desenvolvimento Sustentável e a 70ª Assembleia Geral da ONU. Em entrevista à BBC Brasil, Campolina afirmou que ainda falta uma política mais estruturada de acolhimento a refugiados e imigrantes no Brasil.

“Um refugiado ou um imigrante é mais vulnerável à superexploração”, afirma. “É preciso construir e reforçar uma política em relação aos refugiados e imigrantes que seja mais integrada e baseada em direitos humanos e num acolhimento solidário”.

Campolina acredita que o Brasil é um dos principais destinos para solicitação de refúgio de sírios por ser percebido como um “país de muitas oportunidades”, além de não ter envolvimento em guerras ou conflitos armados étnico-religiosos.

Mas lembra que a mesma reação de pânico vista na Europa ante a massa de sírios que chegam diariamente também ocorreu no Brasil quando haitianos começaram a cruzar as fronteiras.

Confira os principais trechos da entrevista:

BBC Brasil – Como você avalia a reação de países europeus e das grandes economias em relação a esta que é considerada pela ONU a maior crise de refugiados desde a 2ª Guerra Mundial?

Adriano Campolina – Inicialmente foi um misto de reação brutal e pânico coletivo. Foi uma situação de falta de clareza estratégica do que fazer, demora na tomada de decisão e violência na forma como receber os refugiados. A Europa mostrou que não estava preparada, embora houvesse indicadores de que isso (a crise) poderia acontecer. Teve um jogo de empurra, um país empurrando para o outro.

Para uma Europa integrada através da União Europeia, demonstrou-se uma falta de integração entre políticas públicas dos países para poder receber e entender os direitos dos imigrantes. A forma como estão sendo tratados é brutal.

A Alemanha começou a mudar, mas (o cenário) está ainda muito incerto, é imprevisível. Não há como negar que é um volume de pessoas muito grande, mas acho que há uma incapacidade por parte dos Estados de receber os refugiados de maneira organizada e integrada. E, na realidade, não é a maioria dos refugiados que vai para a Europa.

Apenas 10% dos sírios estão indo para os países europeus, a grande maioria continua no Líbano e na Jordânia que concentram, no mínimo, quatro ou cinco vezes mais sírios. E isso é invisível para o mundo, são algumas ironias da geopolítica. Então, 10% vai para a Europa e não é um número tão grande assim, sendo que 90% dos refugiados estão sendo acolhidos por países não tão ricos e sem esse pânico.

BBC Brasil – Por que o Brasil está se tornando um destino importante para os sírios na América Latina?

Campolina – O Brasil é percebido pelo mundo inteiro como um país de muitas oportunidades. É visto como estável com um Estado democrático consolidado, não tem terremotos ou furacões e não está envolvido em guerras ou conflitos armados religiosos nem étnicos.

A convivência entre religiões é muito boa, embora haja um racismo endêmico e profundo na sociedade brasileira. Mas a percepção fora é de um país que oferece condições, oportunidades e estabilidade. Tudo o que um refugiado quer é estabilidade.

O Brasil é o que mais está recebendo sírios na América Latina. De 2011 e 2015, foi pouco mais de 2 mil. E ainda há uma comunidade considerável de origem sírio-libanesa e palestina. Em geral, os refugiados tendem a ir aonde existe alguma conexão com a comunidade. É natural que passemos a ver uma concentração de famílias em São Paulo ou em Foz do Iguaçu.

BBC Brasil – Qual é a realidade dos sírios no Brasil?

Campolina – Existe uma necessidade de compreender (a chegada dos imigrantes), recebê-los e tratá-los bem. Um refugiado ou um imigrante é mais vulnerável à superexploração, pois não sabe seus direitos, tem problemas de língua e pode sofrer preconceitos até raciais.

E, no desespero de busca pela sobrevivência, essas pessoas podem acabar entrando em redes que exploram. Há o risco de os sírios se tornarem uma mão de obra para trabalhos forçados.

Só ter CPF não leva ao acesso dos serviços públicos, precisa haver uma acolhida em situações de trauma, como uma criança síria que chega de uma família traumatizada. O desafio é incluir as políticas básicas fundamentais, como moradia – que é crucial -, emprego e inserção se a pessoa não fala a língua.

Na minha opinião, o desafio é como aprofundar a capacidade e a possibilidade de as pessoas que estão chegando terem acesso aos direitos coletivos no Brasil.

BBC Brasil – O governo brasileiro anunciou, no início de setembro, a prorrogação da regra que facilita refúgio para sírios no Brasil. O que representa essa política?

Campolina – O governo adotou uma medida importante de facilitar o visto e prorrogar o prazo. É muito positivo, pois simplificará o processo de concessão. Ao mesmo tempo, a sociedade brasileira vai ter que ter uma conversa mais séria sobre qual é o papel do Brasil em relação aos refugiados.

Quando começaram a chegar imigrantes haitianos, houve também no Brasil uma reação de pânico e repulsa. Eles eram muito poucos para um país de mais de 200 milhões de pessoas e sétima maior economia do mundo.

Sem moradia, refugiados sírios em São Paulo vivem em ocupação no centro da cidade

É preciso haver um debate interno de como a sociedade brasileira reconstruirá a sua identidade entendendo que o Brasil tem um papel internacional a jogar, como potência emergente e responsabilidade internacional.

A medida do visto foi positiva, mas para além, a questão é como construir e reforçar uma política em relação aos refugiados e imigrantes que seja mais integrada baseada em direitos humanos e num acolhimento solidário. A prorrogação da regra é uma medida correta e sinaliza que o Brasil compreende que tem um papel internacional cada vez maior e, que esse papel, vem com responsabilidades.

BBC Brasil – O país está preparado para receber os refugiados sírios?

Campolina – O Estado e a sociedade brasileira estão começando a se preparar. Tampouco diria que estão completamente despreparados. Ainda falta uma política mais estruturada, mas já começou a dar passos certos.

O Brasil é um país que tem uma cultura acolhedora, mas existem grupos radicais quase fascistas que podem polarizar esse assunto. Está no rumo certo mas tem que andar mais rápido em termos de alocação de recursos e de prioridade política.

Deveríamos como país receber esses imigrantes de braços abertos e com todos os direitos que o Estado brasileiro provê. O país não enfrenta uma enxurrada (de pedidos de refúgio), é uma proporção pequena e fará bem ao Brasil do ponto de vista geopolítico, para um país que ambiciona um papel internacional cada vez maior.

Poder vem com responsabilidade. Se o Brasil quer um poder maior nas relações internacionais tem que ter mais responsabilidade em questões como a migração de refugiados. Se conseguir construir e reforçar uma capacidade de resposta que demonstre compromisso com direitos humanos e um compromisso moral, vai fortalecer a sua liderança.

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