Cultura

Pinceladas inquietas

Através da arte, ela busca traduzir a história de seu tempo. Foi assim que Vânia Ferro se tornou uma das artistas mais atuantes e criativas do estado

diario da manha

 

Mãos.  Muitas mãos e gestos. Pés, e bocas gargalhando – ou seriam gritando? Rostos, narizes, olhos e cabelos. È a figura humana – ou parte delas -, sem dúvida, a forma que a artista goiana Vânia Ferro encontrou para expressar tudo o que vê e sente. Por meio de pinceladas expressivas e dotadas de técnica, emoção e criatividade, ela criou pinturas, esculturas e desenhos reconhecidos internacionalmente. Em nome da arte é ainda uma militante convicta e atuante, e foi em uma de suas lutas, que nasceu a Associação Goiana de Artes Visuais (AGAV). Por tudo isso, é com muito respeito que o Diário do Artista conta hoje um pouco da história desta inquieta artista.

A arte, para Vânia Ferro, é uma missão. È ela que a artista contemporânea, amante do trabalho de Salvador Dalí e Leonardo Da Vinci, quer deixar como “pegadas” para as sociedades futuras. Assim, faz um registro lírico, mas ao mesmo tempo crítico de tudo o que vê, escuta, lê e, principalmente, sente.  “Os registros que realmente ficaram através dos tempos foram contados pelos artistas, desde a época da arte rupestre. O artista está sempre contando seu tempo”, explicou a artista em entrevista ao DMRevista.

E como são ásperos os tempos atuais, uma de suas obras mais recentes, segundo Vânia, expressa muito bem o sentimento de raiva, que para ela ronda o contexto político brasileiro atual. Tendo este cenário como base  misturou suas próprias angústias com as do povo brasileiro e desenhou várias bocas vermelhas gritando. “As pessoas, sei lá… estão com tanto ódio, que parecem estarem sem condições de expressar alguma coisa. Eu sinto as pessoas com vontade de gritar algo. Então eu fiz um monte de bocas, com dentões, gritando para expressar tudo isso”, explica.

O trabalho em questão já foi até comparado com a icônica obra de arte O Grito, do pintor norueguês Edvard Munch.

Munch fez o grito naquela época e eu fiz o grito de agora”, compara ela, confessando a paixão pelas expressões e gestos, e é exatamente por isso, que em sua obra é recorrente outra parte do corpo humano: as mãos.

Uma de suas “mãos”, inclusive, é grandiosa. Possui mais dois metros, e um dos  sonhos atuais Vânia é de que ela ganhe as ruas. “Esta obra está atualmente na minha casa. Na verdade, eu a chamo de uma ‘mão-divã’. Onde as pessoas poderão sentar para namorar, meditar ou conversar”, completa. E, os pés também despertam a atenção da artista. Durante as comemorações dos 500 anos do Descobrimento do Brasil, no ano 2000, criou uma instalação com esculturas representando 500 pés coloridos feitos com fibra de vidro e papel machê, que foram expostas no Espaço Cultural Renato Russo, em Brasília. “Gosto de expressar o jeito humano. Os sentimentos de cada figura que coloco. É a expressão do momento que eu passo”, diz.

O começo

A vontade de dialogar com o próximo por meio das cores, Vânia Ferro identificou bem cedo. Nascida na cidade goiana Paraúna, desde a infância já sabia o que queria fazer. “ Eu nasci com este lado e sempre fui perseguindo este mundo”.

Em Goiânia chegou jovem para estudar na Faculdade de Artes Visuais da UFG. Na Capital, quando chegou viu um cenário das artes ainda engatinhando, mas engrandecido por nomes como o de Frei Nazareno Confaloni, D.J. Oliveira e Ana Maria Pacheco.  “Estes artistas eram as pessoas do mundo cultural. Quase não se falava muito em artistas de outros segmentos. Mas, eu acho que era eu que só avistava isso, porque só tinha olhos para as artes visuais”, recorda sorrindo.

Quando terminou o curso de artes visuais, na década de 80, Vânia continuou na faculdade, mas como professora. Desta época, aliás, ela guarda boas recordações. “Eu vivi neste momento muito sucesso. Não parava nenhuma obra minha no ateliê. Todo mundo tinha meu trabalho. Era governador, era prefeito. Goiânia já teve essa época, que foi muito boa para arte”.

Quando este “boom” das pinturas passou, Vânia Ferro resolveu dar aulas de arte e montar o ateliê em sua casa.  “Fiz muitos artistas maravilhosos em Goiânia, como Deni Vilela e o arquiteto Cristiano Lemes. Eu adoro ensinar as pessoas a desenhar, adoro ensinar técnica, que eu tenho muita facilidade”, disse ela, que ainda enfatiza a importância do estudo.

Engajamento

Como a própria artista conta,  foram muitos os momentos felizes em sua trajetória. Os trabalhos de Vânia já tiveram espaço até mesmo fora do País. Inclusive, há dois painéis de sua autoria na França,

no Banco Central do Brasil em Paris. “Eu sou daquele pessoal que fica pintando painéis nas ruas”, ressalta a artista, que, entre outros trabalhos, possui painéis também na Biblioteca no Instituto Federal de Educação Ciência e Tecnologia (IFG) e um mural em argamassa na fachada da TAM, no Empire Center de Goiânia.

Mas, outra vertente que se destaca na carreira de Vânia Ferro é o seu lado engajado. E, foi buscando mais representatividade entre os artistas visuais de Goiás e uma união da classe, que ela fundou a Associação Goiana de Artes Visuais. “Todo mundo falava que os artistas plásticos são cada um na sua, são só ego. E o que eu fiz? Chamei uma amiga e falei: vamos montar uma associação para o pessoal parar de falar que nós somos desunidos”, recorda.

O começo da AGAV foi difícil e ela “penou” até encontrar um advogado, que realmente abraçasse a causa. E, juntamente com Deolinda Taveira, Liah, Sanatan, entre vários artistas, que em 2006, ela começou a fazer o estatuto e frequentar cartórios até a associação acontecer.

“Para mim na arte é preciso vestir a camisa. O que  adianta ser artista só para pintar? Eu tenho que ter a minha personalidade e a minha personalidade é de participar, de estar junto com o povo, de batalhar pela cultura”, argumenta a artista, que acredita que hoje a arte goiana  tem mais representatividade. A história de seu tempo certamente será bem lembrada.

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