Cultura

Peça retrata história de seis mulheres misturadas com caixas lambe-lambe

As seis histórias encenadas nas caixas do projeto “Damas de Cubo” são inspiradas em memórias, mitos e personagens que – de alguma forma – foram eternizados pelo teatro

diario da manha
Fotos: Layza Vasconcelos

Marcus Vinícius Beck

Digite no Google o termo ‘Fotógrafo Lambe-Lambe’. Pronto: você verá que eles surgiram nas primeiras décadas do século passado e passaram a ser conhecidos popularmente como “fotógrafos ambulantes”. Isso porque trabalhavam em parques e quase sempre tinham seus trabalhos requisitados para clicar momentos especiais entre famílias ou para tirar retratos 3×4. 

Munido do equipamento fotográfico chamado de máquina-caixote, os profissionais lambiam as chapas de vidro que eram responsáveis por capturar a imagem. Um lado da lâmina era revestido e tinha grande sensibilidade à luz. Ao passar sua saliva, o fotógrafo sentia o lado mais áspero e, com isso, guiava o posicionamento do vidro na câmera. Cada clique consumia uma nova chapa. 

Além da fotografia ter ganhado contornos populares com essa técnica, o teatro também teve caracterizações do lambe-lambe, na década de 1970. Essa forma teatral calcada na animação será transportada para os palcos hoje, às 18h e às 20h, na Feira da Praça do Jacaré, no Setor Crimeia Oeste, pela companhia de teatro Nu Escuro. Espetáculo conta com apoio da Lei Municipal de Incentivo à Cultura. 

Ao todo, serão representadas na peça “Damas do Cubo” seis histórias vividas por mulheres. De Elza Soares – cantora que simboliza a resistência da mulher negra frente à discriminação social – à Julia Pastrana, a Mulher-Macaco do século XIX. 

Além disso, haverá espaço para a lendária Julieta – a personagem inconfundível do dramaturgo inglês William Shakespeare – à Maria Eliza Alves dos Reis, também conhecida como Palhaço Xamego. Maria foi a primeira palhaça negra do Brasil, e maior atração do Circo Guarany entre as décadas de 1940 e 1960. Num período em que a sociedade era mais conservadora do que hoje, ela fingia ser homem, e resistiu.   

Para a diretora Izabela Nascente, as seis histórias encenadas nas caixas do projeto “Damas de Cubo” são inspiradas em memórias, mitos e personagens que – de alguma forma – foram eternizados pelo teatro. Mestre em Performances Culturais pela Universidade Federal de Goiás (UFG), Nascente disse que essa forma de fazer teatro sempre teve relação íntima com a resistência feminina. 

“Em minha pesquisa de mestrado estudei a vida e a obra de Julia Pastrana, uma artista mexicana, que por sofrer de uma doença conhecida como hipertricose, acabou integrando espetáculos que naquela época eram conhecidos como Freak Shows, tendo criado uma das primeiras Mulher-Macaco, que no Brasil também ficou conhecido como Monga”, teoriza a diretora. 

Nascente ainda afirma que Julia Pastrana, embora fosse uma pessoa culta, que falava várias línguas, sofreu em boa parte de sua vida maus-tratos e foi explorada para o enriquecimento de quem a produzia. “Depois de sua morte, por uma gravidez mal-sucedida, o seu corpo e de seu filho foram embalsamados para ser exibidos, e continuou a gerar lucro para seu dono, por muito tempo”, diz.

“Foi assim que comecei a me interessar em contar histórias destas mulheres que, mesmo em condições inóspitas, lutaram por suas vidas, por sua arte, e transformaram de tal forma o mundo em que viveram, que acabaram entrando para a história”, completa. 

Teatro lambe-lambe

O teatro lambe-lambe é considerado uma especialidade do teatro de animação. Esse gênero foi uma invenção feminina, concebida em Salvador (BA), no início da década de 1980. Duas bonequeiras, conhecidas como Ismine Lima e Denise Santos, foram as precursores da técnica. 

Em relação à fotografia que adotou esse estilo no início do século XX, a invenção das duas artistas foi transformar o espaço interno da ‘máquina’, onde o retrato é captado e a imagem passa a ser revelada. Com isso, criou-se imensas possibilidades e uma gigantesca fonte criativa.

“Nós, que já trabalhamos com bonecos, pudemos criar, elaborar, confeccionar e manipular estas pequenas encenações, que são totalmente diferentes da confecção e manipulação de bonecos maiores e mais articulados. Esta é uma outra forma de criar e de atuar”, diz a diretora Izabela Nascente.

Serviço:

Dramas ao Cubo – Cia de Teatro Nu Escuro

Quando: hoje, dia 27

Horário: às 18h e às 20h

Onde: Praça do Jacaré

Endereço: Rua Dr. João Alves de Castro – St. Crimeia OesteIngressos: Entrada Franca

Comentários