Cultura

Poesia do início ao fim

Em conversa com DM, poeta conta como é sua relação com a escrita e fala sobre nova obra

diario da manha
Fernanda Marra durante noite de autógrafos na Livraria Palavrear - Foto: Divulgação

Fernanda Marra, 38, escreve poesia há muito tempo: manteve o blog “Marés e Ressacas”, entre 2008 e 2015, e lançou seu primeiro livro de poesias ainda quando era criança – aos 11, 12 anos, se o cocuruto deste escriba não foi traído pelo esquecimento. Dona de versos sensíveis, ela desperta no leitor ao longo de “Taipografia” – obra lançada neste mês na livraria Palavrear, em Goiânia – uma urgência em pensar a poesia a partir do olhar feminino. 

Nascida no dia 7 de dezembro de 1981 na Capital goianiense, Fernanda é mestre em Letras e Linguística pela Universidade Federal de Goiás (UFG). Além disso, estuda a obra da escritora argentina Alejandra Pizarnik (1936-1972) em seu doutorado em teoria literária pela Universidade de Brasília (UNB). Também foi autora convidada do livro de contos “Cidade Sombria”, lançado no ano passado, e possui poemas que foram publicados na revista “Escamandro”. 

Em entrevista ao Diário da Manhã concedida na última semana, a poeta conta sobre o que a levou a escrever “Taipografia” e fala sobre o processo criativo do novo livro Fernanda lançou a obra no evento “Vozes e Versos”. Comenta ainda como é sua relação com a escrita e revela que fazer poesia é – por si só – um ato de resistência. “O fato é que a letra transporta e dissemina sentidos que se cruzam com outros e tecem verdadeiras redes de sentido e resistência”, diz Fernanda. 

Confira a íntegra da entrevista:

Diário da Manhã – O que te levou a fazer o livro? 

Escrevo poemas desde criança. Comecei a experimentar a escrita em versos aos doze anos e publiquei, ainda na adolescência, o meu primeiro livro de poemas, “Voo Livre”. Depois disso, passei por um período de hibernação da escrita literária. Foram anos sem escrever poemas, até que, em 2008, retomei essa escrita por meio de um blog, que chamei de “Marés e ressacas”. Postava quase que diariamente, os amigos me liam, comentavam e isso foi um exercício que durou até 2015, acho. Foi um processo bem importante porque era onde me sentia livre para fazer da escrita um lugar para as minhas questões, para pensar os acontecimentos da vida, a exemplo da gravidez e do nascimento do meu filho, mas não só. Depois, recolhi tudo e engavetei. Recentemente, um amigo, o prof. Jamesson Buarque (Letras UFG), que integra o conselho editorial da martelo (casa editorial pela qual acabo de publicar o meu livro “taipografia”), pediu para ver alguns poemas. Passei tudo que tinha e ele acabou encaminhando para a publicação.

DM – Como foi o processo criativo?

Bem, esse foi o processo de escrita, que é muito diferente do processo de composição do livro. Se é uma verdade que o mar dá no coração, para sertanejo que se preze, ele é também uma utopia. Ao pensar recentemente nos poemas abraçados pela capa de um livro, objeto tão palpável, não conseguia mais reuni-los sob aquele título do blog. Voltar aos poemas, relê-los e selecioná-los foi também entender que me contam uma história e que essa história é uma outra camada de escrita. Comecei a perceber que os poemas formavam blocos e falavam sobre um modo de habitar, de fazer nicho. Esse livro, o “taipografia” é sobre a escrita desse modo arcaico de levantar paredes que é técnica da taipa, do pau-a-pique. Entendo que essa casa de escrita me abriga e me expõe ao mesmo tempo. É uma casa que se faz no movimento de me endereçar ao outro com meu corpo precário e misturado de mundo. Um processo delicioso e árduo, ou, como disse Clarice (Lispector), uma alegria difícil.

Foto: Reprodução/ Facebook

DM – Quais foram suas influências estéticas?

Estive pensando sobre isso a propósito de outra pergunta que me fizeram esses dias. Ao me ver tendo que oferecer nomes de poetas aos quais me filio, entendi duas coisas a meu respeito: 1) que, no meu caso, a escrita precede a leitura. Quero dizer com isso que, antes de me tornar uma leitora de obras literárias, antes de amar os livros, eu amava mesmo esse exercício de me lançar na letra. Só depois de começar a escrever é que me interessei pelos livros. 2) O outro ponto é que essa escrita também não surgiu aleatoriamente. Se não tinha me agarrado aos livros antes de começar a escrever, havia, por outro lado, uma escuta atenta de canções da música popular brasileira que hoje, compreendo, foi, e continua sendo, a minha maior filiação. Artistas como Caetano Veloso e Chico Buarque precederam qualquer poeta em termos de influência da minha escrita. Mas hoje é um pouco diferente: depois de uma graduação, de um mestrado e de me encaminhar para a conclusão de um doutorado em teoria literária, muitas leituras me atravessam, inclusive leituras de outros campos, como a filosofia e a psicanálise. Clarice Lispector e Alejandra Pizarnik são minhas guias. Também tenho muito interesse pela escrita das poetas brasileiras contemporâneas, estamos em um momento muito prolífico da poesia e as mulheres produzem coisas lindas a todo vapor. Entre minhas favoritas estão: Ana Martins Marques, Angélica Freitas, Mônica de Aquino, Nina Rizzi, Alice Santana, Marília Garcia, Yasmin Nigri, Danielle Magalhães, Viviane Nogueira, Thaíse Monteiro e Dheyne de Souza.

DM – Em um poema você cita a palavra “boceta”. Esses versos seriam uma crítica? 

Eu não falo sobre boceta, eu falo boceta evocando a literalidade do nome. Faço esse significante deslizar trazendo diversas situações de violência contra mulheres que conheci. Sempre me espanto com a dificuldade da grande maioria das pessoas em pronunciar esse nome que localiza o corpo da mulher. Estou constantemente pensando sobre esse grande tabu e me atentando para os contextos em que a palavra aparece demonizada, humilhada, envergonhada, carregada de violência e de dor. Sendo alguém que escreve e pesquisa no campo da linguagem, não concebo a escrita literária fora de sua dimensão ética (e, portanto, política). É da própria natureza da língua ser um recurso e um limite à expressão do que nos há de mais singular. Escrever poemas é, para mim, um envio ao outro, um endereçamento sem destinatário definido. Nesse sentido, há um diálogo aberto com o mundo, com a época em que vivo, com o outro que me afeta de algum modo. Escrever é uma tentativa de elaborar respostas às minhas questões, antes de tudo. Então, se a palavra insiste nos meus versos está mais para uma questão e um desafio que requer resposta que para uma crítica propriamente, acredito. Agora, o quê e como cada um recebe as ressonâncias do que digo e com o quê essas ressonâncias vão se conectar, faz parte do próprio envio. Não tem como definir. Deixemos reverberar.

DM – Fazer poesia é um ato de resistência? Por quê? 

Sim, ao considerar a escrita como um endereçamento, creio que ela encontra seus destinatários, ou que os destinatários a encontram. O fato é que a letra transporta e dissemina sentidos que se cruzam com outros e tecem verdadeiras redes de sentido e resistência. Ao se dirigir ao outro, a escrita de poemas é um gesto de amor, um abraço, um teto provisório, mão que se oferece, como disse Jacques Derrida. Quando nos dispomos a esse contato, percebemos que nossa solidão não está desacompanhada e isso parece que nos nutre, nos dá força para seguir contornando o vazio e o horror de uma época.

Comentários