Cultura

Suingue sangue bom

Precursora do pop e disco brasileiros, Fernanda tem obra celebrada em “Fernanda Abreu 30 Anos de Baile”, disco em que os maiores hits da cantora são remixados e relidos por nomes como Emicida

diario da manha
Fernanda Abreu comemora 30 anos na pista com disco de remix - Foto: Murilo Alvesso/ Divulgação

Em 1990, o Brasil vivia o auge da lambada e o sertanejo dominava as paradas de sucesso ao mesmo tempo em que os mais afeitos à modernidade curtiam o som que vinha da gringa. Madonna e Prince infestaram as ondas radiofônicas com um pouco do que já rolava nas pistas dos EUA e Europa. Até que, distante do universo pop-rock que lhe colocou sob os holofotes na década de 1980 com o hit “Você Não Soube Me Amar”, surge Fernanda Abreu e um jeito mais cool de olhar para música dançante brasileira.

Com capa preta e branca, além de fotografia charmosamente desfocada, o álbum “SLA Radical Dance Disco Club” representou um mergulho definitivo de Fernanda na pista pop. A nova artista, ao contrário da garota dos backing vocals da colorida Blitz, não era mais solar, e sim da noite: vestia-se para ir à boate e sempre com batidas suingadas, num discurso – como é possível ver da primeira à última faixa de “SLA Radical” – de autoafirmação feminina e empoderamento. Fernanda Abreu estava no salão, obrigado!

Não sem antes, óbvio, provocar receios no presidente da gravadora EMI no Brasil, Jorge Davidson, que achou arriscado lançar no mercado brasileiro uma obra singular e diferente de tudo o que era produzido até então: “Adorei, que coisa diferente. Mas, você sabe, não tem mercado aqui pra essa coisa dançante”. Fernanda, contudo, foi incisiva: “Não tinha, vamos inaugurar! Acredita que vai dar certo.” Num estalar de dedos, ela virou a rainha da dance, do sample, da música black, do baile e do funk.

E, bem, musa é musa: são nelas que o público busca referências sobre o que escutar e como escutar – principalmente. Quase como uma espécie de agradecimento pela carreira costurada por clássicos como “Veneno da Lata” e “Rio 40 graus”, Fernanda lança nas plataformas digitais o disco “Fernanda Abreu: 30 Anos de Baile”, em que celebra sua obra a partir de 15 DJs convidados a remixar seus maiores sucessos.

“Desde o lançamento do meu primeiro disco, “SLA Radical”, em 1990, eu recebo o carinho e o entusiasmo dos DJs com meu som. E agora, 30 anos depois, é muito prazeroso para mim celebrar essa parceria lançando o projeto “Fernanda Abreu 30 Anos de Baile”, prestando uma homenagem a essa cena que amo tanto e fortalecendo ainda mais essa parceria nas pistas, nas festas e nos bailes”, diz a cantora, em material de divulgação.

Desde o início do ano passado, meses antes da pandemia de coronavírus, Fernanda disparou em colocar no mercado novos trabalhos. Primeiro, foi obrigada a gravar, sem a presença do público, o DVD “Amor Geral” – um belo show em que passeou por canções marcantes de sua trajetória, como “Katia Flávia” e “Garota Sangue Bom”, além de “Você Pra Mim”, música de versos amorosos que, neste Brasil desapaixonado, chegou ao status de hino do sentimento mais revigorante da alma humana: o tesão.

Depois, lançou o single “Do Bem”, no qual homenageia o cantor Jorge Ben Jor, e veio então duas coletâneas: em uma, reuniu os Lados B da carreira. Na outra, as principais baladas. Ambos os discos, é importante ressaltar, estão disponíveis nas plataformas de streaming.

Para o álbum “Fernanda Abreu: 30 Anos de Baile”, a lista de convidados é eclética. Todos, de alguma maneira, conseguiram contribuir para repaginar os clássicos ali interpretados, ao ponto de ganharam vida própria, nova estrutura harmônica e melódica.

O time, de fato, ajuda nessa empreitada: Vintage Culture, Gui Boratto, Bruno Be, Tropkillaz, Fancy Inc e DJs clássicos, responsáveis ajudaram a erguer as paredes dos bailes, como Corello DJ, Zé Pedro, Dennis DJ e Memê. Sem esquecer, claro, das participações dos rappers Emicida e Projota.

“Durante todos esses anos de convivência, percebi com clareza que Fernanda sempre apostou fichas nos DJs, criando com eles um laço carinhoso de convivência, harmonia e respeito”, afirma Memê, que também assina, junto com a cantora, a produção executiva de “Fernanda Abreu: 30 Anos de Baile”. Se hoje não existem barreiras para o punk, disco e pop brasileiros é porque Fernanda Abreu estava lá e abriu os caminhos para que novas gerações se aventurassem nesse tipo de som.

Aos 60 anos, recém-completados no último dia 8, muita coisa mudou desde que Fernanda pisou no palco pela primeira vez, a começar pela transformação musical e estética pela qual passou assim que saíra da Blitz. Ela é uma dessas cantoras que, pela força de sua dança e música, hipnotizam todos os que estão ao redor: sim, Fernanda Abreu tem o brilho da garota carioca, com suingue e sangue bom. O baile não pode parar.

Aumenta o som, pois são 30 anos a pista. A cena do pop brasileiro agradece.

Discos essenciais

SLA Radical (1990)

Primeiro disco da artista propõe uma cisão da sonoridade pop-rock da Blitz e traça um perfil próprio para a cantora. A Noite e Você pra Mim fizeram sucesso nas rádios e nas pistas

SLA 2 Be Sample (1992)

Segundo álbum, a “prova de fogo” de qualquer artista, provou que Fernanda se mantinha fiel a seu som, e foi responsável por lhe dar seu grande sucesso massivo: Rio 40 Graus

Da Lata (1995)

Celebrado como o melhor álbum da carreira da artista, conta com influências do samba e da MPB. Traz clássicos como Garota Sangue Bom e Veneno da Lata. O disco abriu mercado na Europa

Raio X (1997)

Acusada de fazer um som bairrista e carioca demais, abre o leque musical com a participação de nomes como Carlinhos Brown, Chico Science, Lenine e Herbert Vianna revisitando seus sucessos, além de trazer as gravações de Kátia Flávia, A Godiva do Irajá e Um Amor, Um Lugar

Amor Geral (2016)

Primeiro álbum de inéditas da artista em 12 anos, repôs Fernanda na mira do mercado pop e figurou entre um dos melhores álbuns do ano. Conta com clássicos instantâneos, como Outro Sim e Tambor

Fernanda Abreu 30 Anos de Baile (2021)

Terceira vez em que revisita seu repertório, mas, desta vez, com remixes que dão passo adiante no estudo pop. A participação de Emicida valoriza a obra no melhor remix do disco, Outro Sim. (Bruno Cavalcanti, especial para a Agência Estado)

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