Cultura

O movimento chegou

Aumenta que isso aí é rock´n´roll: na última reportagem da série em homenagem ao Dia Mundial do Rock, rememoramos a formação da rock goiano e falamos sobre a importância dos festivais para a identidade da cena local

diario da manha
Banda Restos da Cultura Proibida no ano de 1988 - Foto: Acervo Histórico/ Reprodução

“Roqueiro brasileiro sempre teve cara de bandido”, anota Rita Lee em “Orra Meu”, canção gravada no LP “Rita Lee” (1980). Mas o mau comportamento do rock´n´roll no Brasil – não tinha, arrisco, melhor dizendo, não tem – nenhuma ligação com aparências fora do establishment ou crimes por agredir a moral e os bons costumes. Será mesmo que era possível perceber naquelas letras bobinhas de Celly Campello ou Roberto Carlos algum elemento linguístico ou musical subversivo? Até os anos 80, a rebeldia do BRock encontrava em Raul Seixas e Belchior o ímpeto porra-louca do qual tanto temiam os caretas: a transgressão.

Na última reportagem da série em comemoração ao Dia Mundial do Rock, o Diário da Manhã decifra a formação do rock goianiense. E mostra que, desde os anos 60, influenciado pela Jovem Guarda, inspirado em Roberto e Erasmo, pelos Beatles e pela invasão britânica, o rock goiano existe. “A presença do rock em Goiânia não é uma novidade. A gente teve o cenário dos anos 80, muito influenciado pelo punk e pelo pós-punk. Teve a cena do metal, que sempre foi muito forte, batalhando no underground”, explica o jornalista Pablo Kossa, autor do livro-reportagem “10 Anos de Goiânia Noise – Em Terra de Cowboy Quem Toca Guitarra é Doido”.   

O rock, de fato, rola há muito tempo por aqui. Na década de 1970, por exemplo, o baterista Moka Nascimento já mandava ver um progressivo à la Emerson, Lake & Palmer e Jethro Tull com a rapaziada do Akuarius Seven e Os Tarântulas. Moka, neste período, chegou a tocar com o goiano Odair José, conhecido como ‘Terror das Empregadas’ por “Pare de Tomar a Pílula” e “Vou Tirar Você Desse Lugar”. “A cena do rock em Goiás é forte desde o princípio”, diz o precursor. Na época, rememora o músico, as apresentações eram realizadas em ginásios de esportes. “As dificuldades não nos preocupavam, o interessante era fazer o show de rock, estávamos imbuídos de paixão”.

Nos anos 80, com a febre inglesa de The Clash, The Smiths e The Cure, Goiânia viu o desabrochar de bandas como Markan Camaralina, com uma pegada mais rock´n´roll, e Língua Solta, cuja estética era hippie. Na sequência surgiu a inovação do Fox Trot com seus músicos que bebiam na fonte do rock progressivo, mas tinham uma abordagem teatralizada, pintando o rosto e trazendo para o contexto local um prenúncio de punk rock. “Durou muito pouco, mas impressionou profundamente a comunidade roqueira da cidade”, diz o fotógrafo Jadson Junior, autor do livro “Das Cores ao Século XXI”, onde narra como era o rock no período.

“Era muito difícil fazer um simples ensaio. Não havia shows em bares, então a saída era fazer ‘festas’ em chácaras longe dos olhos e ouvidos da população e da polícia. Antes de 84 falava-se em Bonecas de Trapo (banda feminina), Sexta 13, Metal Lethal, mas esses grupos foram muitíssimos prejudicados pela precariedade material da época”, conta Jadson. Eram tempos de abertura política após 21 anos sufocados pela cafonice dos fardados e não havia a menor possibilidade de os músicos adquirirem instrumentos importados. “Não tinha bar de rock, nem show de rock, não tinha nada. Tinha a banda xxxxxxxx do Fabão, tocava só blues e se apresentava de graça ao ar livre nas vielas do Projeto Cura, no Setor Sul”.

Embora críticos sacramentaem que a linguagem suja de Sex Pistols, The Stooges e The Velvet Underground contribuiu para sepultar o gênero musical popularizado por Elvis Presley e Beatles, o rock não morreu. É o que testemunhou o jornalista e sociólogo Renato Dias: “O rock explodiu, em Goiânia, na década de 1980. Bandas de garagem inventivas surgiram por atacado, com estilos autorais, como Fox Trot, Décimo Sétimo Sexo, Marca Registrada, Restos da Cultura Proibida, Efeito Colateral, Eclipse, Sócios D’hu Ofício. Eram personagens de uma época de rupturas, transgressões, drogas, sexo e da emergência da Aids e do acidente com o Césio 137”.

Mudança

O cenário começou a dar sinais de mudança a partir 1984, quando uma nova geração começou a despontar e o Rock in Rio ajudou a mostrar para a cidade que rock era uma atividade cultural. Alguns bares, então, passaram a considerar ter um showzinho aqui e ali, ali e acolá, e o produtor Samuel Vital organizou o Festival Rock Tock, em 1985, que reuniu cinco bandas de Brasília e 10 de Goiânia. No metal, gênero que sempre foi marcante na cena da capital, Asgard e Mortuário tinham um estilo bem definido na época. Em 85 as bandas de pós-punk Quarto Mundo, Sétimo Sexo e Restos da Cultura Proibida inovaram com estética, atitude e postura.

Vocalista Salma Jô e guitarrista Macloys Aquino em show da banda Carne Doce – Foto: Filipa Aurelio/ Reprodução

“Controlavam suas imagens nas fotos para a imprensa e criavam elas mesmas seus próprios cartazes e flyers, estudavam os textos que seriam divulgados pelos jornais e abraçaram outras artes como dança, mímica, teatro e artes visuais”, recorda-se o fotógrafo Jadson Junior. Ele conta ainda que essas bandas dedicavam-se a criar uma cena com códigos próprios. “Além de gravarem suas músicas em estúdios para que tivessem uma demo com o mínimo de qualidade”, completa Jadson, autor do livro “Das Cores ao Século XXI”, obra seminal para a compreensão do rock produzido em Goiás na década da emergência da Aids e do Césio 137.

Nos anos 1990, a cena do rock goiano deu um salto com a criação do selo Monstro Discos. Interessados em colocar Goiás no panorama do rock independente nacional, os amigos Márcio Júnior e Léo Bigode idealizaram a Monstro e, em 1995, para alimentar a efervescência de bandas que surgiram a rodo em Goiânia, organizam a primeira edição do Goiânia Noise. “A gente buscou ocupar todos os pontos da cadeia produtiva para dar voz e visibilidade aos grupos que surgiam”, afirma Márcio Júnior, fundador da banda Mechanics, expoente do rock noventista goiano. “Goiás é a terra do sertanejo, mas também é a terra do rock”.

Boogarins é aclamada pela crítica nacional – Foto: Rodrigo Zan/ Divulgação

Márcio relata ainda que, na década de 1990, a única opção viável em Goiás era criar o próprio entretenimento. “Se você gostava de sertanejo Goiânia era um pouco mais aprazível. Mas se você curtia rock a coisa era um tanto mais difícil. A gente resolveu inventar tudo”, conta. Durante um período, continua o músico, a Monstro e os festivais chegaram a ocupar o mainstream goianiense. “Não era só seus festivais os mais interessantes. Lembro que a gente trazia umas bandas completamente obscuras, de outros estados e até de outros países, em lugares que não eram casas de shows de rock, e dava público. Essa realidade, hoje, mudou”, analisa.

Nos anos 2010, as bandas indie Carne Doce e neopsicodélica Boogarins despontaram para o cenário nacional, chegando a serem aclamados pela crítica dos principais veículos do País. E quando se apresentam na capital, seus shows lotam. A Monstro Discos, mesmo com todos os percalços inerentes ao ofício roqueiro, continua agitando a cena local, com Cidade Rock (evento realizado mensalmente) e Goiânia Noise (festival reconhecido nacionalmente como vitrine). O rock produzido em Goiás ainda pulsa com o punk clássico dos Señores e com a pegada sessentista do power trio The Galo Power. Goiânia, por isso e muito mais, é rock na veia e na artéria.

Comentários