2 de Abril dia mundial da conscientização do Autismo
Redação DM
Publicado em 5 de abril de 2016 às 02:10 | Atualizado há 1 ano
Celebrado anualmente no dia 02 de abril em todo o mundo, a data foi instituída pela Organização das Nações Unidas em 2007. O Catar e sua família real foram reconhecidos por seus esforços em prol da conscientização do autismo, sendo eles uns dos maiores incentivadores da proposta. O Cristo Redentor, no Rio de Janeiro, no ano de 2011, recebeu iluminação azul, cor escolhida para representar este transtorno, já que ele é mais frequente em indivíduos do sexo masculino. Esta é uma daquelas situações em que a maior arma que se possa ser usada é a informação.
É promovendo o acesso a informações sobre o autismo que a ABRA (Associação Brasileira de Autismo), que é itinerante, mas tem sede em Brasília, vem ganhando força, representando em nível nacional e internacional as entidades que atendem pessoas com Transtorno do Espectro do autismo. A ABRA é um desdobramento da AMA (Associação dos Amigos do Autista) de São Paulo, criada em 1983 e de tantas outras AMAs espalhadas pelo Brasil, que sentiram a necessidade de se associarem, nascendo assim a ABRA em 1988, em Belo Horizonte.
Em Goiânia, pais de crianças com autismo, síndrome de Down, e tantos outros transtornos e síndromes encontraram alento no Grupo Papo de Amor. A iniciativa partiu da Cristina Rosa Araújo, que tem dois filhos eram especiais. “ A Maria Clara tem cinco anos e síndrome de asperger, e o Pedro Henrique de 9 meses é Down”, disse Cristina. Ela então criou um grupo no Whatsapp, e mantém uma página no facebbok, onde pais podem trocar informações e experiências sobre seus filhos. “É bem virtual, mas fazemos também reuniões, mas tudo muito familiar”, completa.
Neste domingo, dia 03 de abril, o Grupo Papo de Amor, sob iniciativa dos pais, está realizando a 5ª Caminhada Pela Conscientização do Autismo, a partir das 8 horas, no Parque Vaca Brava. Serão oferecidas oficinas de pintura facial para os pais e a garotada, participação do Grupo Alegria e musicalização. Todos os recursos financeiros vêm dos próprios pais que participam do Grupo de Pais Autistas (GPA) de Goiânia. Cristina disse que tudo ainda é muito simples, mas que a cada ano o evento vem ganhando força. “Vamos trabalhar pra ano que vem fecharmos um rua”, confidencia.
O autismo é um transtorno comum, que afeta uma em cada 150 pessoas, os principais sintomas são dificuldade de comunicação e em interações sociais, interesses obsessivos e comportamentos repetitivos.


O Espectro Autista e o desafio da Educação Inclusiva

“Paulo Renato será Presidente da República”. “Janaína é minha alegria de viver e vou realizar com ela os sonhos dela”. “Pedro Henrique ama aviões e tudo que ele toca vira aviãozinho lá em casa”. “Gabriela gosta de se vestir de princesa e vive rodopiando”.
Em meu cotidiano ouço muitos relatos de desejos, expectativas e sonhos de pais, dos mais simples aos mais inusitados. São muitos Pedros, Janaínas, Gabrielas e Paulos com quem convivo regularmente e tais desejos não pareceriam tão significativos se não fosse uma condição específica daqueles a quem cito: todos são crianças com TEA – Transtorno do Espectro Autista, mais referido como Autismo.
Tal condição reúne variados tipos de desordens do desenvolvimento neurológico na criança, porém, em geral, observam-se três marcadores recorrentes que podem ou não aparecer concomitantemente, sendo eles: comportamento em padrões repetitivos, dificuldade de comunicação e de socialização. É importantíssimo salientarmos que cada criança apresenta-se com especificidades próprias que variam de leves a mais graves e que, em maior ou menor grau, relacionam-se ao comprometimento na comunicação e na socialização. O quadro clínico apresentado determinará a classificação entre Autismo Clássico, Autismo de Alto Desempenho (antiga Síndrome de Asperger) e Distúrbio Global do Desenvolvimento Sem Outra Especificação. É sabido que incide mais em meninos do que em meninas e o diagnóstico demanda tempo, geralmente podendo ser conclusivo até os três anos de idade, mediante observação minuciosa dos sinais, sintomas e comportamentos demonstrados. Quanto às causas, atualmente admite-se etiologia multifatorial, ou seja, múltiplas causas que contemplam fatores ambientais, genéticos e biológicos.
Uma das minhas percepções importantes é que a criança com TEA é apresentada aos pais como uma pequena, porém muito potente “bomba-relógio”. O diagnóstico vem sempre acompanhado por uma série de “NÃOS” e uma interminável lista de restrições para a vida toda. É neste momento que o desafio da inclusão se inicia e, no Espectro Autista, há dificuldades adicionais, uma vez que a própria criança baliza seu convívio social e comunicação. É obrigação dos pais e direito da criança o acesso à Educação e este processo para muitas famílias é penoso, principalmente em se tratando da inserção da criança no ensino regular em escolas inclusivas. O “rótulo” Autista ainda é muito utilizado e carregado de condições fantasiosas e preconceituosas. Há ainda quem acredite no estereótipo violento e imagine que uma criança com TEA manifestará apenas comportamento agressivo com os adultos e demais colegas, batendo, chutando e mordendo quem quer que tente uma aproximação. Outro ponto relevante é a dificuldade de comunicação, que pode também estar associada a algum nível de dificuldade de compreensão, o que faz com que a aprendizagem, muitas vezes, passe ao largo e se preconize somente a socialização. Há ainda a presença dos professores de apoio e cuidadores que, muitas vezes, facilita para que a inclusão seja segregacionista, pois a criança com Espectro Autista é separada das demais crianças, recebendo atenção exclusiva ou participando de um grupo em que todos são, de alguma maneira, deficientes. Neste caso, o ambiente não é verdadeiramente inclusivo, não é mesmo? Se formos elencar os desafios deste processo provavelmente não conseguiremos esgotar o tema, já que cada criança, como indivíduo que é e independente de apresentar quaisquer tipos de deficiência ou não, trará consigo demandas próprias, eficiências e inaptidões que precisarão ser trabalhadas em todas as esferas: cognitiva/ intelectual, social e emocional. Por isso, o professor é a figura mais importante deste contexto. Um professor que seja preparado acerca das condições clínicas do TEA, certamente será muito mais eficiente na prática inclusiva, pois tem condições reais de estimular este aluno e permitir que ele tenha espaço e oportunidade de desenvolver suas potencialidades. Uma escola com amparo pedagógico acolhedor às diferenças permitirá a construção das várias áreas do saber, valorizando a beleza da diversidade e promovendo cidadania através da prática do respeito, da solidariedade, da alteridade e dos valores éticos e morais que norteiam a convivência social harmônica. Ao assumir que todo ser humano possui deficiências, eficiências e necessidades especiais, a escola cria um ambiente fértil ao desenvolvimento de todos, ao mesmo tempo em que, respeitosamente, admite que tal desenvolvimento não seja padronizado, o que, de nenhuma maneira, faz com que um aluno se sobressaia a outro, mas sim com que todos cresçam em suas especificidades.
