Cultura

O Peso Esmagador da Pandemia

Notas sobre solidão, distanciamento & afeto(s)

diario da manha
Saturno devora seu irmão na visão do pintor espanhol Goya - Foto: Reprodução

Prestes a fazer mais uma revolução astral – desta vez chegando aos 36 anos – pego-me novamente naquele estado reflexivo em que muitas vezes essa data nos coloca, como que a avaliar os aprendizados acumulados pelos anos e as perspectivas que talvez possa ter a partir daqui.  

Mas, há esse incômodo fato a nos projetar uma gigantesca sombra cheia dos demônios da incerteza a levarmos em consideração e que tornam a data e o momento ainda mais delicados. Afinal, é o meu segundo aniversário dentro desse momento de pandemia e o cenário em que atravesso essa revolução é ainda mais desconcertante do que há um ano atrás. 

Isso porque há um ano, enquanto a pandemia ainda “engatinhava” e tínhamos como marca recorde os quase 500 mortos diários no final do mês de abril (o que já é muito e imoral mesmo dentro de um contexto de guerra) em comparação à marca atual que ultrapassa os 3.000 se projetando para os 5.000 mortos diários, nós ainda estávamos confusos e mal sabíamos como agir e nos portar diante de tal cenário nebuloso.  

Lembro que eu próprio cheguei a me considerar imune por estar na época morando na Chapada dos Veadeiros, em cima “de um gigantesco quartzo rosa“, como se costuma repetir por aquelas bandas – como se fosse um mantra que fechasse os corpos à contaminação do coronavírus e quaisquer outras doenças – cercado por “bruxas, fadas, magos e sábios místicos” imunes à decadência do Ocidente e mais “livres” que os “neuróticos das cidades“, como alguns mesmos tinham a empáfia de se declarar. E eu mesmo me achava assim naquela época: olha só o nível de pretensão e autoilusão a que se pode chegar, né?  

À época vivendo numa relação de proximidade promíscua num grupo de sete – e, às vezes mais – pessoas, hoje encontro-me isolado morando com uma pessoa que teve a infelicidade fortuita de se encontrar com o tal vírus mais detestado da contemporaneidade. Não deixa de ser irônico que eu tenha tido sorte – ou talvez já tivesse me contaminado antes sem o saber? – naquele momento, mas não é uma coisa a se recomendar que se faça, até porque na época não se sabia ou se tinha quaisquer notícias de variantes como as que hoje tem enterrado cada vez mais jovens e crianças, fazendo vítimas que poderiam ser consideradas improváveis levando-se em conta as primeiras evidências devastadoras deste mal. 

As evidências deste mal contemporâneos se dão de várias maneiras. Afinal, o vírus não é apenas uma entidade ou coisa-em-si, mas um conjunto de fatos que se desenrolam em relação com as vidas humanas.  

O que a ciência tem concluído a respeito do ciclo de vida natural no vírus é que o mesmo morre – ou se inativa – se não encontra para si meios de propagação. Seguindo essa rigorosa lógica o mais seguro a se fazer, além de tratar os doentes de modo isolado e adequado em hospitais equipados para tal, é conscientizar e normatizar os distanciamentos e protocolos de segurança ligados aos cuidados e higiene pessoais entre a população não-contaminada. Máscara, álcool em gel, lavar as mãos e manter distanciamento social são as mais eficazes armas que possuímos para evitar a propagação e o aumento vertiginoso de casos.  

É claro: tudo isso possui diversos efeitos no corpo social, redesenha os espaços de sociabilidade e até, o que atinge o núcleo ferido da individualidade e do narcisismo contemporâneos, redimensiona os nossos afetos. 

Um dos últimos livros que publiquei pela editora ProvokeATIVA, as 68 Teses Provokeativas a Favor da Arte-Vida & Contra Formas & Juízos Fascistas, Conservadores & Falsos Moralistas, uma das obras que mais adoro e sinto a força por traduzir uma parte de minha filosofia pessoal, apresenta em uma de suas teses: “Tese 26: O motor mais fundamental da vida é o tesão: em favor da suruba – simbólica, metafórica, estética ou concreta – contra a monotonia temática & os clichês do romantismo aprisionador, cafona & mentecapto.”  

Sem dúvida muito forte.  

E considerando-se quando eu o escrevi, em março de 2019, vivendo num mundo sem pandemia em que as pessoas poderiam ficar muito próximas fisicamente umas das outras e estando solteiríssimo sem precisar dar conta da minha vida ou ter qualquer responsabilidade afetiva muito séria, era realmente o retrato fidedigno de um pensamento vivenciado e provado experimentalmente com minha própria vida. 

Contudo, diante do quadro instalado do caos e horror pandêmico que vivemos, com o crescimento vertiginoso do número de casos, internamentos e óbitos devido ao mal do Covid19, precisamente entre jovens e adultos, é o mínimo reconhecer que este tipo de filosofia de vida pode ensejar a chancela irresponsável de uma via de propagação potencial e perigosa ancorada no próprio egoísmo. Que não cabe mais no contexto em que vivemos tal tipo de abertura do corpo aos abismos eróticos libertinos e arroubados nos quais, em alguma esquina, rolêzinho ou arapuca macia, podemos nos contaminar ou servir de ponte de passagem ao império mortífero do vírus.  

O que é de uma completa chateação e infelicidade sem fim no qual nos vemos obrigados, de certo modo, a arrefecer nosso descontrolado tesão em nome da manutenção das chances de boa saúde coletiva, quase como nos diz também as teses de Eros & Civilização do filósofo e pensador social da Escola de Frankfurt Herbert Marcuse. Algo contra o qual certamente lutei durante anos, mas que o contexto atual nos coloca de modo diferenciado.  

Aqui também, tal como em Freud, a “repressão sexual” é não apenas uma canalização produtiva da libido, mas o alicerce mesmo sobre o qual uma civilização inteira pode ser construída e mantida: em nosso contexto peculiar pode-se traduzir essa “civilização” de que falam Marcuse e Freud, por exemplo, como um sistema de saúde que controle e combata os casos sem ser tensionado e hiper-inflacionado pelas irresponsabilidades dos incontroláveis cidadãos que furam cegamente e intencionalmente a quarentena e o isolamento em nome de seu tesão privado ou de sua “saúde mental”. 

Ou seja, é claro que essa “repressão”, nesse momento necessária por questões de potenciais consequências sanitárias, tem seu outro lado que é hipertrofiar nossa carga psíquica neurótica e nos deixar surtados e até mais exaustos do que em nosso “antigo normal”.  

Contudo, essa estafa neurótica, por mais que sentida individualmente, é uma fissura que atravessa todo o corpo social e tem deixado cada um de nós fora do prumo e até sem muito foco produtivo, uma vez que nossas descargas pulsionais não encontram mais dispostas na realidade as situações e dispositivos nas quais elas eram negociadas com outras a partir de encontros, amizades, festas de congregação, rolês, raves, eventos culturais ou religiosos, relacionamentos ou mesmo sexo casual. 

Com a pandemia tivemos que entender que todo o contexto que criava o ambiente para essa liberdade – social, moral, sexual, cultural, etc – nos foi eliminado a partir mesmo do momento em que nosso espaço público nos foi interditado, sublimado, tendo que permanecermos o quanto pudermos em nossos lares. E que a saúde de um indivíduo – percebendo-se a coisa na figura completa, a dinâmica da sociedade como um todo – intervém e influi diretamente na saúde do coletivo e vice-versa. 

Com isso temos chegado a novas e até revolucionárias conclusões (seriam mesmo “conclusões” ou apenas “caminhos”?). 

Uma delas é que não existem saídas individuais para esse grande mal. Isso que o neoliberalismo – e a hipertrofia do setor privado na saúde e intromissão com compras privadas da vacina – propõe é uma cantilena, uma mentira deslavada. Que todas as tais saídas individuais não são saídas, mas desvios que retornam em ciclo e ainda ajudam potencialmente a sustentar o insustentável. Que se isolar numa choupana na Índia, no Tibet, no mato, no seio da floresta Amazônica ou mesmo num palácio em Dubai, que ir para uma comunidade hippie, indígena ou de agroecologia seja em que lugar for não “mata o vírus” e nem nos imuniza, e muito menos nos coloca em uma posição de segurança indubitável.  

Que nós e todos os outros ainda podemos ser veículos de transmissão do vírus seja em que ponto do mundo for e estivermos. Que mesmo que exista algum local da terra em que o vírus nunca existiu, ao sabermos disso o vírus dará seu jeito de ali invadir. Que mesmo nos lugares de menor fluxo de migração, mais remotos ou “seguros”, ainda existem contatos com gente que vem ou veio de fora ou que está indo vez ou outra fora. Que nenhum lugar é homogêneo em termos de presença viral, mas que o vírus pode muito bem acabar igualando todos os lugares do mundo uma vez presente.  

Isso porque, como fala o filósofo Byung Chul-han, o vírus tem com sua presença – real ou potencial – modificado totalmente os espaços comuns e as relações entre os indivíduos. E que por mais que a desconfiança cobre seu preço emocional e psicológico nos indivíduos, é ainda um instinto de sobrevivência e preservação que atua como um alarme biológico em nós. 

Por mais que seja triste e degradante essa “desconfiança” e a distância ainda assim têm um papel essencial para que o vírus não consiga se reproduzir a partir do contato muito próximo que temos com outros, seja na convivência comunitária ou seja num contexto de maior intimidade e privacidade.  

No caso de quem tem um parceiro fixo e está com ele, claro, está tudo relativamente sob “controle”. (Porque, de fato, nós não temos controle de nada, principalmente sobre “microorganismos” invisíveis como os vírus. Então, isso também não é nenhuma garantia ou segurança total.) Agora, quem está pulando de galho em galho – seja em festinha, em culto, em rave, em “orgia”, em rituais, etc, etc – em meio desta situação caótica pode muito bem estar colocando em risco a vida de muitas pessoas (pessoas que moram conosco, familiares, etc). E muitas vezes sem o saber, com certa ingenuidade e até boa intenção. Porque quem se contamina não retém o vírus só em seu corpo e nem sofre sozinho as consequências do contágio e da manifestação da doença. 

O poeta inglês do século XVII John Donne escreveu: “Nenhum homem é uma ilha isolada; cada homem é uma partícula do continente, uma parte da terra; se um torrão é arrastado para o mar, a Europa fica diminuída, como se fosse um promontório, como se fosse a casa dos teus amigos ou a tua própria; a morte de qualquer homem diminui-me, porque sou parte do gênero humano. E por isso não perguntes por quem os sinos dobram; eles dobram por ti. “ 

Mesmo isolados e distantes, um homem, uma mulher, uma criança, são ainda parte da humanidade e da sociedade humana. É um átomo de um organismo do qual veio a ser, um representante da espécie. Concordando ou não, sua estrutura biológica enquanto semelhante a de todos os outros ainda é potencialmente portadora da esperança ou da morte. Cada um de nós o somos. E os sinos, como nos diz Donne em seu magnífico poema, dobra para cada um e para todos. 

É preciso fazermos uma pergunta séria enquanto sociedade – porque é a partir do ponto de vista de pertencimento, porque mesmo os que se isolam nos interiores ainda circulam ocasionalmente nos espaços comuns por motivos da necessidade biológica de se alimentar, de trocar alimentos ou mesmo da inocente troca amigável de conversa e entra em contato com outras pessoas sadias ou não, quem de fato sabe? –: queremos vencer este vírus ou não? O que devemos fazer para que ganhemos essa guerra?  

Porque, sim, amigos, estamos em uma guerra contra o vírus, mas não contra a natureza – que foi quem preparou essa cilada para nós. E não à toa. 

Claro, na base da crise há uma mudança estrutural que boa parte da sociedade arvorada em conglomerados financeiros não deseja ouvir e aceitar: a verdade de que o vírus é também, de certo modo, um alarme, senão uma “vingança a seu misterioso modo”, da natureza contra a hybris humana pós-esclarecimento. No início de sua grandiosa obra A Dialética do Esclarecimento, os filósofos Theodor Adorno e Max Horkheimer assim alertavam os perigos que viveríamos: “No sentido mais amplo do progresso do pensamento, o esclarecimento tem perseguido sempre o objetivo de livrar os homens do medo e de investi-los na posição de senhores. Mas a terra totalmente esclarecida resplandece sob o signo de uma calamidade triunfal. O programa do esclarecimento era o desencantamento do mundo. Sua meta era dissolver os mitos e substituir a imaginação pelo saber. “ A natureza reage assim – com o vírus – ao desenfreado impulso do Esclarecimento impondo seus limites por meio de uma revolta contra a vontade de dominação e exploração predatória dos recursos naturais utilizados em prol da industrialização e capitalização absoluta.  

Essa mudança estrutural seria a guinada, uma revolução para uma vida totalmente inédita neste planeta. Nesse novo espaço vital não só o planeta poderia se regenerar (e, de fato, vocês lembram logo do início das quarentenas como houve regeneração natural de matas e rios, animais voltando a aparecer e se reproduzir, a poluição dissipada deixando o céu visível à noite nas grandes cidades, o ar mais respirável e etc?), mas as relações humanas entrariam em um novo patamar, e junto com isso as relações das pessoas com as coisas e os outros seres que são fundamentais no planeta como as árvores, os animais, a própria terra.  

Precisamos também rever a base e a dinâmica de nossos afetos e nossas necessidades pessoais. O vírus tem – de seu modo – nos ensinado a ver as coisas mais essenciais e que o resto pode muito bem ser dispensável. E que está tudo bem que assim seja. 
 

Enquanto isso não acontece – o que não impede que nós façamos esse debate de modo a construir coletivamente uma nova cultura política integrada com tais temas e desenvolvendo formas pedagógicas dialógicas – precisamos confiar no que nos diz a pesquisa científica testada e comprovada.  

E nos solidarizar com todos aqueles que estão na linha de frente desta batalha que, cada vez mais, tem sido dificultada por certos grupos políticos violentos e atrasados que espalham o terror, a mentira e a violência e que, no fundo já visível, possuem um pacto com a morte e com o vírus. 

Nesse momento é apenas com a solidariedade “fragmentada” – porém unida pelas distâncias através das redes e da internet – proporcionada pelo isolamento, distanciamento social e programas locais de lockdowns regulados (o ideal seria que o ser humano fosse civilizado ao ponto de não precisar de “fiscalizações”, mas sabemos como as coisas na prática se revelam) que iremos consiguirs conter essa onda crescente de contaminação e morticínios.  

E pressionar cada vez mais, por meio de associações, coligações, frentes amplas, meios institucionais e não-institucionais, ações pensadas de modo a causar maiores impactos no cenário político, cultural e etc, para que os responsáveis que estão nos poderes possam proporcionar o mais rápido possível a vacinação e o Auxílio Emergencial (no valor reajustado para, no mínimo, R$ 600,00) para que as famílias e os indivíduos que se prejudicaram com toda essa situação possam manter o mínimo de decência em meio a esse caos. E possam sobreviver de modo a poder se regenerar.  

E que os líderes fascistas e genocidas que comandam esse massacre e tem dificultado ainda mais a recuperação de todas as nossas boas condições sejam expulsos de suas confortáveis cadeiras e se tornem inelegíveis, pois só a assim a democracia pode sair da U.T.I. em que se encontra totalmente asfixiada por tiranos e oportunistas sem coração. 

Não bastasse a pandemia com todo o seu peso ainda temos que tirar de cima de nós a podridão assassina e o peso esmagador destes golpistas que ameaçam não apenas nossa liberdade, mas nosso viver e nosso bem-estar. O nosso presente e a nossa possibilidade de futuro. 

Ikaro Maxx é filósofo, multi-anartista, poeta e editor na ProvokeATIVA Editora. Autor de “Full Foda-se”, “A Arte da Subversão”,“Ode a Lorca & Outros Poemas” e “Lóki-Down”. Conheça mais aqui: www.provokeativa.com 
 

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