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Fronteiras da vergonha

Para muitos, a queda do Muro de Berlim simbolizava o início de uma nova era. Significava a expansão da globalização e a diminuição das fronteiras. Hoje, 26 anos depois sua queda, uma série de fronteiras muradas ainda existe para separar povos. Em praticamente todos os casos, países ricos separam-se de países pobres através do financiamento de paredes, alegando questões de segurança, quando no fundo questões econômicas e pressão de blocos internacionais são os verdadeiros motivos.

Construído durante a Guerra Fria por questões políticas, o Muro de Berlim dividia a capital alemã em duas zonas de influência. Berlim Ocidental, de domínio capitalista, e Berlim Oriental, de domínio socialista. Simbolizava a divisão do mundo em dois blocos. Um deles comandado pelos países capitalistas, encabeçados pelos Estados Unidos, e o outro, socialista, liderado pela União Soviética, atual Rússia (que em meados da década de 1990 diluiu-se em vários países). Erguido em 1961, só começou a ser derrubado em 1989, quase 30 anos depois. O muro foi responsável pelo comportamento bipolar da cidade de Berlim durante décadas.

A política anti-imigração é um dos assuntos mais discutidos no momento, tendo em vista a situação complicada dos refugiados da Guerra Civil da Síria, que vem buscando abrigo em países europeus. Eles viajam milhares de quilômetros a pé, em um verdadeiro êxodo rumo ao velho continente. Croácia, Hungria e Sérvia construíram cercas para tornar menos flexível a passagem dos refugiados. Até mesmo a Áustria, considerada um dos países estáveis da Europa cogita essa possibilidade e estuda cercar sua fronteira com a Eslovênia. O tratamento da Europa aos refugiados da guerra é alvo constante de críticas humanitárias.

Cisjordânia x Israel

Conhecido como ‘muro da vergonha’, começou a ser construído em 2002, separando o território israelense do território palestino da Cisjordânia, em uma das regiões de maior disputa territorial do mundo. O conflito entre judeus e árabes na região da palestina tem origens religiosas milenares, mas intensificou-se na década de 1940 após a decisão das potências mundiais vencedoras da Segunda Guerra Mundial de criar um estado judeu em região já ocupada por árabes no Oriente Médio. Para os judeus, a região lhes pertencia por direito, pois eram o povo escolhido por Deus para habitar a região.

Os milhões de árabes que já estavam no local, como era esperado, não tinham culpa desse decreto divino e não se retiraram da área que ocupam há milênios. O uso da força garantiu a estabilização do estado de Israel, e os árabes foram divididos em dois territórios: Cisjordânia e Faixa de Gaza. Um muro formado por concreto, ferro e arame farpado foi construído em volta da Cisjordânia. Ele tem hoje 400 quilômetros, e pretende chegar à marca de 700. Aos poucos Israel toma territórios palestinos na base da força bélica e do apoio norte-americano. Israel possui hoje o terceiro melhor esquema de espionagem do mundo, o que cria um abismo de vantagem em relação aos árabes da região.

Intervenção artística que critica o “muro da vergonha” construído por Israel

EUA x México

O muro símbolo da política anti-imigração dos Estados Unidos teve sua construção iniciada em 1994, na chamada ‘Operação Guardião’ (Operation Gatekeeper). Separa as cidades de Tijuana, no México e San Diego, nos Estados Unidos. É equipado de altíssima tecnologia. Inclui três barreiras de contenção, iluminação de alta intensidade, detectores antipessoais de movimentos, sensores eletrônicos e equipes de visão noturna, em conjunto com a polícia de fronteira dos Estados Unidos e a vigilância permanente de veículos e helicópteros de artilharia.

Também são separadas por muros outras cidades na fronteira México-EUA. El Paso, no Texas, possui um muro como obstáculo ao acesso de pessoas da Ciudad Juarez, no México. Todo esse cuidado norte-americano tem origem nos coiotes, atravessadores de imigrantes ilegais. A fronteira entre os dois países é a mais cruzada no mundo. Somente de imigrantes legais a estimativa é de 350 milhões de pessoas cruzantes por ano.

Muro da Rocinha

Não é preciso ir muito longe para encontrar exemplos de pessoas cercadas por muros por questões sócio-econômicas. No Rio de Janeiro, a Favela da Rocinha, a maior do país, foi cercada por muros para que não cresça mais. As notícias que falam da construção do muro datam de 2009. A justificativa seria a preservação da mata atlântica nos morros do Rio de Janeiro. O muro de 10 quilômetros de extensão virou assunto internacional, e foi criticado até mesmo pelo (já falecido) escritor José Saramago em seu blog, no final da década passada, levantando hipóteses de segregação social e racial.

Carlos Hardt, professor e urbanista da PUC do Paraná, opina dizendo que muros nunca são a melhor solução para resolver questões urbanas, tendo em vista que demonstram incapacidade de controle por parte do poder público. “É um sinal que não encontrou outra alternativa. Lembra outros muros emblemáticos, como o de Berlim, construído porque o governo não tinha condição de administrar o fluxo de pessoas. Em uma cidade, quando se faz um muro, diria até agressivo, é uma mostra de incapacidade”. Ele também critica o efeito urbanístico de um muro, que não causa de forma alguma um aspecto positivo.

Espanha x Marrocos

Duas cidades espanholas separam-se do território continental europeu através do Mar Mediterrâneo. Na África, em fronteira com o Marrocos, localizam-se as cidades de Ceuta e Melilla, resquícios coloniais da Espanha na África. Até a década de 1990, a fronteira entre Espanha e Marrocos era pouco perceptível. O trânsito de espanhóis e marroquinos era praticamente livre por toda a costa mediterrânea do Marrocos do Norte da África.

Com a institucionalização da União Européia, a Espanha foi incentivada a fortalecer suas fronteiras na África, o que resultou na construção de um muro cercando as duas cidades de administração espanhola. As cidades localizam-se em dois extremos. Ceuta fica no estreito de Gibraltar, e Melilla vários quilômetros ao leste. Juntos os muros das duas cidades somam 20 quilômetros de extensão.

O professor Rodolfo Alves Pena explica a situação dos muros em fronteiras espanholas no site Brasil Escola. Em sua análise, ele conclui que “O que se pode concluir com essa questão dos muros de Ceuta e Melilla – que se somam a outros muros, como o do México, o extinto Muro de Berlim e o Muro de Israel – é que tais barreiras não são somente uma demarcação territorial, mas uma divisão simbólica em termos da divisão entre o mundo desenvolvido e o subdesenvolvido, resumida na separação entre norte e sul que demarca a ordem mundial atual”.

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