diario da manha
“O último lote vago”: área pública e sonhada praça((FOTOS: LEON CARELLI)

Desde o final dos anos 1990, muita coisa mudou na paisagem de pequenos setores da região sudoeste de Goiânia. A Vila Lucy, um setor residencial com 2.300 metros quadrados, é uma testemunha de tamanhas reconfigurações. Naquela época, um grande quarteirão localizado entre a Rua 3 e a Avenida A encontrava-se completamente inabitado, e durante muitos anos serviu como um complexo de lazer improvisado pela população. Duas traves estavam instaladas ali, bem como alguns banquinhos construídos por moradores, e árvores que serviam de playground para as crianças. Menos de duas décadas depois, tudo virou casa, daquelas que são feitas para alugar. Oito kitnets em 1 lote–o sabor da especulação imobiliária que veio súbito, impressionando até mesmo os moradores mais antigos com sua força.

“Golzinho”

Rua 3, início dos anos 2000. Uma linha desenhada com cacos de tijolo ou de gesso limitavam o meio-de-campo. Sete passos largos eram contados do marco zero em direção às extremidades, onde duas outras retas traçavam as linhas de fundo. Quatro chinelas, divididas em pares. Cada par no centro de uma das extremidades, posicionados com 3 pés de distância entre si. O popular “golzinho” era jogado por duas duplas, geralmente formadas pelos jogadores mais habilidosos, que permaneciam quase todo o tempo na linha, pois para continuar bastava vencer. Dois gols encerravam o jogo. As demais crianças se revezavam na fila de próximos, e escolhiam um dos perdedores para substituir, e na rodada seguinte eram quase sempre os próximos substituídos.

Em 2017, podemos ver a Rua 3 tomada por carros estacionados. Pertencem a uma empresa de segurança. O fluxo de carros é quase contínuo. “Goiânia cresceu demais”, repetem os idosos. “Aqui era tudo terra”, emendam. “Pra lá [dedo apontado para o extremo sudoeste da cidade] não existia nada”. Em 2002, materializa-se na região a unidade de uma grande rede de hipermercados, e isso muda drasticamente o fluxo da vila. No dia da inauguração, quase não havia espaço para receber o público. Outro evento bastante comentado foi a criação do Residencial Eldorado, em meados da mesma década. O bairro vertical inaugurado depois da “baixada do Córrego Macambira”, mais conhecida atualmente como Avenida Madri, era uma verdadeira epifania na narrativa dos pioneiros.

A árvore do Seu Mário

Em 2016 a vila perdeu um de seus principais pontos turísticos. A “árvore do Seu Mário”, como era conhecida, cedeu a uma tempestade pondo fim à história de um dos mais moralizadores banquinhos de vila da história de Goiânia. A robusta e elevada estrutura sombreava cerca de 30% da Rua 3. Ao redor dela, um canteiro com outras espécies vegetais recebeu como acabamento um empilhado de meio-fios revestidos com cimento, formando o trono que recebia a presença de Seu Mário, o anfitrião da vila, que logo se via rodeado de vizinhos a comentar os mais variados assuntos do cotidiano. A notícia da queda da árvore se espalhou e foi recebida com pesar por moradores e ex-moradores de toda a região.

Apesar de se tratar de um incidente natural corriqueiro, a queda da árvore de Seu Mário simboliza, de certa maneira, o fim de uma era, de um hábito comum vivido por moradores da Vila Lucy nos últimos 40 anos. A tristeza do morador, enfatizada nas narrativas que noticiavam o evento, não era causada simplesmente pela perda material da árvore que viu crescer por décadas. O grito na memória que não encontra ouvidos para propagar-se talvez seja mais nocivo. O “progresso” vem esquecendo formas peculiares de comunhão entre vizinhos, reconfigurando o modo de vida de crianças e adultos, introduzindo às vilas periféricas a cultura do concreto, transformando as memórias da geração que sobreviveu à transição entre o golzinho e o Playstation em nostalgia.

Arremate

Em 2010, segundo dados do IBGE, cerca de 1500 pessoas residiam na Vila. Durante suas quatro décadas de existência, a vila já perdeu boa parte dos exemplares de casas originais. Durante essa sessão de fotos, pude presenciar o lote que abrigava uma das sobrevivenes tomado por pedreiros empenhados em construir o futuro. O sinuoso sobrado da Avenida A, ex-portador de janelas e detalhes excêntricos e tido pelas crianças da década de 1990 como uma referência arquitetônica do setor, encontra-se hoje tão modificado que é incapaz de causar qualquer nostalgia aos visitantes desavisados. O bairro, que antes era visto como um extremo da cidade, hoje encontra-se perdido, em meio à malha urbana da “Metrópole do Cerrado”, à disposição da gula imobiliária.

 

Rua M
Rua M
Curva da viela N
Curva da viela N
Esquina com a Avenida E-6
Esquina com a Avenida E-6
Rua S
Rua S
Entranha
Entranha
Casa preservada
Casa preservada
Calçada das oficinas, margeada pela Avenida das Bandeiras
Calçada das oficinas, margeada pela Avenida das Bandeiras
Igreja em construção na Avenida A
Igreja em construção na Avenida A
Escada/banquinho
Escada/banquinho

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