Cultura

Em EP, Tom Zé antecipa cultura do cancelamento

"Tribunal do Feicebuque" é uma fina auto-ironia do último tropicalista; EP está disponível nas plataformas digitais

diario da manha
Cantor Diego de Moraes Campos com o grafite do Kobra na Vila Madalena, em São Paulo, no ano passado - Foto: Janaína Vidal/ Arquivo Pessoal

As redes sociais se tornaram um tribunal no qual o deslize mais bobo vira motivo para cancelamento. Seja por um discurso ou ação, vivemos um momento semelhante ao retratado na série “Black Mirror” ou aquele descrito pelo jornalista George Orwell em “1984”, obra originalmente pensada para ser uma crítica ao totalitarismo e a um modelo de sociedade que parecia ter ido embora com a derrocada do nazifascismo. 

Nesse sentido, o relançado EP “Tribunal do Feicebuque”, do cantor e compositor Tom Zé, é uma fina ironia que ganhou novo significado no contexto do “não gostei, cancelei”. Após oito anos de seu lançamento, essa é a primeira vez que o trabalho fica disponível para o público por meio das plataformas de streamings. Se em 2013 o artista ficara atordoado com a voz da inquisição do Facebook, o que ele imaginaria de hoje?

“No mundo dos algoritmos estamos vendo surgir movimentos de ódio e ameaças à uma cultura do diálogo, que é um alicerce filosófico fundamental da ideia de “democracia”. Penso que o problema da noção de um “Tribunal” é que muitas vezes o acusado não tem espaço para se defender, quando já se é estigmatizado de antemão, por bolhas virtuais”, analisa historiador Diego de Moraes Campos, que defendeu na UFRJ no ano passado a tese de doutorado “O riso e a faca’: A canção crítica de Tom Zé, do CPC da UNE à (re)invenção do multiverso ‘Tropicália”.

A ideia da letra, responsável por antecipar a falta de diálogo das redes, surgiu quando Tom foi rechaçado nas redes por ter narrado uma propaganda de Coca-Cola, falando em “Copa de todo mundo” e que “o Brasil não é um País, é um caldeirão” – o vídeo, a quem interessar possa, está disponível no Youtube. Isso tudo, vale lembrar, num período em que a sociedade sofria uma convulsão social pelas jornadas de Junho de 2013, com manifestações de rua que eram incisivas em dizer “não vai ter Copa”. 

“Na época mesmo achei o julgamento infundado, pois acusavam o Tom Zé de “traidor do movimento”. Mas de qual movimento? O tropicalismo, desde sua gênese, tinha um projeto estético “mcluhaniano” de adentrar a “cultura de massa”, explica Diego. De fato, se regressamos à História, veremos que Caetano Veloso, em 1967, cantava “eu tomo uma Coca-Cola” na música “Alegria, Alegria”, hino precursor do tropicalismo. 

O sarcasmo alimenta também a segunda faixa do EP, com letra de Marcelo Segreto e harmonia assinada por Tom Zé e Tim Bernardes. Estudioso do mundo tropicalista, Segreto criou os versos da canção citando outras composições do tropicalista, como “O Abacaxi e Irará”, “Xiquexique” e “Parque Industrial”. Por razões que só a internet é capaz de nos agraciar, a música ficou ofuscada pela faixa-título.

Já Tim Bernardes, autor de “Papa Francisco Perdoa Tom Zé”, recorreu ao personagem de “Alegria, Alegria” para conceber sua marchinha carnavalesca. Se na canção de Caetano, marco do movimento tropicalista, os versos eram “Eu tomo coca-cola/ Ela pensa em casamento”, na versão atualizada por Tim, viraram “Já não penso mais em casamento/ Mas, tomo coca-cola, acham que eu estou vendendo”. Um deboche total.

“Taí”, a terceira faixa do EP, é um jingle composto pelo próprio Tom Zé para uma campanha do guaraná de mesmo nome quando ele era contratado da agência de publicidade DPZ, no final da década de 1970. A ideia do artista era usar o tema clássico de Joubert de Carvalho para promover o refrigerante. No entanto, a empresa não optou por usar a música, pois achava que um rock seria mais adequado para vender o produto aos jovens.

Mais de 30 anos depois, Tom abriu sua gaveta e acrescentou estrofes extras, além de um batidão funk carioca tocado pela Filarmônica.

Para fechar, “Irará, Iralá”: a música estava guardada também no baú de inéditas do tropicalista. A letra faz referência a personagens reais da memória do cantor, bem como figuras que foram importantes em sua infância, na cidade de Irará (BA). Desde sua mãe Dona Maninha, até Renato, amigo que lhe ensinou a gostar de música. O arranjo cria um clima de filme de Quentin Tarantino, com assinatura da Trupe Chá de Boldo.

Em tempo: o relançamento de “Tribunal do Feicebuque” mostra por que a trajetória auto-irônica de Tom Zé levou o jornalista italiano Pietro Scaramuzzo a chamá-lo de “O Último Tropicalista”, em biografia recém lançada pela editora Sesc. Ele continua sendo fundamental num Brasil que acelera sua escalada com o obscurantismo. Vamos ouvir Tom Zé.

‘Tribunal do Feicebuque’

Autor: Tom Zé

Gênero: Tropicália

Disponível nas plataformas digitais

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