Cultura

As paixões escarlate: uma leitura de 'Beleza Americana'

O drama explora temáticas referentes a idealizações do amor romântico e paterno, sexualidade, beleza e materialismo

diario da manha
Foto: Reprodução

Beleza Americana (1999) é um longa estadunidense dirigido por Sam Mendes, roteirizado por Alan Ball e distribuído pela DreamWorks SKG. Ganhador de cinco Oscars nas categorias principais: Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Ator, Melhor Roteiro Original e Melhor Fotografia e além disso concorrente para os prêmios de Melhor Atriz, Melhor trilha Sonora e Melhor Montagem.

É precípuo que se enfatize as raízes intertextuais de “Beleza Americana” , que fazem diversas referências ao romance “Lolita”, de Vladimir Nabokov. Além de ambas as histórias trazerem um homem mais velho que fica obcecado por uma sedutora menina mais nova, “Lester Burnham” é um anagrama para “Humbert learns” e o sobrenome de Angela, Hayes, soa como Haze, sobrenome de Lolita.

O drama explora temáticas referentes a idealizações do amor romântico e paterno, sexualidade, beleza e materialismo. American beauty é um tipo de rosa muito cultivada nos Estados Unidos, essa espécie é inodora e sem espinhos, essa ausência das características mais marcantes da rosa é uma metáfora sobre o vazio existencial do americano comum.

O protagonista Lester Burnham, narrador póstumo, (Kevin Spacey) é um homem no decurso de uma crise de meia idade, frustrado, cético, e sarcástico que não encontra satisfação no seu trabalho e tão pouco em seu falido casamento.

Sua esposa, Carolyn, (Annette Bening) é uma fria, sistemática e ambiciosa corretora de imóveis; Jane Burnham (Thora Birch) a filha adolescente do casal, é influenciável, melancólica, tem problemas de socialização com seus pais e uma auto-estima baixa, sempre se espelhando em Angela Hayes (Mena Suvari) sua amiga, que desperta a atração de Lester, após vê-la em uma apresentação de líderes de torcida durante o intervalo de um jogo de basquete onde Jane também se apresentava.

A reflexão final de Lester, revalida que o homem não se vê como sujeito e objeto do mundo

Ele começa a ter fantasias sexuais com ela, onde o vermelho, acompanhado de pétalas de rosas são temas recorrentes. Paralelamente, Carolyn, também não satisfeita com seu casamento, começa a ter um caso com seu rival de negócios, Buddy Kane, por quem intimamente nutre uma admiração que vai além de uma concorrência no ramo de imóveis. Diante das recorrentes tentativas de Lester para atrair a atenção de Angela e as sutis pseudo correspondências, amizade de Jane e Angela esfria, como também, a influência da colega sobre a filha de Lester.

Em Beleza Americana (1999), o vermelho é usado de forma simbólica durante todo o filme, tornando-se uma importante assinatura temática que move a história e vetor no processo de erotização presente na obra. A sensualidade presente na referida cor é um canal de transmissão de emoções intensas, como paixão, loucura, excitação, bem como um condutor de interpretações ao receptor.

Em uma das mais importantes cenas de Beleza Americana (1999), o vermelho de imediato nos traduz a sensualidade passada por Angela Hayes personagem de Mena Suvari e o amor e excitação que Lester Burnham (Kevin Spacey) sente ao imaginar e idealizar a imagem da jovem.

A alucinações provenientes do imaginário de Lester, refletiam o desejo por Angela e se materializam no imaginário sempre em diálogo com o vermelho e por meio de pétalas de rosas dessa mesma cor. A imagem de Angela, comparada com uma pintura renascentista, protagoniza a cena imaginada pelo protagonista ao idealizar e superestimar a jovem, elevando a uma posição inalcançável e indutora do desejo sexual de Lester.

As rosas na cena de sedução Lester–Angela simbolizam a vida anterior de Lester, e o anseio pelo retorno da virilidade perdida em meio a crise de meia idade e conjugal que o protagonista se encontra. A epifania de Lester no final é expressada através da chuva e do vermelho, construindo um crescendo que deliberadamente contrasta com a libertação de seus sentimentos.

Entrelaces linguísticos do sujeito

A tensão interna de Lester, bem como a condição de tensão, abre espaço para a transferência e projeção de sua insatisfação pessoal no Outro. Ao canalizar e transferir a líbido para Angela, encobre o desejo por sua própria filha e condiciona sua realidade a acreditar nessa projeção ao moldar seu comportamento para satisfazê-la.

Em Linguagem e psicanálise (2006), Leila Lago afirma que durante seu percurso psicanalítico, o sujeito demanda um saber sobre si mesmo. Processo manifesto em Lester durante seus últimos momentos em vida. Para a autora, esse saber virá a ele no momento em que escutar a si mesmo e ouvir, em vez de palavras vãs, algo que faça sentido para ele.

Destarte, esse saber sobre si mesmo lhe chega como equivocação: é quando ele mesmo não se entende, porque diz mais do que conscientemente sabe sobre si. A narração final de Lester descreve as experiências significativas que ele teve em vida, e durante sua morte uma delimitação antes disforme na composição do personagem é visível durante a passagem:

“Acho que eu poderia estar muito puto com o que me aconteceu, mas é difícil ficar bravo quando há tanta beleza no mundo. Às vezes eu sinto que estou vendo tudo de uma vez, e é isso é muito. Meu coração se enche como um balão que está prestes a estourar. E aí eu me lembro de relaxar e tentar parar de me apegar a isso. E aí tudo flui através de mim, como chuva, e não posso sentir nada além de gratidão por cada momento da minha vida estúpida. Vocês não têm ideia do que eu estou falando, tenho certeza. Mas não se preocupem. Um dia terão.”

A reflexão final de Lester, revalida que o homem não se vê como sujeito e objeto do mundo. Assim, subjetividade é conferida pela capacidade humana de ordenar o mundo. Ser é representar; para Oliveira, o humano se define pela capacidade de representar o mundo e a si no mundo, reconhecendo-se como imagem ou reflexo. O sujeito clássico é, portanto, reflexivo. Não possui corpo: é universal e compara-se com a infinitude divina.

Outrossim, evidencia-se, portanto, importância vital do Empirismo para formação do pensamento iluminista e para lógica que sustenta o pressuposto do sujeito subjetivo. A relação negativa da finitude humana frente ao infinito era anterior à empiricidade do homem e ao conhecimento que se pode obter a partir dela.

A morte de Lester Burnham testifica a correspondência empírica inerente a formação do sujeito, e as fartas questões nutridas ao longo do drama encontram um denominador comum ao consumar o fim do protagonista, e com ele os intateavéis tópicos do inconsciente do mesmo, que tematizavam o impasse cinematográfico de Beleza Americana (1999).

Leia também: A cena dourada na voluptuosidade de “Mel e Girassóis”


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